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Conto: A vida nunca vivida

by Giselli Duarte

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Este é o conto de Elisa, uma mulher que nasceu em um vilarejo isolado, onde o tempo parecia se arrastar lentamente entre campos e montanhas. Criada em uma vida de silêncio e responsabilidades, Elisa sonhava com um mundo além do horizonte, mas o medo e a insegurança a impediram de seguir seus próprios sonhos. Ao longo dos anos, ela viveu uma vida de renúncias e oportunidades perdidas, sempre amarrada pela rotina e pela dúvida. Ao envelhecer, ela olhou para trás, questionando as escolhas que nunca fez. Quando Elisa faleceu, seu maior legado foi um mapa, um símbolo de seus sonhos não vividos, que acabou sendo levado por outros em uma caminhada que ela nunca ousou realizar. Este é um retrato da luta interna entre o medo e o desejo de mudança, e daquilo que fica quando deixamos de viver plenamente. Áudio via Pixabay

Transcrição

A vida nunca vivida,

No coração de um vilarejo esquecido,

Entre montanhas e vales,

Nasceu Elisa,

A filha única de uma família de agricultores.

A vila era um lugar simples,

Quase atemporal,

Onde o sino da igreja marcava as horas e as histórias eram contadas à luz de velas.

A vida seguia o ciclo das estações,

Previsível como o fluxo do rio que atravessava o vilarejo.

Elisa veio ao mundo em uma noite silenciosa de inverno,

O choro abafado pelo vento gelado que soprava pelas frestas da janela.

Sua mãe Marta,

Exausta,

Olhou para a criança com ternura.

Seu pai,

Joaquim,

Um homem rígido e prático,

Disse apenas que seja forte.

O mundo não é um lugar para fraquezas.

Desde o início,

Elisa aprendeu que o silêncio e a obediência eram esperados.

Elisa cresceu cercada por campos de trigo dourado,

Colinas cobertas de pinheiros.

Desde pequena,

Gostava de caminhar até o topo da colina mais alta e olhar o horizonte.

Para ela,

Aquele ponto parecia o limite entre o conhecido e o desconhecido.

Um dia quero ver o que há além das montanhas,

Dizia a mãe.

Marta apenas sorria enquanto costurava.

Sonhar não coloca comida na mesa,

Elisa.

A infância de Elisa foi marcada por tarefas domésticas e dias intermináveis ajudando no campo.

Enquanto outras crianças brincavam no rio,

Ela carregava cestos de colheita ou alimentava os animais.

E sempre que ousava mencionar seus sonhos,

O pai a lembrava.

Você tem responsabilidades.

Esqueça essas bobagens.

Aos 18 anos,

Elisa começou a questionar o que significava viver.

Vez ou outra,

Viajantes passavam pela vila carregando novidades de terras distantes.

Ela os ouvia com atenção,

Fascinada pelas histórias de cidades movimentadas,

Mares vastos e montanhas ainda maiores que as suas.

Um dia,

Um deles lhe ofereceu um mapa antigo.

Se algum dia decidir partir,

Este mapa pode te guiar,

Disse ele.

Elisa guardou o presente embaixo do colchão,

Como um tesouro secreto.

Porém,

O medo tomou conta.

Como eu poderia partir?

E se não der certo?

E se eu nunca mais voltar?

Esses pensamentos a paralisavam.

Assim,

O mapa permaneceu intocado,

Uma promessa silenciosa do que nunca seria.

Os anos se acumularam e a vida de Elisa se tornou uma sucessão de dias iguais.

Ela herdou a casa dos pais,

Cuidou da terra e viveu sem grandes perturbações.

O vilarejo,

Com seus telhados de barro e ruas de pedra,

Parecia imutável.

Elisa agora com 40 anos já não subia a colina como antes.

Aquele horizonte que tanto a fascinava agora era apenas uma paisagem distante.

Ela passava os dias cuidando da casa,

Da família e da pequena horta,

E as noites sozinha costurando sob a luz de uma lamparina.

Certa vez ouviu falar de uma caravana que buscava trabalhadores para uma cidade distante.

O convite reacendeu algo dentro dela,

Mas o medo logo voltou.

E se for perigoso?

E se não souber o que fazer?

E se eu fracassar?

E assim uma oportunidade passou.

Elisa envelheceu em meio ao silêncio de uma vida sem grandes mudanças.

As crianças cresceram,

Foram embora,

O marido então faleceu.

A vila que um dia fora cheia de crianças,

Correndo pelas ruas,

Agora era habitada por poucos,

Pois muitos jovens haviam partido em busca de algo mais,

Assim como seus filhos.

Aos 70 anos Elisa já não conseguia cuidar da casa sozinha.

Seus passos eram lentos e suas mãos antes hábeis agora tremiam.

Sentada em uma cadeira de balanço,

Olhava para o mapa amarelado que ainda guardava.

Ele parecia zombar dela,

Um lembrete das estradas que nunca percorreu.

— Por que eu não fui?

Sussurrou certa noite para ninguém em particular.

Na última semana de sua vida,

Um jovem que passava pela vila parou para ajudá-la a carregar a lenha.

Ele ficou impressionado com os mapas antigos que encontrou na casa.

— Você foi a todos esses lugares?

Perguntou ele com admiração.

Elisa,

Com um sorriso cansado,

Respondeu — Não,

Mas sonhei com eles por toda a vida.

Quando Elisa faleceu,

Poucos no vilarejo notaram.

Sua casa com as janelas cobertas de poeira e o jardim tomado pelo mato permaneceu intocada por meses.

Eventualmente,

Um grupo de viajantes encontrou o lugar e levou consigo o mapa.

Eles seguiram o caminho traçado atravessando montanhas e vales e,

Sem saber,

Levaram consigo o último vestígio dos sonhos de Elisa,

Espalhando-os pelo mundo que ela nunca ousou conhecer.

No vilarejo,

A vida continuou como sempre.

Mas para aqueles que ouviram falar de Elisa e de seus mapas,

Ela se tornou um símbolo de tudo o que se perde quando o medo nos impede de viver.

5.0 (16)

Avaliações Recentes

Clari

June 21, 2025

Narrativa maravilhosa! Muito obrigada!!!♡

Marta

December 6, 2024

Meditacao maravilhosa !

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