1:22:31

#41: Vacinando a Alma - Brisando Fundo

by Elefantes Na Neblina

rating.1a6a70b7
Avaliação
5
Group
Atividade
Meditação
Indicado para
Todos
Plays
69

Neste episódio, falamos um pouco mais sobre o amor e suas dependências, sobre a importância de nos olharmos de fora e das formas como vamos nos fragmentando e da dificuldade de nos re-unirmos. Sobre os Elefantes Na Neblina: Três amigos conversam. um mundo em constante mutação. buscando jogar alguma luz sobre assuntos grandes, muitas vezes incômodos. conversando sobre o que é ser um humano em nossos curiosos e complexos tempos.

Transcrição

Amigos que gostam de conversar em tempos interessantes,

Incertos,

Implacáveis.

Com o futuro suspenso e o passado cada dia mais distante,

Estamos aqui estacionados na condição humana,

Na tentativa de fazer uma nova vida funcionar.

Cada dia é um passeio na neblina,

E os elefantes estão soltos.

Não usamos nomes,

Porque somos nós e somos ninguém.

O que importa é a conversa e a vontade de gerar alguma luz.

Fiquei pensando muito na nossa última conversa sobre amores condicionais e incondicionais.

Inclusive,

Foi muito legal que a gente recebeu muitas mensagens e provocações sobre o assunto.

E eu pensei que,

Refletindo muito depois,

Faltou uma dimensão dos amores condicionais e incondicionais na nossa conversa que eu pensei que talvez seja muito relevante para o que a gente estava falando,

Que é a ideia de codependência e interdependência nos relacionamentos.

E o quanto isso ajuda na condicionalidade ou na incondicionalidade dos relacionamentos.

E eu queria ouvir um pouco de vocês sobre isso,

Porque,

No fim,

Eu acho que muito se fala da ideia de relacionamentos interdependentes,

E eu fico pensando o quanto hoje em dia de fato a gente consegue ter um relacionamento que seja real e profundo,

Que seja interdependente.

Eu acho que é uma boa pergunta.

Eu não sei,

Esse negócio da codependência,

Na origem,

Era alguma coisa bem específica.

A codependência surgiu como uma hipótese quando você tinha aqueles casais onde um dos dois tinha algum problema sério e não conseguiria existir sozinho,

E o outro basicamente era quem cuidava do um.

E de repente.

.

.

Existia uma simetria de força.

Absoluta.

Só que o que eles descobriram,

Observando,

Que depois de um tempo,

Se por acaso aquela pessoa que tinha um problema grave melhorava e ganhava autonomia,

O parceiro,

Na verdade,

Não via isso com tantos bons olhos,

Assim,

Inconscientemente pelo menos,

Apesar de na consciência parecer que ele queria a melhora do outro,

Ele estava dependente daquela função que ele ocupava de cuidador e tudo mais.

A história começou assim,

Depois ela foi evoluindo até que ela passou a incluir todas as formas de insegurança na relação que você compensa com um papel claro.

Então,

Existe codependência de muitos jeitos,

Por exemplo,

Aquele cara que tem dinheiro em todas as relações,

Ele entra numa coisa de deixa que eu pago,

Tem gente que vai para esse lugar,

Então deixa que eu resolvo,

E ele,

Na verdade,

Ele sem perceber,

Ele não só se cerca de pessoas que são mais frágeis e dependentes,

Como ele as treina para que dependam dele.

E atrofia os músculos delas,

Né?

Claro,

E essa pessoa claramente é uma codependente.

Agora,

Para mim,

Pelo menos,

Essa codependência não deixa de ser mais uma daquelas clássicas armadilhas que a gente entra em busca de certezas.

Então,

O relacionamento afetivo,

Para mim,

Ele sempre é aquela corda bamba onde você tenta botar uma coisa que é infinita em um mistério dentro de um recipiente finito que é uma pessoa.

Então,

Sempre,

E uma relação,

E uma história.

Então,

Sempre é aquela coisa,

Puxa,

Será que a pessoa gosta mesmo de mim?

Será que eu gosto mesmo de estar aqui,

Eu gosto dela,

Será que isso tudo está funcionando ou não?

Então,

É muito tentador você ter uma explicação,

Ainda que você não coloque assim.

Você tem um papel,

E você,

Quando você tem o papel,

O papel está lá,

Tudo funciona dentro do papel,

E é claro que está tudo bem.

Olha,

Essa pessoa tem esse lado,

Eu tenho esse outro lado,

A gente encaixa.

É a tampa da panela,

E a panela,

E pronto,

É o pé doente,

E o chinelo,

E todas essas metáforas famosas.

Elas dão uma segurança,

E a verdade é que eu acho que os seres humanos,

Eles não se dão muito bem sem esses tipos de atalho,

Onde você não precisa mais pensar e você só toca no automático,

Enquanto que sem esses atalhos,

Sem esses rótulos,

Sem esses papéis,

Tudo tem o despêndio de energia de uma terapia de casal.

E quantas pessoas conseguem viver numa terapia de casal que não tem fim?

Também tem isso,

Né?

Então,

Essa é um pouco a minha visão sobre a codependência,

Ela,

Em parte,

Ela é um problema e,

Em boa medida,

Em algum grau,

A codependência eu acho que sempre existe,

Tá?

A pequenininha seja,

Ela está lá.

E a interdependência?

Pois é,

A interdependência.

.

.

Não,

Não,

Eu não sei,

Eu não acho que a interdependência é uma coisa que contradiz a codependência.

Para mim,

Pelo menos,

A interdependência é uma coisa quase que budista,

Não existe a existência sem a interdependência,

Porque não existe a independência,

Só existe a interdependência,

Pelo menos para mim.

Sim,

Quer dizer que.

.

.

É,

Todo mundo depende para existir de um monte de coisa que não vem dele mesmo,

Né?

Então você já tem uma interdependência com meios,

Tem uma interdependência com todo mundo que você está se relacionando.

Agora,

A codependência é quase que aquele componente mais pessoal da história da interdependência,

Assim que eu vejo.

O que você acha,

Gor?

Para onde você está indo com a cabeça?

Eu estava lembrando de um episódio do Tim Ferriss,

Que era exatamente sobre esse tema,

Que era uma entrevista com uma comediante chamada Whitney Cummings,

Não sei se vocês lembram desse episódio.

Ela é uma comediante famosíssima e ela entrou num tema que eu até então não tinha prestado muita atenção e fui entender um pouco melhor,

Pelo menos a minha interpretação de tudo que ela foi contando ali,

Que a codependência nasce da necessidade de um mecanismo de controle,

De segurança.

Então,

Como o Bi falou,

Você cria,

Seja com o teu companheiro,

Seja com as pessoas que você convive,

Algum tipo de interdependência que faça com que você tenha,

Mesmo que subliminarmente,

Algum fiapo de controle.

Isso pode ser um negócio escancarado,

Tipo vou pagar a conta de todo mundo e sempre ser visto como esse cara.

Como você criar situações que as pessoas se encontrem num lugar onde não é claro a dependência que ela tem de vocês,

Mas é muito claro a não independência.

Então,

Que são duas coisas bastante diferentes,

Uma coisa é você querer segurar o caminho para onde a pessoa vai correr e a outra é você colocar a pessoa num lugar que ela se sente solta,

Mas no fim,

Na hora que ela vai tomar a decisão,

Ela vê que ela não consegue viver sem aquela relação.

E acho que isso são mecanismos que hoje a gente acha que são caracterizados como algum tipo de patologia,

Mas são muito mais presentes nas relações humanas,

Sejam pessoais,

Sejam corporativas,

Do que a gente se dá conta.

Eu acho que esses componentes,

Eles são inevitáveis,

A rigor.

Se a gente vai para a história lá atrás,

Vamos para a história como ela começa,

Ela começa de um jeito muito simples.

Você chega no mundo e você oferece amor incondicional e infinito e,

Em troca,

Você espera que o outro tenha controle,

Porque você não tem,

Porque você é um bebê.

Então,

Você começa com amor e o outro tem que te devolver amor e controle da situação e controlar a tua vida no bom sentido e organizar as coisas para você e garantir que tudo dê certo.

Então,

Basicamente,

A gente começa a vida com um investimento all-in do ponto de vista emocional e uma expectativa vaga de receber tudo de volta que a gente possa precisar em troca.

E é claro que isso não pode funcionar direito por muito tempo,

Não é feito para funcionar direito por muito tempo.

Então,

À medida em que a gente vai vivendo nesse mundo,

Cada um de nós vai tendo a sua própria história que se define pela maneira pela qual não deu certo.

Então,

Essa barganha inicial,

Que é eu entrego tudo e eu vou receber tudo de volta,

Não vai funcionar assim.

Então,

Na medida em que não vai dando certo,

A gente vai mudando a nossa entrada nessa partida e a nossa maneira de fazer esse jogo.

Então,

A gente ao invés de simplesmente entregar tudo não afetivamente,

A gente entrega menos afeto e começa a pôr mais controle do nosso lado.

E na medida em que as coisas vão dando errado,

Vai diminuindo a dose de afeto espontâneo e vai aumentando a dose de controle,

Até que a gente pode dizer que no limite máximo a relação é só controle e zero afeto,

Que também obviamente não dá certo.

Então,

O que acontece é que a gente está ali,

Fazendo essa regulagem desses dois lados e em alguma dimensão da nossa existência,

Isso está sempre sendo manifesto.

O que é interessante,

Porém,

É que nós somos seres que não precisamos viver numa dimensão só.

Isso é uma coisa que eu acho que muitas vezes é mal explicada.

Não é que necessariamente a gente resolve o jogo nessa dimensão que eu descrevi.

Se vocês param para olhar,

Na dimensão que eu descrevi,

O jogo não tem solução.

Essa combinação de eu tenho uma expectativa cega emocional e você tem um controle e eu tenho controle,

Isso não se resolve.

Mas nós somos seres capazes de nos afastarmos da situação e olhar essa situação de cima ou de fora,

Que é a mesma coisa.

E desse lugar em que nós somos testemunhas desse drama sem solução,

Nós também podemos sentir coisas.

E essas coisas que a gente sente são completamente diferentes.

Então,

O que é a impressão que eu tenho?

Aquele amor incondicional do bebê não é o verdadeiro amor incondicional que nós estávamos falando lá atrás.

Porque esse amor incondicional do bebê,

Na verdade,

É o mais condicional do mundo.

Ele é completamente interesseiro,

E aí num sentido não difícil de falar.

Eu acho que o amor incondicional é da mãe e do pai,

O bebê é interesseiro completamente.

É,

Pois é,

Mas.

.

.

E é uma na medida que se atenda a ele,

Senão ele chora.

Pois é,

Pois é,

Pois é,

Pois é.

Mas esse amor incondicional que vem dos pais também,

Ele é um processo constante de sacrifício do próprio ego,

Né?

Não é sem sacrifício do próprio ego que vem esse amor incondicional.

Se fosse assim,

Não existia depressão pós-parto,

Se fosse assim a gente não tinha todos os dilemas familiares,

Quer dizer,

O inconsciente das pessoas está lá lutando contra essa situação,

Né?

Então,

Pelo menos é isso que a psicologia nos mostra.

Então,

Esse incondicional,

Ele vai existindo sem idealização,

Mas é de um outro nível,

E desse outro nível ele vai sendo incondicional de verdade.

Mas,

Assim,

Num nível primitivo,

Instintivo,

Eu não acho que o amor instintivo é incondicional,

Eu acho que ele é baseado em outra coisa.

Como me disse uma psiquiatra,

Uma vez,

Muitos anos atrás,

No momento que pegaram o bebê e eu estava na maternidade,

Colocaram o bebê em cima de mim e era meu filho,

Eu fui tomada pela maior culpa que eu já senti em toda a minha vida.

E essa culpa é a descrição do instinto,

Ou materno,

Ou até paterno,

Do ponto de vista instintivo mesmo,

É assim,

Olha a responsabilidade que eu tenho em relação a esse ser,

Quantas coisas eu posso fazer que vão dar errado,

Como eu posso danificar isso,

Se acontecer alguma coisa com esse ser e minha vida acabou,

Né?

Não é exatamente.

.

.

Eu gosto de estrangar essa matéria-prima,

Né?

Isso não é exatamente o que eu definiria como amor incondicional,

Quer dizer.

.

.

Neurose incondicional.

Então o jogo começa muito mais complicado,

Mas o amor incondicional ele existe,

Ele existe numa outra camada do nosso ser,

Pelo menos é nisso que eu acredito,

E é a camada que olha pra tudo isso e acolhe esse drama todo e aceita que ele exista,

Percebe que ele é um jogo mais ou menos sem solução,

E ao mesmo tempo de como ele é o jogo através do qual o amor se manifesta,

Então aí é como se a gente tivesse,

Sei lá,

Um meta-amor,

Um amor em cima do amor,

E eu acho que esse é que é o amor incondicional,

Pelo menos assim que eu vejo.

Lógico que eu vou fazer o papel do Goa aqui,

Pra ver se eu entendi.

Olhando de quem tá encarnado aqui nesses dilemas do amor,

Eu gosto muito do que você falou da ideia dessa bidimensionalidade.

Se eu olhar só pro que eu tô olhando e vivendo aqui nessa relação com a outra pessoa ou com as minhas relações,

Eu nunca vou conseguir resolver,

Né?

Eu realmente,

Eu preciso acessar um outro olhar,

Eu preciso sair da perspectiva que eu tô,

E é só dessa forma que eu vou conseguir enxergar,

Resumindo,

Não é através dessa mesma dinâmica que eu resolvo isso,

Eu preciso ter um outro olhar,

Ter uma outra perspectiva.

É,

Porque a nossa experiência,

Ela é totalmente impura,

Contaminada,

Nós não vivemos as coisas,

Quanto mais visceral é aquilo que a gente tá vivendo,

Menos puro é.

É uma mistura de um milhão e meio de coisas,

Então,

Se você quer dizer,

Ah,

Tem amor incondicional ali no meio,

Tudo bem,

Mas é mais prático você olhar a situação de fora e ali desse lugar mais incondicional,

Dessa tua versão mais sábia,

A tua versão de testemunha,

Aí você olha tudo,

Porque a testemunha não é neutra,

A testemunha é carinhosa,

Que a única razão pela qual você fica olhando pra alguma coisa um tempão e prestando atenção nela,

É porque você tem um genuíno interesse por isso,

Mas isso é possível fazer com um certo afastamento,

Quando você tá ali naquela tua dimensão que tá dentro do jogo,

É tudo diferente,

Vou dar um exemplo muito simples,

Né?

Então você vai,

Você já sabe que você tem que ter uma conversa difícil com uma pessoa que você ama muito,

E aí você combina com você mesmo,

Tal,

Nossa,

Acabei de assistir o episódio 40 dos elefantes,

Já entendi tudo,

Irei para essa conversa e terei uma atitude de pleno amor incondicional,

Né?

E aí eu chego,

Oi,

Tudo bem,

E aí eu penso por dentro,

Amor incondicional,

Amor,

Como é que você pode estar dizendo isso?

Não,

Pera lá,

Você não me entendeu,

Não é nada disso,

Etc,

E antes que você consiga repetir o mantra do amor incondicional três vezes,

As tuas entranhas já viraram do avesso e você tá lá na montanha russa emocional,

Instintiva,

Sempre,

E você depois se sente um idiota primitivo,

Eu não acho que você é um idiota primitivo,

O que eu acho é que essa é a dimensão de você que vai reagir assim sempre,

O que acontece é que você não precisa colocar o centro da tua consciência nela,

Você pode se assistir sentindo isso.

Eu acho que inclusive você tem,

No tratado do amor incondicional,

Deve vir um espaço que te permite pular uma etapa da sua vida,

Que é quando seus filhos são teenagers,

Né?

Quando eles são adolescentes,

Você pode abrir mão do amor incondicional por um período de anos,

Que eu acho que aliás seria um grande serviço que a gente poderia fazer aos nossos filhos,

Aos adolescentes de hoje,

Seria o que os nossos pais não puderam fazer conosco,

Que é gravar os filhos,

Para que eles possam,

Quando tiver os próprios filhos,

Entender como é que eles eram e como aquilo acontecia,

Porque a gente tende a esquecer,

Né?

A gente tem que imaginar que isso acontece agora,

Mas eu acho que não existe nada que prove mais um amor incondicional do que puberdade.

Olha,

Eu vou até além,

Eu tenho a impressão que essa história de quando todo esse amor que a gente tem que dar e tudo mais,

Acabou se transformando,

Como tantas vezes acontece,

Em uma fórmula simples,

Demais.

E toda vez que a gente é tiranizado por uma compreensão simples de uma coisa complicada,

A gente acaba fazendo besteira.

Eu afirmo,

E eu acho engraçado dizer isso,

Que dependendo do caso,

É interessante,

A filha pergunta para o pai,

Pai,

Você me ama?

E ele,

Dependendo do que ela anda fazendo,

Ele diz,

Para ser bem sincero,

Não tenho tanta certeza,

Né?

E eu acho que esse lugar pode ser muito mais rico,

Muito mais construtivo e pode ser um grande presente para a vida da filha.

Hoje não,

Né,

Filha?

Hoje não,

Hoje não,

Hoje eu já passo minha capacidade de te amar.

Então,

Porque isso,

Essa história do amor incondicional também me parece uma espécie de 007,

Entende?

Pronto,

Sou amado incondicionalmente,

Agora tenho licença para matar.

Não tenho certeza de que você se transforma.

É uma fábrica giradora de tiranos.

É.

Agora,

Voltando a falar do amor incondicional entre casais,

Seja de que forma eles se manifestem,

Uma querida ouvinte nossa trouxe duas provocações que eu queria dividir com vocês.

Uma que eu acho que vai muito com o que o Bi falou,

De você olhar de outro lugar esse amor incondicional.

E ela trouxe essa provocação,

Se o amor incondicional não fica mais fácil de ser atingido quando o amor acaba,

E como é que fica o desejo numa relação incondicional?

Eu acho essas provocações bem interessantes quando a gente fala de.

.

.

A primeira parte eu queria entender melhor,

Como é que fica o amor incondicional depois que o amor acaba?

Não,

É que é mais fácil você ter um amor incondicional quando o amor de fato acaba e você olha ele por outra perspectiva.

Ele vira muito menos condicional,

Porque,

Enfim,

Você já não tem mais as condições do dia a dia,

Você não tem mais as condições da relação.

E daí ele vai para um lugar de incondicionalidade,

Porque ele já é um amor até mais,

Talvez não idealizado,

Mas visto de outra perspectiva.

Eu acho que esse primeiro amor,

Ele nunca foi incondicional porque ele não teria acabado se assim o fosse.

Ele acabou porque a condicionante que o mantinha deixou de existir.

E a questão de você poder assistir por um outro prisma,

Eu acho que complementa até a sua segunda questão,

Na minha opinião,

Talvez o amor que seja desconectado de um desejo possa ser vivenciado de uma forma talvez mais plena,

Ou mais verdadeira,

Ou menos confusa.

Não quer dizer que as coisas não possam acontecer juntas,

Mas eu acho que o que ela quis dizer talvez,

Não sei,

Talvez a minha interpretação seja essa,

Que uma vez que sai o desejo dali,

Você possa ver o que sobra de verdade e ali possa existir um amor de uma outra dimensão,

Um querer bem,

Um carinho,

Alguma coisa assim,

Que também possa ser na mesma linha.

Mas existe desejo.

Isso é difícil para mim responder uma pergunta desse tema para o amor em pessoa que está na minha frente.

O homem é amor.

Larry B.

Não,

Larry não.

Nem tente projetar isso no B.

Estou olhando o B aqui,

O B está.

.

.

Essa carteirinha.

.

.

Ela é dourada,

É uma carteirada.

Ela tem um badge.

Olha,

Eu tenho a minha leitura que é um pouco uma explicação daquilo que eu tentei dizer na última vez que a gente conversou sobre isso,

E para mim a coisa vai assim.

O amor verdadeiro é eterno,

Tá?

Acho que eu começo por aí.

É alguma coisa meio como a luz.

Eu não acho que amor verdadeiro,

Em alguma medida,

Ele deixe de existir como amor,

Tá?

Agora,

O que acontece?

Relacionamentos,

Eles começam,

Se desenvolvem e acabam,

Porque eles são seres vivos,

Eles têm ciclos de vida.

E os relacionamentos,

Para mim,

Eles não são eternos.

Então existem relacionamentos que são libélulas e existem relacionamentos que são tartarugas das galápagos.

Mas assim,

Eu acho que se nós tivéssemos,

Sei lá,

Uma vida saudável por 200 anos,

Imaginar que a gente se casasse aos 25,

Ficasse casado por 175 anos,

Seria um tipo de doença mental.

Não ia fazer muito sentido.

Bi,

Não é você que falou daquela.

.

.

Existe uma cidade na Itália onde os casamentos duram primeiro um ano,

Depois as pessoas têm que se reunir de novo,

Aí tem uma prorrogação para mais cinco,

Se os dois tiverem interesse em estender o contrato,

Não é isso?

É isso mesmo,

Tem uma comunidade no norte da Itália que,

Não me esqueci o nome qualquer agora,

Mas em princípio é o seguinte,

O que eles têm são contratos de leasing,

Dá para dizer que é isso.

Então você vai lá e a cada ano você renova o contrato de leasing e você tem que renovar com um ritual que passa pelo líder da comunidade,

Que é também uma espécie de mestre espiritual,

Ou seja,

Tem um conselheiro para avaliar se as pessoas estão se iludindo ou se realmente está valendo a pena.

Então ele pode inclusive fazer um trabalho e dizer,

Vocês querem continuar casados?

Mas deixa eu ver bem,

Você tem certeza?

Porque eu não estou tão convencido assim.

Então ele pode cutucar para ver se as pessoas realmente querem continuar nessa relação e aí depois o casamento mesmo,

Parece que é só depois que eles renovaram o contrato de leasing,

Não sei quanto tempo,

É mais ou menos como um contrato de leasing,

Depois que você já usou o carro três anos,

Se você quiser pagar o remanescente para que o carro seja seu,

Aí sim,

Aí você casa.

E o que eu acho interessante nisso,

Respondendo a pergunta é,

Para mim,

Quando eu falei que o amor condicional era o que sustentava os relacionamentos,

Eu estava falando desse desejo,

Por exemplo,

Eu estava falando das expectativas,

Eu estava falando do grande psicodrama que é o relacionamento íntimo,

Essa confusão toda,

Essa mistura de medo,

Amor,

Poder,

Esperança,

Criança,

Adulto,

Todas essas coisas positivas e negativas que nós temos ao mesmo tempo ali e que nós esfregamos,

Como se fossem duas psiques se esfregando e tentando tirar as arestas até que a gente fique mais polido,

Como se fosse um seixo de leito de rio.

E é para isso que os relacionamentos servem,

Na verdade.

Então,

A gente vai ter essas projeções,

Esses desejos,

E eles são vividos e eventualmente gastos.

E aí o que fica depois,

Se era um amor verdadeiro,

É o amor incondicional,

Sim.

Agora,

Como eu insisto,

O amor incondicional,

Não é que ele é mais fácil depois que o relacionamento acaba,

Ele é mais visível,

Porque não tem todo o resto em cima dele,

Pelo menos essa é a minha visão.

Ou seja,

O relacionamento é o lugar da novela,

Depois que acabou a história,

A novela,

Todo mundo já se satisfez ou já se frustrou de todas as maneiras que estavam presentes e possíveis naquela química,

Fica aquilo que é um amor que não precisa falar,

Não precisa mais conversar,

Também não precisa necessariamente transar.

E aí esse amor,

Ele é amor incondicional.

Agora,

Ele é muito mais sem desejo e ele é livre também.

Então,

Necessariamente,

As pessoas podem continuar juntas depois que chegam nesse estado?

Claro que podem,

Vai depender dos outros fatores.

Mas é isso que eu quis dizer na última conversa,

Elas não necessariamente precisam,

Porque se precisassem,

Seria condicional.

Eu tento concordar também.

Agora,

Para mim,

A história importante disso,

Juntando quantas conversas que a gente tem,

É onde tudo isso se articula com a história dessa conversa que a gente tem com a gente mesmo.

Porque eu estou falando muito hoje desse psicodrama,

Dessa novela mexicana que são os relacionamentos.

Só que nós não fazemos só isso fora,

Nós fazemos isso dentro da nossa própria cabeça também.

E com a gente mesmo.

E com a gente mesmo.

E por isso nós temos tantos autores bacanas que ficam tentando nos ensinar a sair desse diálogo.

Desse diálogo com a gente mesmo,

Que é como se fosse essa voz interna o tempo todo.

E aí,

Sobre isso,

Tem um livro interessante que acabou de sair,

Que se chama Chatter.

E é um livro que quer dizer,

Assim,

É a conversa dentro da cabeça de um autor que tem uma profissão maravilhosa.

Ele é um psicólogo acadêmico,

Acho que da Universidade de Michigan,

E ele é especialista da cadeira de introspecção.

Isso você ia gostar,

Hein,

Larry Gould?

Eu sou professor de introspecção na universidade.

E eu ganho bolsa para ter o meu laboratório de introspecção.

E eu fico estudando introspecção.

Uma das coisas que ele fez foi chegar no Times Square e virar para as pessoas e dizer ah,

Então,

Eu sou um cientista,

Eu tenho aqui um gravador,

Você toparia gravar tudo o que está passando pela tua cabeça,

Você falando com você mesmo agora?

E ele coletou mais de mil gravações.

Ele conseguiu?

Sim.

Algumas pessoas,

Obviamente,

Não fariam.

Algumas pessoas gravavam só.

.

.

Isso dá mesmo a pessoas?

Mil,

Não?

Não,

Não,

Não.

Se você pegar da pessoa certa.

.

.

Ele ia demorar mais ou menos um dia para conseguir.

.

.

É,

Um dia e meio.

Um dia e meio.

Um dia pós quebra de relacionamento,

Isso dá uns 150 volumes.

E a conclusão que ele chegou é interessante.

Ele chegou à conclusão de que,

Primeiro,

Nosso cérebro foi feito para funcionar desse jeito,

Tá?

E que,

De fato,

O problema não é ele fazer isso.

O problema,

Obviamente,

É o quanto que a gente entra em círculos viciosos e espirais negativas.

E que,

No fundo,

Claro.

.

.

O Sadhguru fala muito que a mente está cumprindo a função dela de gerar pensamentos.

E a consciência entra,

Muitas vezes,

No lugar do pensamento,

Achando que ela é o pensamento,

E outras vezes consegue se colocar no lugar do observador e pescar o pensamento que faz mais sentido.

Mas a função da mente é aquela.

O espaço que se dá a ela que é a questão do quanto você consegue levar a tua consciência.

E é um.

.

.

Agora,

Vamos falar de uma coisa séria aqui.

Vamos falar de um negócio sério,

Porque a gente fala de todos os processos que a gente cria,

Tudo que a gente lê para se distanciar do pensamento.

Mas quando,

Como diria um termo que em português eu ainda.

.

.

Acho que deve ter uma boa tradução,

Mas no inglês é when the shit hits the fan,

Né?

Ou seja,

Quando a panela esquenta,

Alguma coisa assim.

Quando a porca torce o rabo.

Cara,

Como é difícil você conseguir encontrar aquele espacinho entre o estímulo e a reação,

Mesmo que você ainda consiga não reagir,

Como você consegue ver essa avalanche de pensamentos e de fluxograma de possibilidades que a mente vai criando de diversos diálogos que você podia ter.

E para não falar dos pensamentos obsessivos,

Compulsivos,

Que se entra muito fácil.

E mesmo com a consciência dessa situação,

Existe.

.

.

E até.

.

.

Onde é que eu li isso?

Acho que foi no David Hawkins.

Que a gente não pode subestimar a parte da gente que é alimentada de prazer por estar nesse lugar.

Nesse lugar da simulação dessas.

.

.

Dessas discussões inteiras.

É desse lugar de prazer que a gente tem vontade de ficar.

Aquela raivinha que é gerada.

Aquela situação,

O cenário que a gente cria.

A gente sai,

Fala tudo que a gente imaginava porque a pessoa precisasse ouvir.

Sai daquele lugar com aquela satisfação,

Daquele preenchimento,

Aquele.

.

.

Não dá para subestimar esse víciozinho desse lugar gostoso.

Mas então.

.

.

Mas é justamente nessa direção que é o meu ponto.

Meu ponto hoje é.

.

.

Não me parece que o bom caminho seja você ter a expectativa de que isso não aconteça.

Ou de que essa reação não venha.

O que eu estou dizendo é justamente que se você vai para essa situação e ao invés de você estar dentro dela esperando ter um comportamento diferente,

De que você vai chegar lá e você vai atingir uma frieza transcendente que não está,

Não é provável,

Se você vai ao contrário sabendo que o mais provável é que você sinta tudo isso que você descreveu,

Mas você se olha do lado de fora enquanto você está lá sentindo e fazendo essas coisas todas,

É desse lugar de fora que você tem uma chance de fazer algo diferente.

Não porque você não está sentindo aquilo.

Você vai sentir tudo aquilo.

Mas se você se vê sentindo e você,

Apesar de estar sentindo,

Você se vê de fora,

Aí você tem uma chance.

Gente,

Esse é o mesmo processo que num nível patológico leva à dissociação do trauma.

Ou seja,

É um mecanismo que a alma tem para se proteger.

Acontece alguma coisa muito difícil de suportar e uma parte de você sai fora.

E,

Na verdade,

Isso é a base de muitos problemas psicológicos.

Por quê?

Porque ela sai fora de um jeito desordenado,

Ela sai fora de um jeito apavorado,

E nunca mais consegue voltar,

Por assim dizer.

E o resultado disso é que a gente perde um pedaço,

A gente fica traumatizado,

É aquilo que eu falei a respeito do filme Soul,

As dissociações da alma.

Mas o que eu estou dizendo é que esse mesmo processo da alma,

Numa versão positiva,

É o caminho da liberdade e,

Quiçá,

Atenção para o quiçá,

Isso daí veio de algum lugar,

O quiçá da iluminação.

Eu quero fazer uma pergunta.

Faça.

Já que você está nesse tema em especial,

Me explica uma coisa aqui.

Eu li que,

Vou aqui parafrasear,

Para não correr o risco da minha interpretação estragar o processo,

Que como se o inconsciente soubesse que algo importante precisa ser aprendido,

Por mais doloroso que fosse,

Seria a única forma de passar por uma experiência.

E essa é uma parte da psicologia do Jung,

Que concluiu que depois de uma vida de estudos,

Há uma pulsão inata no inconsciente em direção à unidade,

Completude e realização do ser.

E eu fiquei pensando nisso como se se confundisse nessa retórica a uma inconsciente quase como sendo a mesma coisa.

E aí você,

Como um conhecedor da área,

Você acha que existe ali,

Dentro desse inconsciente,

Dentro da sua experiência,

Na medida que você faz as suas cavucações,

O que a gente poderia chamar de mecanismos de autossabotagem ou mecanismos,

Enfim,

Qualquer coisa que não consciente que leve a pessoa a viver uma experiência que era exatamente aquilo,

Que era o que a alma precisava vivenciar,

Mas que é visto como trauma.

E aí eu vou emendar,

Desculpe,

Numa colocação do seu amigo Victor Frankl,

Que o livro dele lá,

O principal do Busca de um Propósito.

.

.

Homens em Busca de Sentido.

Hã?

Homens em Busca de Sentido.

Homem em Busca de Sentido,

Isso.

Que justamente a única das liberdades que não podem ser tiradas do homem é aquela que dá significado àquilo que ele está vivendo.

Então,

Dentro desse processo,

Desculpa,

Se eu estiver fazendo pouco sentido,

Você me corrija depois.

Eu queria entender como você enxerga o fato,

Se isso for verdade,

E realmente é inconsciente,

Cria uma situação que você precisa viver,

O que te sobrou,

Na verdade,

Não é superar aquele trauma,

Mas ressignificar,

Que é uma coisa que você sempre disse para mim,

Que era uma coisa que você usava muito,

Que era reescrever o passado.

Sim,

Sim,

Sim.

Olha,

Eu estou aqui tentando organizar porque você disse que ia fazer uma pergunta e você fez mais ou menos umas 47,

E eu estou tentando organizar um pouquinho.

Não,

Aí eu estou vendo mágoa,

Tem mágoa.

Não,

Não tem mágoa,

Não tem mágoa nenhuma.

Só estou organizando os pensamentos aqui.

Primeiro,

Vamos falar um segundinho de Jung.

Tem uma pegadinha aí.

Quando Jung fala do anseio da psique pela totalidade,

É importante entender o que ele está querendo dizer com isso.

Ele está dizendo o seguinte,

Que a nossa experiência psicológica,

Psíquica,

Ela sempre se dá por polaridades.

Ou seja,

Você não tem uma experiência de nada sem ter,

De algum jeito,

A percepção do avesso daquilo que você está experimentando.

Ou seja,

Você não conhece o bom sem conhecer o ruim,

Você não conhece o alto sem conhecer o magro,

Você não conhece o forte sem conhecer o fraco.

Você não consegue ter uma avaliação de nada se você não tem,

Ao mesmo tempo,

Um aceno do avesso.

E o que o Jung está,

Na verdade,

Querendo dizer?

Que tudo aquilo que a gente entende como existência individual nada mais é do que um conjunto de polaridades que a gente fica com um lado e rejeita o lado oposto.

Então,

Cada um de nós pode se descrever como uma série de pares de polaridades em que você é uma coisa.

Então,

Você se acha mais isso do que aquilo e você tem um número infinito de experiências disso.

Muito bem,

O que ele disse é a gente primeiro se reconhece nessa polaridade e depois a nossa tendência é perceber que a gente também é o oposto.

E é na medida em que a gente pega o oposto também que a gente fica as duas coisas ao mesmo tempo e a gente se torna completo e total.

Então,

Você é,

Ao mesmo tempo,

Bonito e feio,

Inteligente e burro,

Alto e baixo,

Forte e fraco.

E aí,

Na medida em que você consegue experimentar as duas polaridades,

Dependendo da circunstância,

Você é tudo.

E é muito interessante o Jung ter observado isso,

Porque,

De fato,

Quando você pega uma pessoa que está muito preocupada em sustentar a própria identidade dela,

Você vê o esforço que ela faz e como ela se sente ameaçada se alguma coisa ou alguém sugere que ela é o avesso disso.

Então,

Isso é o que o Jung estava falando.

Agora,

Você trouxe uma segunda camada nessa história,

Que é a camada do trauma,

Que é o quanto que a nossa alma é,

De certa maneira,

Aquela que produz o trauma para a gente mesmo.

É essa a pergunta que você me fez.

Ou seja,

De alguma maneira,

Esse trauma é uma necessidade para nós para que a gente faça um processo em cima dele.

Eu acho o seguinte,

Não é exatamente a mesma coisa que o Jung estava falando.

O que eu acho que acontece é,

Depois que o trauma se monta,

Há uma necessidade de a gente consertar,

Curar o trauma.

E curar o trauma é superar outra vez essa polaridade.

Toda vez que você é traumatizado,

Você,

De alguma forma,

Ainda que você não tenha muita consciência disso,

Você se coloca num lugar de vítima.

Você pode ser uma vítima das circunstâncias,

Você pode ser uma vítima de um algoço,

Você pode ser até vítima de você mesmo,

Das suas próprias críticas.

Mas você está,

Como traumatizado,

Você está no lugar da vítima.

O que é você superar o trauma?

Você superar o trauma,

Na verdade,

É assimilar o outro lado.

É assimilar o nível.

E isso é um assunto super sério e super complicado,

Ainda mais nos tempos de hoje.

O meu advogado está de férias e eu vou falar isso em gravação.

Mas,

Essencialmente,

Você superar o trauma envolve,

Em alguma medida,

Você assimilar o lugar do suposto algoz,

O polo oposto do teu trauma.

Ou seja,

É só quando você consegue se colocar subjetivamente no lugar do algoz,

Você tem a empatia pelo outro lado do teu trauma,

É que você tem uma chance de superar o trauma.

Enquanto você não faz isso,

Enquanto você tem um bloqueio psicológico de se colocar subjetivamente no lugar da outra pessoa que te traumatizou,

Você não consegue superar o trauma.

E isso é muito complicado.

E aí,

Quando vamos lá pular para o Victor Franco para terminar,

Eu acho que você ser capaz de determinar o sentido do que te acontece quando você está vivendo um trauma,

É entender,

Sobretudo,

Que o sentido do trauma que te acontece é essa ginástica de te levar a esse perdão que te faz completo,

Que é o perdão de você assimilar o outro lado.

E,

Nesse sentido também,

A gente coloca o Jung na equação outra vez.

Não sei,

A minha resposta eu acho que foi bem complicada,

Mas a tua pergunta eu acho que também foi intrincada.

Fiz algum sentido?

Ou a gente vai ter que gravar tudo de novo?

Não,

Eu acho que a resposta foi bem mais clara do que a pergunta,

Aparentemente.

A pergunta,

Na verdade,

Era se essas três coisas estavam interrelacionadas.

Obviamente que talvez eu não tenha colocado de uma maneira clara.

E você explicou como elas estão e aonde estão,

Se estão.

Então,

Acho que está claro.

Eu ainda acredito muito,

Tudo que eu vivi em termos de experiências,

De acompanhamentos,

De ouvir os relatos de traumas e coisas parecidas,

Que,

Claro,

Não foram na mesma frequência que você,

Mas eu ouvi algumas coisas de muita intensidade muitas vezes,

Em retiros,

Seja o que for.

Acho que todo o sucesso estava muito nessa questão de ressignificar usando técnicas diferentes.

Se colocar no lugar do Algoas é imperativo,

Porque em última instância.

.

.

Tem até uma cena muito interessante daquele filme A Cabana,

Não sei se vocês lembram disso.

Cheguei a assistir.

Não chegou a ver?

Não.

Mas mostra muito um pouco de quem era.

.

.

É a história de um rapaz que tem a filha assassinada e conduzido nessa cabana,

Onde ele encontra Deus,

Jesus Cristo,

O Espírito Santo,

E uma das cenas que ele tem chance de ver é como foi a vida do Algoas,

A vida do rapaz que matou a filha dele.

E acho que é nesse lugar que ele consegue se colocar,

Que ele consegue encontrar o perdão nele.

E acho que esse processo é muito interessante.

Nos casos dos traumas que eu vi também,

Tem muito aquele questionamento de separar o que é o evento que aconteceu de quem você é,

Como se você não se confunda com o próprio evento.

E você não continua se traumatizando continuamente,

Voltando àquele lugar,

Um pensamento obsessivo compulsivo,

Seja como for,

Anos seguidos depois do trauma ter acontecido.

Estou aqui falando de um tema que não é.

.

.

Está longe de ser alguma coisa que eu entenda muito.

São mais coisas que eu vi como.

.

.

Claro que você entende.

Todos nós entendemos disso.

É que a gente fala pouco desses assuntos.

A gente não gosta de falar disso.

Todo mundo entende disso.

Todo mundo faz parte da mesma cadeia.

Porque quando você para para olhar.

.

.

Eu gostei muito do que você disse agora,

Gokú,

Lembrando desse trecho desse filme,

Que também é um livro.

Por quê?

Porque não é exatamente você empatizar com o algoz,

Como eu falei apenas.

O que está por trás desse empatizar com o algoz?

É você perceber que o algoz é uma vítima.

Então,

A grande sacada a respeito do trauma é que você sempre se vê como vítima sem escolha,

E o algoz como tendo toda a escolha do mundo.

Então,

Ele escolheu te traumatizar e não havia nada que você pudesse fazer.

Quando,

Na verdade,

Quando você vai olhar esse negócio profundamente,

Aquela pessoa que foi o algoz,

Ela estava sendo,

De alguma maneira,

Um instrumento do destino,

Porque ela,

Por dentro,

Não estava livre.

Aquele não era um ato livre.

E aí eu vou dizer uma coisa na qual eu acredito que eu acho que nunca formulei desse jeito.

Então,

Em primeira mão,

Aqui vai para vocês.

Eu não acredito que um ato violento possa ser livre.

Eu acho que a liberdade é intrinsecamente pacífica.

Eu acho que todo ato violento,

Todo ato agressivo,

Todo ato destrutivo não é um ato de liberdade.

Agora,

O mais maluco nesse negócio é como é que fica a nossa justiça penal com tudo isso.

Eu não sei,

Não quero nem pensar.

Mas eu realmente não acho.

Eu acho que você é movido por forças que estão te controlando por N razões naquele momento.

Você pode até achar que você está fazendo uma escolha deliberada,

Mas você não está.

Você está sendo um marionete de coisas que te antecederam.

E assim por diante.

Eu acho que a liberdade começa quando você sai da polaridade.

E quando você sai da polaridade,

Você nunca é violento.

O que parece isso para vocês?

Eu nunca falei isso,

Então eu também não sei como é que sou.

Isso me suscitou uma série de pensamentos,

Inclusive nos grandes movimentos de liberdade que usaram a violência como método.

E no fim,

Enquanto você falava,

Eu pensava,

Por mais que eventualmente os objetivos em algum momento tivessem sido ou são alcançados,

O quanto eles são vítimas do mesmo fenômeno,

Que é estar preso a uma ideia,

A uma concepção,

A uma força.

Enfim,

Isso é bem profundo.

Porque eu acho que essa sua frase merecia uns três cabéns.

Mas eu fiquei pensando muito nessa ideia da liberdade,

Juntando um pouco no começo,

Quando você estava falando,

Da ideia de parte da nossa alma sai fora e não volta.

E eu fiquei pensando muito de quando a gente sofre um trauma,

Quando a gente é uma vítima,

Nessa ideia de desfragmentação de nós mesmos.

De como é que,

De alguma forma,

A gente volta a ser inteiro.

Você começou a falar disso,

A gente acabou indo para outra Seara,

Mas eu vi de alguma forma um encaixe aí,

Que no fim,

Quando você tem esse trauma,

Também é uma parte tua que se perde,

Que sai.

E na hora que talvez você tenha esse olhar empático e você consiga olhar deste lugar para o outro,

Enfim,

A gente sabe,

Todo mundo que já sofreu um xingamento,

Uma fechada na rua,

Das coisas mais básicas até as coisas mais pesadas,

Sabe o que é passar por qualquer coisa.

E o quanto é difícil,

Das coisas mais banais já é difícil você perdoar,

Ter empatia,

Imagina em coisas ultra complexas.

É o quanto você pega de novo,

Ao você reconhecer a humanidade do outro,

Você pega a sua de volta.

Eu fiquei pensando um pouco nisso quando você falava.

Eu acho que tem um pedaço disso,

E tentando esclarecer um pouco,

Como é que eu acho que essa história do trauma e a história da iluminação,

Ou da libertação,

Como é que elas se relacionam,

Tá?

Eu vou tentar aqui dizer de um jeito,

Acho que eu nunca vi isso em lugar nenhum,

Hoje não sei porque eu estou com as coisas meio frescas,

Mas eu acho que é assim.

Vocês imaginam o seguinte,

Quando você vive um trauma,

Uma parte de você sai da cena,

Tá?

Mas não é aquela que olha,

Você fica lá olhando,

Mas você perde um pedaço,

Tá?

E aí,

Essa parte que saiu fora,

Como ela saiu e não é você,

Apesar de ser uma parte de você,

Você passa o resto da vida tentando encontrá-la de novo,

E ela fica se manifestando como se fosse um fantasma na sua vida,

Atuando,

Aparecendo quando você menos espera,

Te sabotando,

De vez em quando se manifesta como se fosse um outro você,

E a grande dificuldade que é você se juntar.

Isso é o trauma.

Agora,

Imaginem o mesmo mecanismo,

Só que ao invés de uma parte que não é a parte que está olhando e sai,

A parte que sai é a parte que olha,

E ela deixa tudo lá e é só o olhar que sai para olhar,

Tá?

E aí,

Você tem a testemunha e não a parte traumatizada,

Tá?

Para mim,

Um exercício que é um exercício,

Assim,

Bem interessante é você sentar para meditar,

Eu acho que,

Coitado do Goi,

Ele está ficando exausto.

Então,

Sentar para meditar,

E aí você se imagina sentado meditando,

Você vê você sentado meditando de fora,

Aí você se vê se vendo sentado meditando de fora,

E aí você se vê se vendo se vendo meditando de fora,

E aí você se vê se vendo se vendo se vendo se vendo meditando de fora,

E você exercitar de quantas distâncias,

Quantos bonecos russos você consegue ser,

De quanto que você consegue se olhar de fora,

E quando você se olha de fora de várias camadas de distância,

O que você está sentindo?

Quem é você quando você se olha tão de longe?

Eu paro no segundo.

Com certeza é muito sono,

Se você conseguir chegar nessas 12 camadas sem dormir no meio,

Acho que devia ser protocolo do Instituto do Sono do Einstein.

Pois é,

Pois eu.

.

.

Primeiro se veja.

Eu acho que o Sadhu Guru,

O Sadhu Guru consegue o tempo todo se ver de umas 3,

4,

5 camadas de distância,

Eu acho que isso que faz ele ser o Sadhu Guru.

É possível.

Eu estava aqui pensando como eu imaginava um pouco da gente vivendo essa experiência de elefantes e as necessidades de ter aqui uns momentos do Egoico Anônimos.

E o que nada mais é do que o meu nome é Let It Go,

E ontem o meu trem descarrilhou alguma coisa nessa linha,

Porque eu acho que a diferença dos mesmos eventos acontecendo hoje e acontecendo no passado,

Eu acho que a única coisa que a gente pode esperar quando a gente realmente está com tanta vontade de fazer as coisas de uma maneira diferente,

É voltar para o lugar de onde caímos.

O mais rápido possível.

A única coisa que difere é esse tempo que a gente,

Talvez eu particularmente,

Ficava mais tempo nesse lugar dessa mente falante,

E agora talvez voltar um pouco mais rápido para o lugar onde a gente sabe que o trem descarrilhou,

Mas sabe que a gente gostaria de voltar para o trilho.

Não ficar lá embaixo e tudo mais.

Estou falando isso porque essa foi uma discussão que eu tive hoje com alguns dos.

.

.

Por acaso,

Um grupo de ouvintes do Elefantes que eu cruzei,

E me perguntaram justamente.

.

.

Eu ouço muito vocês falando ali,

A impressão que dá é que vocês têm uma coisa,

Vocês têm uma certeza muito grande de como se posicionar nos lugares e nas situações e tal.

Então,

Aqui estou fazendo um depoimento de humanidade,

Dizendo que,

Sim,

Nosso trem descarrilha.

Talvez.

.

.

Não sei em que intensidade e com que frequência,

Mas talvez a gente tenha muita vontade de voltar com o carrinho para o trilho mais rápido.

É,

Mas aí,

Justamente,

Ótimo o teu depoimento,

Porque tudo que eu estava tentando dizer desde o começo é isso.

Um trem que não descarrilha é um trem fake.

O único trem que não descarrilha é o trem que não sai da estação.

Não sai da estação.

O trem que está em movimento,

Ele está submetido a todos os intempéries,

A todos os terremotos,

Inclusive aos problemas tão comuns nos trilhos,

Que fazem o trem descarrilhar,

Independente dele ser um trem,

O último modelo,

Com o mais moderno maquinista do planeta.

Agora,

O negócio é o seguinte,

A grande brincadeira é você é o trem,

Você é o maquinista,

Você é a menininha que está tomando um sorvete de fora,

Olhando o trem passar,

Você é um pássaro ou você é tudo isso?

E você,

Fundamentalmente,

É o cara que esquece que você é tudo isso.

Exatamente.

Você é fundamentalmente o cara que esquece tudo isso,

Mas você também vai se lembrando.

Então,

Eu quando penso num dia meu,

Um dia meu é mais ou menos como uma página do YouTube.

Sabe aqueles vários videozinhos?

Então,

Aí tem aqueles vários videozinhos na página inicial do YouTube.

Então,

O primeiro vídeo é aquele clipe de dois minutos em que eu perdi a paciência.

Depois,

O clipe segundo é o clipe em que eu fiquei nervoso.

Depois,

O clipe em que eu fiquei feliz.

Depois,

Não sei mais o quê.

E isso é meu dia.

E tudo isso aconteceu e não para de acontecer.

Só que eu estou vendo todos os clipes ali flutuando diante de mim.

E eles acontecem.

E eu estou dentro deles.

Mas assim que eles estão acontecendo,

Eu também estou assistindo eles acontecerem.

Eu acho que essa é a grande brincadeira.

E na medida que a gente vai fazendo isso,

A gente continua completamente vivo.

Porque eu não tenho a menor dúvida de que a brincadeira é continuar vivo.

Mas a gente tem uma leveza a respeito de nós mesmos.

Por pior que estejam as coisas.

Vocês sabem,

Tem uma substância que agora está começando a ser muito estudada,

Que é a ketamina.

Inclusive,

Essa semana eu me aprofundei bastante no tema ketamina.

Ah,

É?

Ora,

Vejam só.

Eu te sugeri que o fizesse.

Eu achei que você ia se interessar.

Mas por quê?

Porque,

Na verdade,

Os tratamentos de trauma com psilocibina,

Que ainda não é legal no Brasil,

São mais complexos,

Embora seja extremamente eficiente.

E a ketamina é legal no Brasil.

Pois é.

Era exatamente isso que eu ia te dizer.

A gente não precisa nem conversar.

A gente não precisa mais conversar,

Amor.

Meu amor,

É tudo telepático.

Você me completa.

E a ketamina,

Que é legal,

O que faz a ketamina?

Então,

Nem preciso te dizer,

Mas eu vou contar para quem está nos escutando,

Que não participou.

Obviamente,

Não recomendamos.

Olha,

Não dá para você.

.

.

Muito pelo contrário.

Pelo contrário,

Eu recomendo sim,

Mas você precisa acessar um dos poucos médicos que pode prescrever isso.

A ketamina é uma substância originalmente utilizada para anestesia e que desperta o quê?

Estados dissociativos.

Mas o que são esses estados dissociativos?

É parecido com o que eu estava dizendo,

Mas eles têm uma diferença.

Eles fazem o seguinte.

Eles fazem você olhar para você mesmo enquanto você está se sentindo mal.

Exatamente aquilo que eu estava descrevendo.

Então,

Pegando aquelas pessoas que estão naquelas ruminações muito negativas,

Depressivas,

Que estão pensando em suicídio,

Essas coisas,

Etc.

Você dá a ketamina para ela,

Ela fica se sentindo durante algum tempo.

O efeito não é muito longo,

Tá?

Isso que é o mais interessante.

As doses que são dadas às vezes fazem efeito por 15 minutos,

20,

Meia hora,

Tá?

Mas durante essa meia hora,

Você fica leve,

Alegre até,

Meio risonho,

E você se vê ruminando aquelas coisas destrutivas todas,

Tá?

A boa notícia é que eu acho que isso que ainda é visto como uma terapia alternativa vem recebendo investimentos significativos,

Principalmente pelo pessoal fora do Brasil que está começando a investigar mais os tratamentos com base na psilocibina,

Porque a ketamina é diferente da psilocibina,

Ela é sintética.

Então,

As pessoas têm uma predileção,

Agora na onda que a gente vive hoje,

De ir para um processo natural.

A psilocibina,

Para quem não sabe,

É o princípio ativo do cogumelo.

Então,

Ela pode vir ou no formato dos cogumelinhos secos,

Que são vendidos aqui no Brasil,

Porque é um dos poucos países no mundo onde é legal,

E tem a versão da psilocibina que já seria o princípio ativo isolado,

Mais estável,

Portanto,

Um tipo de evento um pouco mais.

.

.

Eu não gosto de usar a palavra controlado,

Porque a ideia não é controlar o evento,

Mas estabilizar mais o evento.

Parametrizável.

Muita gente é mais adepto do 100% natural,

Mas é verdade que,

Sem querer fazer uma grande propaganda do tema aqui,

E aí tem daquele documentário O Fungo Fantástico,

Que conta muito dessa história de como está se desenvolvendo e como é que você consegue acessar esses estados alterados de consciência que te permitem,

Não só com isso,

Mas com o MDMA também,

Com o tratamento de traumas pós-guerra e tudo mais.

Enfim,

Tem uma linha interessante que eu estou acompanhando,

Que eu acho que é muito legal,

Que é desse grupo querendo trazer um tratamento de trauma de mulheres que foram vítimas de violência sexual,

Para não revisitarem o trauma,

Mas para justamente,

Talvez,

Esse processo dissociativo que você falou.

Então,

Veja,

São abordagens diferentes,

Experiências diferentes.

Eu acho que a ketamina é uma substância,

Apesar de ser sintética e mal usada,

Pode ser uma coisa perigosa,

Sem dúvida,

Ela é intrinsecamente mais simples do que a psilocibina.

Ela é bem mais simples.

O efeito dela é uma coisa muito mais dirigida e eu acho que vai ser,

No meu palpite pessoal,

A próxima grande revolução no tratamento das depressões,

Especialmente daquelas resistentes.

E,

Seguindo.

.

.

Você sabe onde ela nasceu?

A ketamina?

Onde ela nasceu,

Eu não ousaria dizer,

Mas onde ela foi.

.

.

Porque a grande diferença é que ela tem um histórico de eficiência e aplicação de um evento que propiciou para os pesquisadores americanos terem insumos incríveis ali para poder chegar na eficiência da droga e da segurança,

Principalmente.

Guerra do Vietnã.

Foi a substância mais usada durante e no pós-guerra.

Para estresse postraumático?

Tanto.

.

.

Na verdade,

Ela era usada tanto na parte de anestesia como no pós-traumático.

Mas na anestesia você via a segurança.

E no volume,

Eles tinham que colocar um volume estúpido ali.

O cara tinha que sair daquele lugar rapidamente.

Era um substituto de morfina até.

Pois é.

E ali começou a ministrar e virou a segurança na droga e perceberam que era possível fazê-la mais controlada depois para o estresse pós-traumático.

Pois é,

Mas o que eu queria puxar.

.

.

Esse assunto em si merecia horas de conversa a respeito dos efeitos das substâncias na cabeça ou na alma da gente.

Mas eu só queria trazer esse ponto,

Na verdade,

Por um assunto que nós estávamos falando que eu acho que é o mais genial da noite.

Que é o seguinte.

A ketamina,

Essencialmente,

O que ela faz é ela te leva suavemente para fora de você mesmo para você se observar sem carga emocional enquanto você está se observando.

Ou seja,

A ketamina constrói para você o estado de testemunha.

E aí você faz um passeio de testemunha de meia hora de você mesmo e você volta.

Só isso.

Ela não cura nada.

Só que ela faz uma diferença brutal.

Porque a simples experiência consciente de você virar testemunha de você mesmo te transforma e te salva.

E a ketamina é só a forma mais direta de provocar isso.

Ela em si não cura depressão nenhuma.

Ela não faz nada exceto isso que eu descrevi.

Ela te leva para fora de você mesmo para você se ver de um ponto de liberdade.

Eu só acho que vale um disclaimer aí para que as pessoas não façam.

.

.

Não ministrem ketamina em si mesmas.

Nem vão conseguir.

Não vão conseguir.

Mas eu vejo um surgimento grande de clínicas especializadas nesse tipo de procedimento com acompanhamento psiqui��trico e psicológico.

E psicológico,

Médico,

Etc.

O cara sai dali podendo dividir o que ele viu e conversando para que ele não saia com as interpretações próprias também.

E o protocolo basicamente é assim.

Você não toma isso mais do que umas quatro vezes.

Não é que você fica tomando.

E eles tomam muito cuidado,

E isso eu acho muito sábio,

Em não deixar ninguém ficar tomando isso regularmente para transformar isso em um passeio no parque.

Não é essa a ideia.

E é ritual.

A ideia é que,

Simplesmente,

Você tendo a memória de você estar de fora de você mesmo,

Que as pessoas experimentam um reboot.

Então,

A grande metáfora é quando o teu computador Windows.

.

.

Normalmente os Macs não fazem isso,

Mas há exceções.

Quando aquele teu computador.

.

.

Nenhum programa mais funciona direito.

Só a paciência e todos os outros estão lá travados e tudo mais.

A tela azul.

Você não consegue nem apertar o Ctrl Alt Del,

Você toma ketamina,

E ela equivale a um Ctrl Alt Del.

E quando você volta,

Depois de alguns minutos,

Está lá o teu Windows bonitinho.

E todos os programas funcionando.

Sabe o que é interessante?

Eu vi uma palestra na Califórnia de um pessoal da MAPS,

Que é aquela ONG que está ajudando a FDA a aprovar os psicodélicos para tratamento.

E eles falaram que uma das principais questões desses tratamentos com psicodélicos,

Tanto a ketamina quanto a psilocibina,

É que está tendo uma mudança meio brutal nos tratamentos de terapêuticos americanos.

E o que esse pessoal falou na época é que as maiores resistências estavam vindo dos terapeutas que tratavam esses pacientes durante anos.

E,

De alguma forma,

Aquele paciente era uma fonte de receita para aqueles terapeutas.

E de uma hora para outra,

Com três,

Quatro doses,

Aquela condição se esvaia.

E essa era uma das principais questões dos terapeutas.

Como é que ia se reconfigurar essa nova questão,

Inclusive financeira,

Deles.

Excelente colocação.

Eu queria perguntar para o Bi.

Você não acha que depois de uma experiência dessa,

Não é que o cara vai ter alta,

Mas ele leva a terapeuta para um outro lugar?

Ah,

Com certeza.

O que o Snow mencionou diz respeito àquilo que,

Com todo carinho,

Eu considero que são maus profissionais.

E que,

Portanto,

Precisam viver mesmo essa experiência traumática de,

Depois de anos trabalhando sem muito sucesso,

Ver uma substância conseguir um efeito que eles nunca conseguiram.

Veja,

Para mim é o seguinte.

Você fazer uma terapia com um intuito específico de resolver um sintoma que tem uma origem psicológica,

É uma espécie de armadilha.

A ideia não pode ser essa.

A ideia tem que ser você ter a melhor maneira possível,

A melhor oportunidade possível de examinar aquilo que você está vivendo e ampliar cada vez mais o contexto de compreensão daquilo que você está vivendo.

Até que,

Eventualmente,

Aquele problema que você tem se torne relevante dentro do contexto que você está achando mais interessante examinar.

Então,

Aquele negócio de chegar e dizer assim,

Ai,

Doutor,

Eu só estou aqui porque eu tenho umas enxaquecas nervosas.

Eu não quero mexer em nada.

Eu só quero mexer nas minhas enxaquecas.

Não é possível.

Então,

Digamos que você,

Depois de anos,

E a pessoa achava que a questão eram as enxaquecas,

Ela toma um remédio,

As enxaquecas desaparecem,

Um bom terapeuta vai virar e dizer,

Ótimo,

Agora vamos examinar o vazio que você sente uma vez que te tiraram selvagemmente as tuas enxaquecas tão queridas de você.

Está se sentindo suficientemente abandonado?

Está se sentindo suficientemente vazia e sem razão de viver?

Então,

Vamos falar sobre isso.

Porque a maior parte dos nossos problemas psicológicos,

Eles nos fazem companhia.

Eles não são os problemas.

Isso me lembrou um tanto daquele livrinho que eu falei para vocês,

Que é um livrinho simples,

Mas que eu gostei muito,

Que é A Coragem de Desagradar,

Da psicologia adleriana.

Que ele fala dos traumas exatamente isso,

Que no fim,

O evento em si não é traumático,

Mas a gente usa o evento para justificar alguma condição da nossa alma ou da nossa existência.

Eu tenho a impressão que a dor verdadeira não tem nome,

Porque a dor verdadeira nem necessariamente é nossa.

A dor verdadeira pode ser dos nossos antepassados,

A dor verdadeira é do mundo.

A dor verdadeira é das florestas queimadas,

A dor está por todos os lados,

Porque faz parte da vida.

Agora,

Nós precisamos dar um nome para as coisas,

Porque nós não conseguimos lidar com aquilo que nós não sabemos nomear.

E para a gente poder nomear essa dor de alguma maneira,

A gente cria um sintoma.

E esse sintoma é a nossa maneira de comparecer,

É a nossa maneira de compartilhar,

É a nossa maneira de fazer parte do destino de estar vivo nesse momento.

Essa é a nossa questão,

Nosso sintoma.

Então,

Eu me preocupo,

Eu tenho dores,

Eu tenho medo,

Eu tenho tristeza.

Tenho raiva.

Eu tenho dúvida,

Eu tenho raiva.

E essa é a sua maneira de fazer a sua parte nesse grande coral,

Que é o coral da existência.

E,

Em geral,

A gente tem a nossa manifestação favorita.

Que talvez tenha nos escolhido até mais do que nós a escolhemos.

E aí a gente fica nela.

E quando ela,

De repente,

Desaparece,

Uma grande identidade se foi.

É muito difícil perder o seu problema de estimação.

Você precisa até fazer uma terapia de apoio para perder o seu problema de estimação.

Imagino que,

Quando você perde o seu problema de estimação,

Se você não se cuida rapidamente,

Você encontra outro.

Você sabe que não.

Você volta para ele.

Você volta para ele.

Você não consegue realmente viver com outro problema o grande amor que você viveu com o teu problema original.

Certas coisas,

Você tem outros problemas,

Mas eles não grudam igual.

Os bons problemas,

Você montou a tua identidade em torno deles.

É como se fosse uma árvore crescendo em volta de uma pedra.

Então,

Se você tira a pedra depois,

Não é que você vai começar a mudar o teu caule inteiro em função de uma outra pedra.

Fica aquela marca ali.

Eu adorei a frase do Joe,

Quando ele se refere a essas descarrilhadas,

Ele usa o termo I fell from grace today.

E ele tem o livrinho dele.

E é muito importante a gente pegar essas quedas aí e poder documentar.

Agora,

Gol,

A sua fall from grace,

Imagino que o maior motivo da sua frustração foi,

Obviamente,

Com você.

E você acha que,

Dessa vez,

Você voltou mais rápido?

Eu acho que eu voltei mais rápido,

Mas eu confesso que,

Se eu tivesse que atribuir a minha volta a alguma coisa,

Eu atribuiria mais a psicologia do que a espiritualidade.

Mas eu tenho a impressão,

Querido,

Que a verdadeira função da espiritualidade é dar ânimo para a gente nunca desistir e ter completa confiança de que tudo isso vale a pena.

Agora,

No dia a dia,

O instrumental que muda as coisas é o instrumental da psicologia mesmo.

Eu sou obrigado,

Infelizmente,

A sucumbir a isso.

Eu realmente acho que,

Hoje,

Duas ou pouco mais semanas após o fatídico episódio que não foi ao ar,

Eu digo para vocês,

Sem sombra de dúvida e sem medo de errar,

Que uma guerra de trincheira não adianta bazuca.

Agora,

Gol,

Vou fazer o mesmo,

Vou fazer o seu papel aqui.

Você pode detalhar para a gente quais foram os aspectos da psicologia que te ajudaram a voltar?

Sim,

Eu acho que tem.

.

.

Muitas vezes o surrender é muito confundido,

Eu talvez,

Pela minha experiência,

Acho que ele é muito confundido com a não-ação.

E eu acho que,

Independente de você,

Talvez a sua emoção seja uma emoção de surrender,

Mas tem uma right course of action que é,

Muitas vezes,

Você analisar a psicologia do evento e a tua reação,

O do outro,

E o que é preciso que aconteça para que seja mudada uma dinâmica.

E isso está na psicologia,

Não está em nenhum outro lugar.

Ela pode estar num lugar de surrender,

Pode ser até,

Mas.

.

.

Eu não sei,

A impressão que dá é que,

Muitas vezes,

Esse lugar pode ser de serviço absoluto ao processo,

Se ele deixa ir por um.

.

.

Porque,

Na verdade,

Se a gente vivesse num estado de surrender permanente,

Tudo bem,

Aí,

Cara,

No tempo,

Você acaba levando tudo no mesmo lugar,

Mas não é o fato.

Na guerra de trincheira.

Na guerra de trincheira,

Você tem que estar com aquilo que está mais palpável.

O que está palpável é a psicologia,

A psiquia do indivíduo que está na tua frente e a sua.

Eu gosto de falar disso que você está dizendo da seguinte maneira,

Eu acho que tem duas grandes perguntas para a condição humana.

A primeira grande pergunta,

Nós vivemos falando disso,

É qual é a natureza da consciência?

E a segunda grande pergunta é qual é o sentido da vida?

Pois eu acho que a natureza da consciência é o puro testemunho,

Como a gente tem tanto falado.

E o sentido da vida é participar.

Então eu acho que é isso,

Não tem solução para nada da vida de fora,

É sempre dentro.

Em caso de dúvida,

All in.

Participa.

Participa,

Entra no jogo.

Então,

De fato,

A natureza da consciência é o puro testemunho,

Mas a gente não vive exclusivamente para olhar para a própria consciência,

A gente está aqui participando.

Então é uma combinação dessas duas coisas,

E isso é o complicado.

Na verdade,

Qualquer dessas coisas é complicado,

E as duas juntas é mais complicado ainda,

Mas eu acho que a brincadeira é essa mesmo.

Participe e assista.

Eu acho que a espiritualidade é a carroça,

Mas a psicologia é a roda.

É,

Gostei,

Gostei.

Eu acho realmente que você precisa ter o punhal e precisa ter a bazuca,

Mas no longo prazo o que faz?

Eu só acrescentaria que o ego é a mula.

Que puxa a carroça.

Estava aqui pensando,

Ele estava dizendo isso,

Estava pensando numa conversa que eu tive segunda-feira entrando no meu prédio do escritório,

Que o cara,

O rapaz que trabalha na portaria,

Sabe que eu gosto de futebol americano,

Perguntou para mim,

Pô,

Doutor,

Você viu o jogo ontem?

Falei,

Cara,

Vi,

Impressionante.

Ué,

Doutor,

Estou muito puto.

Por quê,

Pô?

Seu time perdeu,

Você estava torcendo lá para o Chiffs e tal?

Falei,

Não,

Pô,

Estou puto com aquele Brady.

Doutor,

Não é certo isso,

Dá tudo certo na vida dele.

O cara ganha tudo,

Casou com a Gisele,

Os filhos dele tudo perfeito,

Loirinho,

Cabelo azul,

Dá tudo certo,

Doutor.

Aí eu pensei,

Vou ter que usar a única frase que o Bi me ensinou até hoje para situações emergenciais como essa.

Falei para ele,

Cara,

Não tem bingo cósmico.

Cármico,

Não tem bingo cármico.

Não tem bingo cármico.

Se o cara está ali nessa posição hoje é porque você não quer saber as outras que ele já viveu antes.

É isso aí.

Sensacional.

É isso mesmo.

O cara estava muito puto.

Era verdade,

Era de verdade.

Não era só uma piada.

Não,

Ele estava puto.

Ele falou assim,

Conversando,

Eu li para o meu léu,

Eu li para a minha vida,

Eu li para aquilo tudo.

O cara ganhou sete vezes.

Não precisava ganhar nem mais essa outra,

Já tem 43 anos,

Mudou de time.

Porra,

Não é possível,

Cara.

Não vai dar nada errado na vida desse cara.

Falei,

Olha,

Eu podia até contar para ele a história do Zé Master e o Pequeno Jovem.

Vamos ver.

Vamos ver,

Exatamente.

Vamos ver.

© 2026 Elefantes Na Neblina. All rights reserved. All copyright in this work remains with the original creator. No part of this material may be reproduced, distributed, or transmitted in any form or by any means, without the prior written permission of the copyright owner.

Trusted by 34 million people. It's free.

Insight Timer

Get the app

How can we help?

Sleep better
Reduce stress or anxiety
Meditation
Spirituality
Something else