
No. 36 - A Felicidade nas Pequenas Coisas | Podcast Autoconsciente
A ideia de apreciar as pequenas coisas da vida é tão antiga quanto a filosofia. A novidade é que ela tem agora mais um fundamento, o da neurociência. Na visão científica, o bem-estar da felicidade é também efeito de ações intencionais que todos podemos ter. É uma experiência sempre disponível para nós.
Transcrição
A ideia de apreciar as pequenas coisas da vida é tão antiga quanto a filosofia.
A novidade é que ela tem agora mais um fundamento,
O da neurociência.
Na visão científica,
O bem-estar da felicidade é também efeito de ações intencionais que todos podemos ter.
É uma experiência sempre disponível para nós.
Bem-vinda,
Bem-vindo ao Autoconsciente,
Um podcast que entende você,
Para você se entender melhor.
Eu sou Regina Gianetti,
Criadora do programa de autogerenciamento Você Mais Centrado,
Para a gente ter mais foco,
Bem-estar e paz com a gente mesma.
Eu faço esse podcast para compartilhar reflexões e ações para uma vida com mais autoconsciência.
E a minha intenção é que ao terminar esse episódio,
Você se sinta melhor do que quando começou.
Olha,
Eu vou dizer para vocês,
Viu?
Eu estou ficando preocupada.
Um dia desses,
Algum chefe vai querer me processar,
Porque alguém do time dele escuta o Autoconsciente enquanto trabalha.
Pois é,
Tem o Víti que conta,
Na maior naturalidade,
Que costuma ouvir o podcast durante o trabalho.
Mas como é que está ficando esse trabalho,
Hein?
Diz para mim.
Vamos escutar de novo o episódio 2,
As armadilhas da multitarefa?
Levar uma vida mais autoconsciente passa por estar presente naquilo que a gente faz.
Fazer as coisas com atenção.
A atenção abre as portas para a autopercepção,
Para o autoconhecimento,
Para o nosso poder de escolha,
Momento a momento,
E para um mundo de coisas que a gente ignora por viver no piloto automático.
E é disso que trata esse podcast,
Né?
Bora viver com mais autoconsciência?
E olha,
Se esse é o primeiro episódio que você escuta,
Escute também o número zero,
Em que eu explico melhor a ideia de levar uma vida com mais autoconsciência e apresento a proposta desse podcast.
O Autoconsciente é serial.
Os episódios têm uma sequência em que os assuntos vão se aprofundando.
Episódio 36,
A Felicidade nas Pequenas Coisas.
Nos últimos episódios,
A gente mergulhou em regiões meio sombrias do nosso mundo interior,
Não é?
Falamos de medo,
Fracasso,
Preocupação,
Momentos de dificuldade,
De questões ligadas a baixo autoestima.
Mergulhar nessas regiões é necessário para trazer luz a elas.
Mas nesse episódio,
Vamos tomar um fôlego.
Vamos falar de felicidade.
A felicidade é um tema muito amplo e antigo.
Se fala disso na filosofia,
Nas religiões,
Na antropologia,
Psicologia,
Medicina,
Até na economia.
E a visão que eu vou compartilhar aqui é de uma área que entrou faz pouco tempo nessa conversa,
Até porque também é uma área nova,
A neurociência.
O que me atrai nas ciências,
Em geral,
É a sua imparcialidade,
É a sua objetividade.
Elas observam os fenômenos da vida com curiosidade e abertura,
Sem pré-julgamentos,
Sem expectativas.
E para a neurociência,
Aquilo que a gente chama de felicidade,
Que é subjetivo,
Ela chama de bem-estar.
Ela vê a experiência do bem-estar como algo que é observável no cérebro,
É mensurável e é replicável também.
É uma experiência que pode ser provocada,
Que a gente pode ter quando quiser.
E isso é muito revolucionário,
No meu modo de ver.
Porque,
Na perspectiva da neurociência,
O bem-estar da felicidade não é condicionado pelo destino,
Não é condicionado pela sorte e nem pelo acaso.
Não é para quem nasceu virado para a lua,
Nem é um pote de ouro no final do arco-íris.
Na perspectiva científica,
O bem-estar da felicidade é também efeito de ações intencionais que todos podemos ter.
É uma experiência sempre disponível para nós.
Tem um neurocientista americano chamado Richard Davidson,
Que é um grande pesquisador nessa área,
E ele tem dito o seguinte,
A felicidade é uma habilidade.
E como qualquer outra habilidade,
Pode ser treinada,
Pode ser incorporada.
Então,
Neste episódio,
Você vai saber como a neurociência propõe que a gente desenvolva a habilidade de sentir bem-estar.
O que tem muito a ver com a felicidade nas pequenas coisas da vida.
Essa ideia em si não é nova,
Faz séculos que a filosofia e as religiões falam disso.
A novidade aqui é que a ideia tem agora mais um fundamento,
Que é o da ciência.
Para começar,
Vamos explorar alguns conceitos sobre bem-estar.
A psicologia fala em dois tipos de bem-estar,
O hedônico e o eudaimônico.
Ai,
Sempre me trava a língua essa palavra.
Hedônico vem de hedonismo,
Que é uma doutrina filosófica nascida na Grécia,
Quatro séculos antes de Cristo.
E essa doutrina via a busca do prazer como o caminho para o bem supremo do ser humano.
Surgiram várias vertentes dessa filosofia ao longo dos tempos.
E,
No geral,
O hedonismo pode ser entendido como o cultivo do bem-estar,
Através de experiências prazerosas,
Do conforto material,
Do sucesso,
Do prestígio social,
Por exemplo.
Já o bem-estar eudaimônico vem do eudaimonismo,
Que é outra doutrina filosófica da Grécia Antiga.
Aristóteles defendia que a felicidade está no cultivo de virtudes morais e na autorealização do ser humano.
Na visão eudaimônica,
O bem-estar é um contentamento com quem somos e com a vida que temos.
Está ligado a emoções positivas,
Relacionamentos saudáveis e um sentimento de realização pessoal.
Essas visões foram consideradas conflitantes por séculos.
Mas,
Hoje,
O entendimento da psicologia é que nós precisamos conciliar os dois tipos de bem-estar,
Hedônico e eudaimônico.
Eles não se excluem,
Mas se complementam.
Uma vida orientada apenas para os prazeres hedônicos não traz um bem-estar sustentável.
Tem pesquisas que mostram que pessoas que buscam sua realização através do sucesso material e social,
Das experiências de consumo,
Dos status,
Da beleza,
Etc.
Essas pessoas se dizem mais insatisfeitas com a vida,
Mais deprimidas e ansiosas.
E pesquisas à parte,
Né?
Quantas histórias a gente conhece de pessoas que têm tudo,
Dinheiro de sobra,
Uma carreira de sucesso,
Boa aparência,
Às vezes,
Também fama,
Prestígio,
E,
No entanto,
Têm uma vida tumultuada.
Os sinais exteriores de felicidade estão todos lá presentes.
Mas,
Parece não haver a felicidade interior,
O contentamento com quem se é e com a vida que se tem.
O que causa isso é o que a psicologia chama de adaptação hedonista,
Que é parecido com subir uma escada.
Se hoje a gente encontra satisfação com um certo patamar de prazer hedônico,
Amanhã,
Isso não vai satisfazer mais.
Então,
A gente vai querer estar num patamar acima,
Que,
Depois que a gente alcança,
Também não vai satisfazer mais.
E onde é que vai parar isso?
Continuamos subindo de patamar,
Sempre em busca de mais satisfação,
Em uma escalada que nunca tem fim.
Por outro lado,
Também não podemos negligenciar as boas coisas da vida,
Atingir objetivos,
Se divertir,
Se apaixonar,
Saborear uma boa comida,
Adquirir algo que desejamos.
Esses nossos prazeres terrenos estimulam a química cerebral do bem-estar,
E essa química nos energiza,
Nos dá motivação também para buscar os objetivos mais elevados de realização pessoal.
Uma vida bem vivida concilia os dois tipos de bem-estar,
O hedônico e o heudaimônico.
Agora,
Voltando ao Richard Davidson e as suas descobertas sobre bem-estar.
Ele costuma contar nas palestras que,
Nos tempos de estudante,
Isso lá em 1970,
Conviveu com pessoas que eram especialmente de boa,
Gentis,
Serenas,
Pessoas que pareciam estar sempre bem.
E conhecendo melhor essas pessoas,
Ele descobriu que tinha algo em comum entre elas,
Que era a prática da meditação.
Então,
Ele resolveu passar três meses no Oriente,
Para entender o que era a meditação,
E se convenceu de que aquilo podia ter aplicações na psicologia,
Na medicina,
E era um tema para ser pesquisado pela ciência.
Mas seus professores na universidade disseram que,
Se ele queria começar uma carreira séria na ciência,
Não deveria ser por ali,
Por um tema tão alternativo.
Então,
Ele se contentou em ser apenas um praticante de meditação.
Aí,
Em 92,
Numa outra visita à Índia,
Ele se encontrou com o Dalai Lama,
Que é o líder da religião budista.
E o Dalai Lama fez um pedido para o Richard Davidson,
Quando soube que ele era neurocientista,
Que,
Em lugar de pesquisar sobre medo,
Ansiedade e depressão,
Como a ciência vinha fazendo,
Que ele pesquisasse sobre gentileza e compaixão.
E isso bateu como um chamado para o então já doutor Davidson.
A partir daí,
Ele decidiu pesquisar,
Sim,
Os efeitos da meditação no cérebro humano.
E hoje,
Com mais de 25 anos de pesquisa na área,
Ele afirma que a prática da meditação fortalece determinados circuitos cerebrais.
E que alguns desses circuitos estão ligados a atitudes,
Comportamentos e modos de encarar a vida,
Que promovem o bem-estar.
E não só o bem-estar hedônico,
Mas também,
E principalmente,
O eu daimônico.
A neurociência constatou que a meditação favorece um relacionamento mais positivo com a gente mesma,
Com os outros,
Com as situações da vida.
E isso é efeito de um maior desenvolvimento de quatro componentes do bem-estar.
Um desses componentes é a atenção.
A prática da meditação mindfulness,
Como eu já disse em outros episódios do podcast,
É um treino de focalização da atenção.
Ela fortalece os circuitos cerebrais envolvidos na faculdade de prestar atenção.
E,
Ao mesmo tempo,
Nos habitua a estar mais atentos ao que estamos fazendo,
Mais no aqui e agora.
E,
Se estamos mais no aqui e agora,
Estamos menos com a cabeça no futuro,
No passado,
Nos preocupando,
Ruminando acontecimentos,
Problematizando as situações da nossa vida.
Coisas que o ser humano faz em quase metade do tempo que passa acordado,
E que geram mal-estar.
As nossas divagações são uma importante fonte de mal-estar.
Então,
Se a gente diminui a divagação,
Se sente melhor.
Eu explorei bastante esse assunto no episódio 4,
Nossa Mente Divagante.
Um segundo componente do bem-estar é o que o Richard Davidson chama de perspectiva positiva dos outros e da vida.
Quer dizer,
Um olhar para o que há de bom nas pessoas e nas situações da vida.
Nas pesquisas,
Os participantes fizeram 30 minutos diários de meditação da compaixão.
E,
Com apenas duas semanas de prática,
Já se notavam mudanças no cérebro e no comportamento dessas pessoas,
Que passaram a ter mais facilidade de conexão com os outros.
Quando a gente estabelece conexão com o outro,
Olhando nos olhos,
Criando empatia,
Buscando compreender e ser gentil,
O cérebro libera a substância ocitocina,
Que é um dos chamados hormônios do bem-estar.
A ocitocina também está ligada à generosidade,
Que é o terceiro componente do bem-estar.
Fazer algo para o bem dos outros faz bem para a gente também.
Ajudar,
Apoiar,
Dar algo de si para o outro gera uma sensação boa,
Não é?
Hoje mesmo,
Quando eu escrevo esse episódio,
Eu fui comprar um presentinho para minha mãe,
Pelo dia das mães,
E um para minha norinha,
Que faz aniversário.
E que gostoso escolher presente,
Que gostoso pensar em algo que a pessoa vai gostar e imaginar ela recebendo.
Isso também é um ato de generosidade,
Entre tantos outros que a gente pode ter.
E,
Por fim,
O quarto componente do bem-estar,
Desenvolvido com a meditação,
É a resiliência.
Para a neurociência,
Resiliência tem a ver com o tempo em que a pessoa se recupera de uma situação estressante.
Quanto mais rápida essa recuperação,
Mais resiliente a pessoa.
Tem estudos que mostram,
Com exames de imagem,
O que acontece no cérebro enquanto as pessoas se submetem a situações estressantes.
Tudo pela ciência,
Né?
E qual foi a conclusão?
Para quem medita habitualmente,
A ansiedade é menor e o estresse dura menos tempo.
E,
A propósito,
O que mais compromete o nosso bem-estar hoje em dia?
Ah,
Sim,
A ansiedade e o estresse.
Então,
Temos aqui quatro componentes do bem-estar na visão da neurociência.
Atenção,
Perspectiva positiva,
Generosidade e resiliência.
E foi assim,
Com os resultados dessas pesquisas,
Que o doutor Davidson passou a defender que a gente tem um papel mais ativo na criação do próprio bem-estar.
Que faça isso conscientemente,
Tirando proveito da elasticidade,
Que é a propriedade do cérebro de se modificar conforme os estímulos que recebe.
É só criar os estímulos certos.
Para isso,
Temos a prática do mindfulness,
Que é algo de que eu quase não falo aqui nesse podcast,
Né?
Nem um pouco.
Só para refrescar a sua memória,
Tem dois episódios,
O 6A e o 6B,
Que ensinam a praticar.
Para criar estímulos do bem-estar,
Temos também a atitude da compaixão,
Que é um assunto que nós vamos tratar em episódios futuros,
E que eu sinto que vai ser um dos pontos altos desse podcast.
Eu estou me preparando para isso.
E temos ainda,
Claro,
A proposta deste episódio,
Que é estar mais presentes com as pequenas coisas da vida.
Fazer isso também é uma forma de exercitar dois componentes do bem-estar.
A atenção,
No que está presente aqui,
Agora,
E a perspectiva positiva.
Ver o que há de bom naquilo que a gente observa.
Estar presente é perceber,
É se envolver,
Se deixar encantar,
É apreciar.
Há tantas pequenas coisas na vida que podem trazer bem-estar.
O copo d'água que mata a sede,
O banho depois do trabalho,
Vestir uma roupa limpa,
O calor de um abraço,
O cheiro da pessoa amada,
O pelo macio do seu cachorro,
Seu gato,
Espreguiçar na cama,
Olhar o céu estrelado,
Comida de mãe,
De tia,
De vó,
Cheiro de café coando,
De bolo assando,
Um bom livro,
Uma xícara de chá,
Cochilo no sofá,
Vento que sopra da janela num dia quente,
A música preferida,
O perfume que alguém deixou no ar,
Seguir uma trilha de formigas,
Rir até não poder mais,
Cheiro de chuva na terra,
No asfalto,
Encontrar uma borboleta,
Uma joaninha que pousa no braço,
Ver figuras nas nuvens,
Conversar até de madrugada,
Ouvir os pássaros de manhã,
Sentar no banco da praça,
Pipoca no cinema,
Caminhar na praia,
Um pôr-do-sol alaranjado,
Um luar prateado,
Subir em árvore,
Boiar na piscina,
Pegar jacaré no mar,
Catar conchinha,
Empinar pipa,
Pular amarelinha,
Andar de bicicleta,
Brincar de massinha,
Descer de escorregador,
Soprar bolinha de sabão,
Balançar no balanço,
Por que não?
O beija-flor que por instantes flutua na nossa frente,
É como as pequenas e preciosas coisas da vida,
Momentos breves de apenas estar presente.
E nesses momentos,
Não me ocorre nada mais,
Se não agradecer.
A felicidade de um futuro venturoso,
De sonhos realizados,
É uma miragem.
As felicidades passadas,
São apenas boas lembranças.
A felicidade que a gente pode desfrutar,
Está disponível em um só tempo e lugar,
Aqui e agora.
Que você esteja bem!
Um abraço!
Conheça seu professor
4.9 (70)
Avaliações Recentes
More from Regina Giannetti
Meditações Relacionadas
Professores Relacionados
Trusted by 35 million people. It's free.

Get the app
