
No. 16 - Você Não Tem Que Estar Feliz o Tempo Todo | Podcast Autoconsciente
No mundo de hoje, estar triste, decepcionado, com medo ou outro tipo de dor emocional tornou-se inaceitável, como se fosse algo anormal. É a ditadura da felicidade! Vamos questionar a ideia de ter que estar feliz o tempo todo. Vamos admitir que momentos de infelicidade são normais na experiência humana. E considerar que esses momentos são um caminho para conhecermos nossas forças.
Transcrição
Eu lhe dou as boas-vindas ao Autoconsciente,
Um podcast que entende você,
Para você se entender melhor.
Sou Regina Gianetti,
Instrutora de meditação mindfulness e criadora do programa de autoginanciamento Você Mais Centrado.
E eu faço esse programa para compartilhar reflexões e ações para uma vida com mais autoconsciência.
E a autoconsciência é onde a nossa transformação começa.
Você quer viver mais em paz com você mesmo e com os outros?
Quer desfrutar do que a vida oferece e lidar de uma forma lúcida com os desafios da existência?
Então a autoconsciência é o seu primeiro passo,
Porque a gente só pode transformar aquilo que reconhece que existe.
Eu te convido a olhar para o seu interior,
Mas olhar com amor,
Não com julgamento.
Eu quero agradecer a vocês que estão escrevendo,
Deixando mensagens e feedbacks.
Eu estou muito contente em receber esses retornos e saber o que o podcast está trazendo para os ouvintes.
Tem gente que pergunta,
Né,
Quando é que sai o próximo episódio?
Então eu tenho como intenção lançar um episódio a cada três semanas mais ou menos.
Para mim como produtora,
Os temas do autoconsciente precisam de algum tempo para ser trabalhados.
E para você como ouvinte,
Eles também têm um tempo para ser digeridos,
Não é?
Depois de escutar um episódio,
Tire um tempinho para refletir e colocar em prática alguma ideia que o programa lhe deu.
E compartilhe com os amigos,
Viu?
Vamos espalhar o autoconsciente por aí.
Bom,
Se este é o primeiro episódio que você escuta,
Eu convido a escutar também o número zero em que eu justifico a proposta de estar mais autoconsciente e apresento o propósito do podcast.
Episódio 16 – Você não tem que estar feliz o tempo todo Alguém já disse que o sucesso é ser feliz.
Você não precisa ter aqueles símbolos que são normalmente associados ao sucesso.
Riqueza,
Poder,
Fama,
Carros de luxo,
Troféus,
Etc.
Se você é feliz vivendo a sua vida do jeito que ela é,
Você pode se considerar bem-sucedido.
Eu também acho que é por aí.
A ideia de que o sucesso é ser feliz é libertadora,
Permite que cada um busque o sucesso à sua maneira.
Agora,
Por estranho que pareça,
Essa ideia também tem uma faceta perversa.
Pensa aqui comigo.
Se o sucesso é ser feliz,
Como é que fica quando a gente se sente infeliz?
Como é que fica quando a gente sente tristeza,
Medo,
Decepção,
Quando tem uma dor emocional?
Significa que a gente está fracassando?
Parece exagero?
Mas não é não.
Na nossa cabeça passa isso.
A dor emocional,
Assim como a física,
Não é apenas indesejável,
Uma experiência que por instinto todos nós queremos evitar.
No mundo de hoje,
Sentir dor tornou-se inaceitável,
Como se fosse algo anormal.
E isso traz grandes problemas para a nossa vida.
Neste episódio,
Vamos questionar essa ideia de ter que ser feliz o tempo todo.
Vamos admitir que momentos de infelicidade e dor são normais na experiência humana.
E considerar que esses momentos não nos tornam fracassados nem fracos.
Na verdade,
Momentos de infelicidade e dor são um caminho para conhecermos as nossas forças.
A humanidade evoluiu muito.
Tem tratamentos para quase tudo,
Tem drogas eficazes,
Tecnologia e terapias avançadas para nos livrar de males de todos os tipos,
Tem uma infinidade de cursos e livros que ajudam a lidar com nossos problemas.
E se você não estiver afim de ler,
Também tem uma penca de vídeos no YouTube com receitas de felicidade,
Métodos para ser feliz agora.
Então,
Não cabe sofrer.
Não cabe ter as chamadas emoções negativas,
Sentir-se mal com relação a algo.
Se você se sente infeliz,
Com medo,
Aborrecido,
Ansioso,
Resolva isso o mais depressa possível.
Tome um remédio,
Faça terapia.
Se você tem pensamentos negativos,
Livre-se deles.
Pensamento negativo não pode.
Além do mais,
Nunca ouvi tantos prazeres na vida.
Prazeres para todos os gostos e bolsos,
Para nos tornar felizes.
Vamos cair na balada,
Tomar aquela cerveja gelada com a turma,
Meter o pé na jaca,
Sensualizar,
Gourmetizar,
Nos divertir.
Olha quantas opções de entretenimento a gente tem.
Olha quantos sonhos de consumo podemos realizar.
E você aí sofrendo,
Cheio de mimimi,
Para com isso.
Bom,
Essas são as mensagens que o mundo nos dá.
E elas estão por aí,
Nas propagandas da TV,
A família sorridente tomando café da manhã no comercial de margarina,
A turma de amigos invadindo uma praia com refrigerantes na mão,
Estão nas redes sociais,
Nas fotos das férias perfeitas e nas selfies retocadas.
Se você não se sente feliz,
Pelo menos procure parecer feliz e esconda sua dor.
É bem verdade que a busca da felicidade é o que move o ser humano.
É uma necessidade existencial.
Isso nem se discute.
O que hoje está sendo questionado por uma nova corrente da psicologia é a equação felicidade igual zero dor mais prazer ao máximo,
Especialmente no que diz respeito a zero dor.
Essa corrente sustenta que experiências emocionalmente dolorosas são normais e,
Aliás,
Inevitáveis.
E alerta que tentar suprimir a dor causa um sofrimento ainda maior e mais duradouro.
A principal voz dessa corrente é um PhD em psicologia da Universidade de Nevada,
Nos Estados Unidos,
Chamado Stephen Hayes.
Ele é um dos criadores da terapia de aceitação e compromisso,
Que em inglês é conhecida pela sigla ACT,
E está revolucionando a forma como são abordados os problemas psicológicos humanos.
O Dr.
Hayes costuma dizer que estamos vivendo uma ditadura da felicidade,
Em que ser feliz é considerado normal e ter dor é considerado anormal.
Ele também diz que em cima dessa ideia se construiu um conceito distorcido de felicidade,
Baseado na ausência de emoções dolorosas e uma profusão de emoções agradáveis e curto prazo.
E o que esse conceito leva a gente a fazer,
Na visão de Stephen Hayes?
Preencher a vida com momentos de bem-estar.
Quanto mais melhor,
Encontrar os amigos,
Passear,
Assistir a um show,
Comprar coisas,
Curtir,
Não é que ele seja contra esses momentos,
Que aliás são essenciais para a nossa vida.
O que ele coloca é que episódios efêmeros de bem-estar trazem só uma satisfação momentânea,
E não é isso que dá sentido à nossa vida,
Nem preenche a nossa necessidade de realização.
Os momentos de prazer também não podem impedir que aconteçam situações dolorosas como perdas,
Erros,
Fracassos,
Conflitos,
Dificuldades.
E aí,
Quando acontecem essas situações,
Também não adianta fugir da dor que elas provocam.
Fugir ou tentar suprimir as dores da vida faz a gente sofrer ainda mais.
Por exemplo,
Imagina uma pessoa que sofre uma traição amorosa e a partir daí só tem relacionamentos superficiais que é para não correr o risco de sofrer de novo.
Esses relacionamentos vão no máximo trazer momentos prazerosos e talvez algum alívio para a solidão,
Mas não vão criar o envolvimento e a intimidade que lá no fundo a pessoa deseja.
Ela pode até tentar se convencer de que assim é melhor,
Que pelo menos nunca vai se decepcionar Mas o fato é que o medo de sentir dor sabota a vida afetiva da pessoa,
Impede que ela viva um grande amor,
E ela acaba sofrendo por isso.
E em quantas outras áreas da vida o medo da dor pode nos sabotar,
Pode nos limitar,
Não é?
Pode nos impedir de trilhar uma nova carreira,
Realizar um sonho,
Mudar de país,
Abrir um negócio,
Experimentar algo novo,
Tantas coisas.
Para não correr o risco de errar ou de fracassar,
A gente se restringe a uma vida hipoteticamente segura,
Mas que não nos preenche.
É uma grande contradição.
O medo da dor não evita a dor,
Mas a amplia.
Outra consequência de fugir da dor é o surgimento de transtornos psicológicos,
Segundo Stephen Hayes.
Alguém que tem muito medo de passar por situações dolorosas,
Como errar ou ser rejeitado ou falhar nos seus objetivos,
Vive em constante estado de ansiedade.
E isso pode evoluir para um transtorno de ansiedade,
Uma fobia,
Uma depressão,
Uma dependência química ou outros problemas.
Na visão do Dr.
Hayes,
A ditadura da felicidade é um dos motivos por que os problemas psicológicos têm crescido tanto no planeta.
Escuta esse dado da Associação Brasileira de Psiquiatria.
30% dos brasileiros terão algum distúrbio mental em algum momento da vida.
30% é muita coisa.
Como será que nós chegamos a esse ponto,
Não é?
Décadas atrás,
Transtornos psicológicos eram pouco comuns.
O Dr.
Hayes,
Que é um cientista da saúde mental que pesquisa muito sobre isso,
Diz que em outros tempos o ser humano encarava as situações dolorosas com naturalidade.
A vida era dura e sacrificada para quase todo mundo e as pessoas tinham mais aceitação dos limites,
Das decepções,
Perdas,
Doenças.
Vivenciar experiências dolorosas era o normal,
Enquanto que a felicidade era desejável e sempre foi perseguida,
Mas não era o normal da vida.
Hoje o cenário é bem diferente.
A ciência avançada,
A tecnologia,
Os confortos modernos tornaram a nossa vida mais fácil e fazem a gente achar que consegue tudo.
Fazem a gente até se sentir pressionada a conseguir tudo.
Você quer o que?
Melhorar a sua aparência?
Quer ter o seu próprio negócio?
Quer se lançar num mundo artístico?
Ter uma legião de seguidores?
Alugar um chalé na Patagônia?
Viver experiências excitantes?
Pra tudo o que você quiser tem soluções,
Tem ferramentas,
Tem recursos,
Tem até a realidade virtual é aumentada.
São tantas as facilidades que este mundo oferece que ser feliz virou a norma e ter experiências dolorosas fora da norma.
Foi então que as pessoas passaram a achar que tem que estar felizes o tempo todo e se não estão é porque tem algo errado com elas.
Para tudo gente,
Não é por aí.
Você não tem que estar feliz o tempo todo.
Isso é irreal.
O real e normal é ter experiências dolorosas e emoções negativas.
Olha,
Essa nova corrente da psicologia não está sugerindo que você se torne masoquista,
Que você goste de sofrer.
Ela só nos aconselha a não fugir da dor e sim a aceitá-la como uma experiência natural da vida,
Sem achar que porque você tem dor tem algo errado com você.
Quando a gente está triste,
Decepcionada,
Com medo ou insegura,
A última coisa que passa pela cabeça é que aquilo vai nos trazer algum crescimento.
Eu sei.
Mas se você olhar pra trás e lembrar de uma experiência dolorosa sua,
Talvez seja possível agora reconhecer algum aprendizado que aquela dor lhe trouxe.
Eu vou compartilhar um aprendizado meu.
Por quase 10 anos eu tive uma parceria de negócios que funcionou muito bem.
O meu parceiro tinha uma empresa de treinamentos.
Ele vendia e eu entregava.
Nós começamos juntos,
Crescemos juntos,
Tivemos lá algumas divergências,
Mas sempre foi uma relação de respeito mútuo.
Até que no final de 2015,
Com uma conversa por telefone,
Ele encerrou a parceria.
A crise na economia estava pegando forte,
Ele queria mudar tudo e eu não fazia parte desses novos planos.
No primeiro momento eu fiquei triste,
Porque eu gostava dos trabalhos que eu fazia ali,
E também por causa da forma como a parceria tinha acabado.
Depois eu senti raiva.
Como assim terminar uma parceria de 10 anos por telefone?
E também senti medo,
Porque os trabalhos que vinham dali eram a minha principal fonte de renda,
E num momento de crise econômica era difícil abrir novas frentes.
Eu aprendi a mergulhar nas emoções dolorosas e deixar elas passarem,
Porque elas passam.
A tristeza e a raiva passaram logo,
Mas o medo ficou ainda por algum tempo.
E foi empurrada por esse medo de ficar sem trabalho que eu decidi promover e vender meus próprios treinamentos.
O primeiro aconteceu dois meses depois,
E desde então eu não parei mais.
Hoje eu olho pra trás e reconheço que aquela situação dolorosa me impulsionou a botar no mundo o meu programa de mindfulness,
Que era algo que eu já pensava em fazer,
Mas vinha protelando.
Eu estava muito confortável naquela parceria,
Porque ela me arrumava trabalhos,
Eu não tinha que me preocupar com nada,
Era só comparecer a uma sala cheia de alunos e dar um curso.
Mas então quando a parceria acabou,
Eu tive que tirar o meu projeto do papel e ir à luta.
Eu me senti infeliz quando aconteceu o rompimento,
Mas hoje eu reconheço que foi algo positivo,
Porque me trouxe crescimento.
Me obrigou a utilizar ao máximo os meus recursos e eu descobri a busca que eu nem sabia que eu tinha.
Eu me sinto feliz com o que eu faço hoje,
Tocando meu próprio projeto.
Eu me sinto mais livre.
Tem um famoso ditado que diz,
Ou aprendemos por amor ou pela dor.
E olha,
O mais comum é pela dor mesmo.
Nos apegamos a situações,
Lugares,
Pessoas,
Nos acomodamos,
Preferimos ficar naquilo que é conhecido,
Tentamos ignorar insatisfações,
Desejos não realizados,
Feridas emocionais,
Conflitos internos,
E aí levamos uma sacudida da vida.
E dói.
E a dor nos empurra a fazer o que não fizemos até então,
Ou mostra o que não queríamos ver.
E aí descobrimos algo,
Nossas forças e recursos,
O que realmente é importante na vida,
Ou o que tem sentido pra nós.
Quando a gente está vivendo uma situação que traz infelicidade e dor,
A gente se pergunta,
Por quê?
Por que isso?
Por que comigo?
Mas é só algum tempo depois,
Com os desdobramentos da situação,
Que dá pra entender os porquês.
Só depois de ter caminhado um tanto,
É que podemos olhar pra trás e reconhecer onde chegamos.
Se é assim,
Então,
Não tente fugir da dor.
Fazer isso só vai criar mais sofrimento e adiar um aprendizado sobre você mesmo ou sobre a vida.
Olha,
Você não tem que estar feliz o tempo todo.
Que bom saber disso,
Não é?
Que você esteja bem.
Um abraço.
Conheça seu professor
4.9 (47)
