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As Montanhas Imortais

by Jorge Dias

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4.8
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87

Um conto mongol que nos alerta sobre várias coisas, como o ego, a ganância, a inveja, a aceitação, a liderança e o amor. Um conto que tem muito de simbólico a vários níveis, de onde se podem extrair variadíssimos fundamentos. Na verdade, o amor é eterno, tudo o resto acaba por ser efémero

Transcrição

Olá,

Seja bem-vindo e bem-vinda,

E aqui vou te deixar mais um conto retirado de um livro de contos populares chineses,

Desta vez é um conto mongol,

É um conto longo que nos fala do ego,

Nos fala da ganância,

Da inveja,

Do poder absoluto,

Da incapacidade de aceitar e também fala-nos da força do amor,

Chama-se as montanhas imortais Há muitos anos atrás corria nas estepes mongóis um rio largo mas pouco profundo A sua água era tão clara que se podia ver todas as pedras do fundo A oeste do rio morava uma bela rapariga chamada Suola que vivia em paz com a sua mãe A leste vivia um príncipe cruel com os seus criados Na caça do príncipe havia um rapaz,

Cujos pais,

Pastores pobres,

Tinham morrido quando ele ainda era uma criança,

Não tinha nome E como deste pequeno que guardava o gado do príncipe,

Chamavam-lhe o pastor Levava uma vida muito dura todos os dias,

De manhã cedo partia com o gado e só à noitinha é que voltava para casa Não comia o suficiente,

Passava frio porque andava mal vestido e ainda por cima por vezes era chicoteado pelo príncipe Ora,

Uma primavera,

Quando já não fazia tanto frio e as flores começavam a despontar,

Ele começou a reparar numa bela rapariga que sempre que ele passava junto do rio estava na outra margem e lhe sorria A princípio o pastor não lhe prestou nenhuma atenção,

Mas mais tarde,

Ao ver que todos os dias ela lhe sorria,

Começou a amá-la Um dia quando voltava com o gado e passava na margem do rio,

Viu a moça levantar a mão e lançar-lhe qualquer coisa Desceu do cavalo e apanhou o embrulhinho,

Era um pedaço de queijo e uma linda bolsa bordada de cor de rosa O pastor olhou para a outra margem e viu a rapariga a sorrir-lhe Desde essa altura passava muitas vezes para o lado de lá do rio para ir conversar com ela Soube assim que ela se chamava Suola O tempo passou e os dois cada vez estavam mais enamorados e já não podiam viver um sem o outro Sempre que ia guardar o gado,

Ele levava consigo a tão preciosa bolsa e a contemplava com amor À noite,

Antes de adormecer,

Punhado debaixo da almofada Um dia,

Quando cavalgava à beira do rio,

O príncipe viu Suola que estava a lavar roupa Parou e olhou acobiçosamente Depois,

Apontando com o chicote,

Ordenou para os seus criados Vão buscar-me aquele passarinho,

Gosto dele E rápido!

Deu uma grande gregalhada e partiu a cavalo sem esperar pelos criados Nessa mesma noite,

Suola estava já na casa do príncipe Que quis fazer dela sua concubina Ela,

Louca de raiva,

Chamou-lhe quantos nomes pôde O príncipe ficou vermelho,

Puxou do pinhal e gritou-lhe Ou te calas,

Ou te corta a cabeça E vê lá o que dizes Chamando os criados Ei,

Vocês aí!

Metam esta mulher na masmorra À meia-da-noite,

Quando já tudo estava calmo no palácio,

Suola,

Sozinha Ali naquele cárcere Naquele cárcere escuro,

Chorou E,

Ardendo de raiva,

Pensava como é que podia haver homem tão cruel Pensava ainda no seu amigo do coração desesperado Por não poder fugir dali Logo que soube o que se tinha passado,

O pastor ficou louco de raiva também E resolveu ir salvar Suola Depois da meia-noite,

Enquanto o guarda dormia,

Só um solto Passo ante passo,

Entrou no cárcere,

Agarrou na mão da moça E disse-lhe baixinho Embora,

Vamos fugir Os dois montaram a cavalo,

Mas quando estavam mesmo para partir os cães do príncipe Deram conta e lançaram-se contra ele Mas o rapaz puxou do chicote e fugiu com Suola O carcereiro acordou de repente E quando viu que a prisioneira tinha fugido,

Aterrorizado,

Correu para avisar o seu senhor Ao ouvi-lo,

O príncipe ficou furioso E mandou cavaleiros para os perseguirem De manhã cedo,

Os dois jovens foram apanhados e conduzidos ao palácio Assim que viu o pastor,

O príncipe,

Abrindo muitos olhos,

Gritou Ah,

Foste tu,

Miserável!

Quem é que te deu a ordem para soltar esta rapariga?

E como é que te atraveste a fugir com ela?

Mas o pastor não teve medo Durante anos,

O ódio e a cólera encheram-lhe o coração A tal ponto que ele não conseguia mais escondê-los Ergueu-se e cheio de rancor,

Apontando para o príncipe,

Disse Julgas-te no direito de raptar à força uma rapariga que não pertence?

Responde E que mal fiz eu ao tentar salvá-la?

Estas palavras impressionaram-no,

A tal ponto que ficou de boca aberta Embraçado e furioso,

Abanou a cabeça e gritou para os criados Prendam-me este desavergonhado!

Atenua o poste e soltem os cães contra ele Perdida,

Suola correu para junto do príncipe e,

Agarrada a ele,

Gritou Não podeis fazer isso!

Não podeis fazer isso!

Sai daqui!

Respondeu ele,

Insensível E com um pontapé foi-lhe a cair por terra e foi-se embora Suola levantou-se,

Ouviu os cães a ladrar e depois um grito de dor Um suor frio correu-lhe pelo corpo e,

Sem pensar no perigo,

Correu porta-fora Viu o pastor atado ao poste com um corpo coberto de sangue Uma dezena de cães devoravam-no Soltou um grito de aflição e desmaiou Pouco depois do pastor morrer,

O príncipe quis obrigar Suola a casar com ele Mas ela recusou Não deixou de pensar no seu amigo Ficou vários dias sem comer nem beber até que a morte a levou Para que os dois não se pudessem encontrar depois de mortos O príncipe mandou lançar o cadáver do pastor na margem oeste do rio E mandou enterrar Suola na margem leste Nesse mesmo dia,

À tarde No lugar onde um velho pastor caridoso tinha lançado o rapaz Surgiu uma pequena colina Três dias depois da morte de Suola,

O príncipe viu-se num sonho Os dois jovens a descerem do céu E apontavam-lhe um dedo reprovador E diziam,

Assassino A não ser que te transformes em tartaruga,

Tu nunca mais poderás separar-nos No dia seguinte,

Pela madrugada,

Ergueram-se dois montes por cima das duas tumbas Os seus cumes tocavam-se E formavam uma grande ponte sobre o rio A novidade depressa chegou aos ouvidos do príncipe Acompanhado por um criado,

Foi até ao rio e viu de facto duas montanhas que se elevavam da planície Percebeu que era uma metamorfose dos dois jovens e deu uma gargalhada de chacota Mandou vir os homens que trabalhavam nas pedreiras E ordenou-lhes que separassem as duas montanhas Os homens trabalharam bastante,

Mas não havia maneira de conseguir separar os dois cumes À medida que os escavavam,

Mais os dois picos se juntavam O príncipe perdia em cólera Chamou todos os trabalhadores do país e mandou-os trabalhar noite e dia Ao fim de alguns dias,

Sem que tivessem conseguido separar as duas montanhas,

Caíram esgotados pelo cansaço Não conseguiam sequer levantar um braço Furioso,

O príncipe subiu por uma delas E lá em cima,

No lugar onde as duas se tocavam,

De pé gritou Bando de incapazes!

Se não as separarem até ao fim do dia,

Mato-vos a todos!

Mal acabaram de pronunciar estas palavras,

Um tremor de terra sacudiu de repente as duas colinas Ouviu-se um ruído de trovão e as montanhas separaram-se bruscamente O príncipe desequilibrou-se e caiu de costas no rio Os trabalhadores correram para lá,

Mas não viram senão uma grande tartaruga Que se mexeu um pouco,

Mas que logo ficou imobilizada Depois que o príncipe cruel se transformou assim numa tartaruga de pedra As duas montanhas separaram-se para sempre E orgulhosamente ali estão,

Cada uma do seu lado do rio Chamam-lhe as Montanhas Imortais Mas o que é que aconteceu à tartaruga de pedra?

Essa metamorfose do príncipe?

Durante anos a força da água desgastou-a E pouco a pouco foi ficando cada vez mais pequena Até que desapareceu para sempre E aqui fica este conto mongol Que nos mostra muito sobre aquilo que é o ego,

Um ego exacerbado Um ego cego Que também está associado à ganância e uma inveja Uma inveja de ter aquilo que o outro tem Mas é de não deixar que os outros tenham aquilo que querem Aquela inveja corrosiva,

Inveja negativa Depois a questão também do poder absoluto O poder absoluto acaba por ser um ponto fraco Acaba por tirar o foco daquilo que é importante E de mostrar caminhos,

Caminhos obscuros Em que se manifestam emoções negativas Ou a ausência delas A ausência de emoções saudáveis A ausência de capacidade de estabelecer relacionamentos Apenas sobram poder e submissão Só faz sentido a relação que tiver por base poder e submissão Depois mostra-nos também a incapacidade de aceitar E a incapacidade também de se mudar a si mesmo A incapacidade de aceitar está ligada diretamente à capacidade de cada pessoa De se mudar a si mesmo,

De se mudar Quanto à sua perceção,

Quanto à sua perspetiva Equacionar novas formas de pensar A incapacidade de aceitação que os outros são,

Do que os outros querem E que os outros também são pessoas,

São energia São energia,

Têm creres,

Têm valores,

Têm vidas E depois finalmente a força do amor Que tornou imortal algo que se materializou aqui numa metáfora As montanhas imortais As montanhas do amor que são imortais Fica bem e até breve

4.8 (14)

Avaliações Recentes

Bernadete

May 27, 2024

🙏

Ana

August 22, 2023

Neste meu regresso foi maravilhoso ouvir este conto. Muito grata Jorge 💫

Carla

August 8, 2023

Muito bom!!! Agradeço, Jorge!

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