
No. 21 - Você Não Tem que Ser Perfeito | Podcast Autoconsciente
Hoje, com toda ênfase que a sociedade dá para a visibilidade, a popularidade e a competitividade, tendemos a criar altas expectativas sobre nós mesmos, nosso desempenho, nossos resultados. Isso gera um certo perfeccionismo que tem vários efeitos colaterais: ansiedade, frustração, descontentamento conosco mesmos, perda de autoconfiança. Vamos refletir sobre a ideia de ter que ser perfeitos.
Transcrição
Eu lhe dou as boas-vindas ao Autoconsciente,
Um podcast que entende você,
Para você se entender melhor.
Sou Regina Gianetti,
Criadora do programa de autogerenciamento Você Mais Centrado,
Para a gente ter mais foco,
Bem-estar e paz com a gente mesma.
Eu faço este programa para compartilhar reflexões e ações para uma vida com mais autoconsciência.
A minha intenção é que ao terminar um episódio,
Você se sinta melhor do que quando começou.
Para você entender o porquê de ser autoconsciente no mundo de hoje,
Com essa vida louca que a gente leva,
Eu te convido a escutar o episódio 0,
Em que eu apresento o propósito do podcast.
E se você gostar do que vai ouvir aqui,
Compartilhe com os amigos nas redes sociais.
Vamos espalhar o autoconsciente por aí.
Episódio 21 – Você não tem que ser perfeito Um dia desses eu avaliei um serviço online,
Do qual eu sou cliente,
E me lembro de ter dado nota 8.
É um serviço que atende a minha necessidade,
Funciona quando eu preciso,
Tem lá algumas coisas que eu acho que poderiam ser melhoradas,
Mas eu estou satisfeita no geral.
Então eu dei um 8.
Naquele mesmo dia eu recebo o e-mail de alguém do setor de relacionamento da empresa que presta aquele serviço,
E o e-mail diz assim.
Boa tarde Regina,
Como vai?
Em sua avaliação da nossa ferramenta,
Você nos deu uma nota neutra.
Gostaria de saber os motivos da sua pontuação e o que podemos fazer para receber nota 10.
Olha,
Me chama a atenção no e-mail a pessoa se referir ao 8 como uma nota neutra.
Numa escala de 0 a 10,
O 8 é bom,
Mas ela considera neutro.
E o que significa neutro?
Neutro é o que não tem efeito,
Não faz diferença,
Não acrescenta nem subtrai,
Não é bom nem ruim.
Eu acho louvável que empresas e pessoas se interessem em saber o que podem fazer para receber um 10.
Quem não quer um 10?
Eu também quero,
Mas a forma como a pessoa se refere a avaliação e o tom que ela usa dá a impressão que ela não reconhece a nota 8 como significativa,
Uma nota do tipo ei,
Você está no caminho certo.
Eu fico aqui imaginando se ela não torceu o nariz quando viu o 8,
E de repente me vem na cabeça a cena do estudante nerd que vai com a prova até a mesa do professor e questiona por que você me deu só 8?
Para mim essa situação é um bom começo para a nossa conversa sobre a expectativa de sermos perfeitos.
Estou exagerando que existe isso em nós?
Bom,
Se você está aqui me ouvindo é porque o tema você não tem que ser perfeito faz sentido para você.
No fundo,
No fundo,
Você reconhece que nós temos um certo perfeccionismo,
Não é?
E temos mesmo.
A gente pode até dizer que errar é humano,
Que ninguém é perfeito,
Que o ótimo é inimigo do bom e etc e tal,
Mas isso é só da boca para fora,
Viu?
Para o nosso íntimo,
Não é tão simples lidar com os nossos erros,
Fracassos,
Fraquezas,
Limitações,
Insuficiências,
Aspectos negativos?
E por quê?
Porque tudo isso nos expõe a situações dolorosas que nós queremos a todo custo evitar.
Situações como receber críticas,
Ser desaprovados,
Repreendidos,
Rejeitados,
Nos sentir em desvantagem,
Inferiorizados ou simplesmente não atender às nossas próprias expectativas.
A melhor maneira de a gente se manter bem longe dessas situações indesejáveis é fazer tudo certo,
Ter alto desempenho,
Ser vencedor,
O cara,
Ser,
Desculpa a expressão,
Ser foda.
Porque assim estamos a salvo da crítica,
Da rejeição,
Desaprovação,
Do sentimento de inferioridade,
Da decepção conosco mesmos,
De tudo aquilo que a gente não quer.
E o que é melhor?
Ser foda traz tudo o que a gente quer.
Admiração,
Aprovação,
Reconhecimento,
Sucesso,
Autoestima elevada,
Recompensa,
Etc,
Etc.
Não é à toa que a gente alimente a expectativa de ser perfeitos,
Impecáveis,
Inatacáveis,
Não é?
E ainda mais hoje,
Com toda a ênfase que a sociedade dá para a visibilidade,
A popularidade e a competitividade.
A expectativa de perfeição ficou ainda mais em evidência.
Porque se eu não for foda,
Eu fico para trás,
Eu não me destaco nos timelines da vida,
Eu não sobrevivo na selva do mundo pós-globalizado.
Como diz a americana Christine Neff,
Que é doutora em desenvolvimento humano pela Universidade de Austin,
Todos nós estamos buscando nos sentir especiais,
No mínimo estar acima da média.
Precisamos ser inteligentes e atléticos e elegantes e interessantes e bem-sucedidos e sexys e espiritualizados também.
Tá fazendo sentido?
Olha,
É da natureza do ser humano evitar o sofrimento e buscar a felicidade.
Eu já falei disso algumas vezes aqui,
Né?
Essas são as motivações básicas do nosso comportamento,
É o que nos move nessa vida.
É legítimo e necessário querer ter êxitos,
Conquistas e satisfação conosco mesmos.
Porém,
A expectativa de ser perfeitos,
Ou de ter que fazer tudo perfeito,
Não traz felicidade.
Na verdade,
Traz mais é sofrimento.
Se eu determino que eu tenho que receber um 10,
Receber um 8 é ruim.
O 8 não é 10,
Então eu me frustro.
Eu não me felicito pelo meu 8,
Eu não reconheço que já conquistei um 8.
Tudo que eu vejo é que eu não recebi um 10 e eu me coloco no lugar de insuficiência e isso me faz sofrer.
Tem vários estudos que relacionam a alta exigência por desempenho com a ansiedade e o estresse,
E em casos mais extremos,
Ao surgimento de transtornos psicológicos.
Uma reportagem da revista Veja,
De junho de 2018,
Fala de pesquisas que mostram como isso está afetando as novas gerações de estudantes e profissionais,
E traça o perfil da pessoa perfeccionista.
Se você quiser saber mais,
Tem um link para a matéria no site do podcast,
Viu?
A expectativa de perfeição pode estar por trás de problemas que parecem não ter nada a ver,
Como nesse caso que eu vou te contar.
É o caso de uma aluna,
Que eu vou chamar de Ana.
Ela entrou em contato comigo por causa de uma grande dificuldade para se concentrar.
A Ana é profissional do meio acadêmico,
Pesquisadora,
Professora,
Alguém que precisa ler e escrever muito.
Ler um texto com atenção estava impossível,
A todo instante ela se distraía e tinha que recomeçar.
Escrever,
Então,
Era ainda mais complicado.
Era difícil organizar as ideias.
A Ana tinha ouvido dizer que praticar meditação ajuda a ter mais foco.
Então ela baixou um aplicativo para o celular e experimentou praticar mindfulness,
Mas foi frustrante.
No primeiro e-mail que escreveu para mim,
Ela desabafou.
Quando eu percebi que não conseguia fazer uma simples meditação de 5 minutos,
Foi a gota d'água.
Ela acabou entrando para o programa de autogerenciamento que eu facilito,
E então entendeu que se passava com ela.
E era o seguinte,
O que atrapalhava sua concentração era a preocupação em fazer um trabalho perfeito.
Quando executava uma tarefa,
A Ana tinha uma avalanche de pensamentos sobre como ela iria fazer,
E como deveria fazer,
E se teria um jeito melhor de fazer,
Etc,
Etc.
Esses pensamentos tiravam a concentração da tarefa.
E quanto mais dificuldade ela tinha para se concentrar,
Mais agitada e preocupada ela ficava por não estar conseguindo fazer o trabalho.
Ela havia entrado num círculo vicioso do qual estava difícil sair.
A Ana afinal descobriu,
A causa do seu problema,
Que ela chamou de perfeccionismo.
E descobriu ainda uma outra faceta do perfeccionismo que a levava a definir metas irreais.
Do tipo,
Ah,
Esse trabalho aqui eu faço em meia hora.
Só que não.
De repente o trabalho era muito complexo para realizar em meia hora,
E aí ela não conseguia realizar.
E porque não conseguia,
Se julgava e se criticava,
E isso criava mais mal-estar e aumentava a dificuldade em se concentrar.
É típico do perfeccionismo,
Aliás,
Nos levar a definir metas irreais.
Na nossa mente achamos que temos que conseguir tudo,
E não estimamos realisticamente até que ponto vão as nossas possibilidades.
Usando uma metáfora,
Subimos muito o sarrafo do salto em altura.
E aí queimamos o salto,
Claro.
Estava muito além do que era possível para nós.
Outro subproduto da expectativa de perfeição é a autocrítica severa.
Autocrítica é uma conversa que temos conosco mesmos em que reconhecemos os nossos deslizes,
Fraquezas ou maus comportamentos.
Em princípio,
E até certo grau,
É algo positivo.
É uma estratégia da mente para evitar o sofrimento do erro,
Do fracasso,
Do sentimento de inadequação.
Segundo a Christine Neff,
É um comportamento de segurança para garantir a nossa aceitação em um grupo social.
Ela diz que na autocrítica há uma lógica assim.
Eu vou me criticar antes que você o faça.
Eu reconheço as minhas falhas e imperfeições.
A autocrítica também nos faz ficar alertas para aquilo que tememos.
Por exemplo,
Eu estou sendo relapsa com as minhas finanças.
Preciso começar a me organizar antes que eu fique completamente quebrada.
E criticar a nós mesmos é ainda uma forma de justificar certas situações que nos acontecem.
Por exemplo,
Eu não fui aprovada naquela entrevista de emprego porque não me preparei o suficiente.
Eu deveria ter sido mais cuidadosa.
Então,
Fazer uma autocrítica pelos nossos infortunios e insucessos nos dá a sensação de um certo controle sobre a vida.
Até aí,
A autocrítica cumpre a sua função de autoproteção.
Mas quando existe expectativa de perfeição,
É comum a autocrítica subir muito o tom e se tornar severa,
Implacável,
Uma forma de assédio moral para conosco mesmo.
Por exemplo,
Em lugar de eu estou sendo relapsa com as minhas finanças,
Fica uma coisa assim.
Eu sou mesmo uma preguiçosa,
Uma relaxada.
Como é que eu pude deixar que as minhas finanças virassem essa zona?
Em lugar de eu deveria ter me preparado para entrevistas de emprego,
Fica algo assim.
Que imbecil!
Como é que eu pude achar que eu passaria na entrevista sem me preparar?
Eu sou uma idiota,
Estraguei tudo.
Pois é,
Na intimidade dos nossos pensamentos,
Podemos dizer palavras duras a nós mesmos,
E nem sempre percebemos o quanto estamos pegando pesado conosco.
Em parte porque a conversa da autocrítica se passa no nosso interior.
Ninguém pode ouvir e dizer,
Ei,
Você está sendo cruel com você.
Em parte porque a autocrítica é aprendida com a educação que a maioria de nós recebeu,
E acreditamos que ela funciona como uma forma de nos mobilizar,
De nos fazer agir para evitar uma situação indesejável.
Só que quando a autocrítica se torna muito dura,
Ela não motiva.
O que acontece é bem o contrário,
Ela sabota a confiança na gente mesma.
A Christine Neff diz o seguinte,
A autocrítica tende a minar a crença na autoeficácia.
Por esse motivo,
Pode prejudicar a nossa capacidade de fazer o nosso melhor.
Colocando-nos para baixo constantemente,
Leva-nos a perder a fé em nós mesmos.
Foi o que aconteceu num caso que eu acompanhei de perto,
De uma pessoa muito competente,
Que sabia tudo e mais um pouco do trabalho dela.
Ela vinha fazendo uma carreira brilhante de mais de 10 anos na mesma organização.
Tinha começado de baixo e já era gerente de operações.
Aí teve uma mudança na estrutura da instituição,
E ela passou a se reportar para um novo diretor.
E esse diretor tinha um ritmo mais acelerado que o anterior.
Ele deu uns feedbacks para a gerente,
Que gostaria que ela tivesse mais iniciativa e ações mais rápidas.
E ela entrou num processo de achar que não era competente,
Que não estava à altura.
E aí uma forte autocrítica começou a dominar a mente dela.
De repente,
A carreira brilhante,
O profundo conhecimento da organização,
As suas muitas competências como profissional,
Nada disso tinha valor.
Ela havia perdido a confiança nela mesma.
Pois é,
A expectativa de perfeição chega a produzir tudo isso.
Dificuldade para se concentrar,
Ansiedade e frustração,
Descontentamento conosco mesmos,
Perda de autoconfiança.
Não merecemos isso,
Né?
Bom,
Eu também vivo nesse mundo competitivo e reconheço que essa ideia também está em mim.
E que eu preciso trabalhar para baixar a minha autoexigência,
Para ter mais aceitação da minha humanidade,
Dos meus erros,
Limitações e imperfeições.
Eu nunca esqueço da minha primeira lição nessa matéria,
Muitos anos atrás.
Na época,
Eu ouvia música clássica o dia inteiro e estava apaixonada pelo som do violino.
Eu tinha um coach e comentei com ele o quanto o violino mexia comigo.
E aí ele me fez uma provocação.
E se você aprendesse a tocar um instrumento?
Topei na hora a ideia.
Eu já me via arrasando no violino,
Tocando umas músicas de que eu gostava muito.
Pois sim,
O violino não é um instrumento fácil.
Para você ter uma ideia,
A primeira aula foi só sobre como pegar no instrumento.
A segunda,
Como pegar no arco.
Eu desafinava muito e precisava ser corrigida a todo instante.
Era uma situação meio desconfortável no começo.
Eu me sentir tão incompetente para fazer aquilo.
Mas era parte do aprendizado e eu queria muito aprender.
Então eu desencarnei dos erros,
Das correções e de tudo e fui em frente.
A cada dia eu tocava um pouquinho melhor.
Ou talvez um pouquinho menos pior.
O auge dessa experiência foi quando eu participei do recital do meu professor,
Com uns 20 outros alunos dele.
Todos foram convidados.
Dos menos experientes,
Como eu,
Até aqueles que tocavam muito.
Eu guardo com muito carinho a lembrança de estar me aquecendo na cocheia do teatro,
Os outros alunos também afinando seus violinos e a gente produzindo aquela zoeira sonora típica das orquestras,
Instantes antes de começar um concerto.
Eu me sentia,
Sim,
Uma violinista de fila harmônica.
E fiquei ali,
Atrás das cortinas,
Com o coração rufando dentro do peito,
Esperando a vez de me apresentar.
Cada um de nós havia recebido uma música adequada para o seu nível como estudante e executava a música acompanhado por um pianista.
Todos os alunos eram muito aplaudidos.
Não importava se eles desafinassem ou tocassem bem.
Estavam ali as famílias da gente,
Os amigos mais chegados.
Na minha vez de tocar,
Eu acho que eu nem respirei.
Nem olhei para a plateia,
Olhei só para o pianista.
E errei uma passagem da música.
Mas não deu nem tempo de pensar que errei.
Por puro reflexo,
Eu retomei o ritmo e continuei tocando.
Na hora dos aplausos,
Eu olhei para a minha família,
Os meus filhos pequenos batendo as palminhas.
Era 10 de dezembro,
Dia do meu aniversário.
E eu estava muito feliz comigo.
Feliz por ter me permitido a experiência de aprender a tocar violino.
Ter descido do altar da carreira de editora-chefe,
Onde eu achava que sabia tudo,
Para um lugar onde eu não sabia nada.
Feliz por ter participado de um recital,
Mesmo tocando modestamente.
E isso só aconteceu porque eu deixei de lado as minhas habituais expectativas de alto desempenho e me abri para fazer o meu melhor,
Livre da ideia de ter que ser perfeita.
Olha,
É muito válido a gente fazer alguma coisa na vida só para ter a experiência de fazer,
Sem a preocupação de atingir uma meta,
Sem a exigência de um alto desempenho.
Fazer simplesmente porque a gente gosta daquilo e deseja evoluir naquilo.
Eu agora estou com vontade de praticar slackline,
Que é aquele esporte de caminhar em equilíbrio sobre uma fita a alguma altura do chão.
Mas no meu caso,
Não mais do que a meio metro do chão.
E você?
E se você fizesse algo pela experiência de fazer?
O que seria?
Você pode usar essa experiência para baixar o sarrafo das suas expectativas,
Encarar os erros não como um desastre,
Mas um componente do aperfeiçoamento,
E reconhecer e celebrar os seus progressos.
É claro que no trabalho ou nos estudos nós precisamos ter um certo nível de desempenho e atingir metas.
Mas nem por isso temos que ser perfeitos.
Essa ideia é muito contraproducente,
Pelos motivos que a gente já discutiu bastante aqui.
Em vez da perfeição,
Vamos buscar a excelência.
Um dos significados de excelente é aquele que se excede.
A busca da excelência,
Então,
Seria a busca por crescimento,
Por evolução.
Se a perfeição é um destino final que nunca chega,
A excelência é um caminho.
Um caminho que a gente faz todo dia,
Às vezes com algum tropeço,
Mas avançando sempre.
Se a gente olha para o destino inatingível da perfeição,
Só vê o que nos falta.
Mas se olha para o caminho da excelência,
A gente vê o quanto já percorreu.
Que você esteja bem.
Um abraço.
Conheça seu professor
4.9 (51)
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