
No. 1 - O Viciante Pingue-Pongue da Atenção | Podcast Autoconsciente
O nosso relacionamento com os dispositivos eletrônicos é um dos principais causadores de um fenômeno que a Neurociência batizou de atenção parcial contínua. Ou seja, a atenção que salta de uma coisa para outra em curtos intervalos de tempo, como uma bolinha de pingue-pongue. Disciplinar nossa atenção é fundamental para ter uma vida mais autoconsciente.
Transcrição
Bem-vinda,
Bem-vindo.
Eu sou Regina Gianetti e minha intenção com esse podcast é compartilhar ideias e ações para uma vida com mais autoconsciência.
Autoconsciência traz autoconhecimento.
Nos coloca no aqui e agora,
Que é onde a vida realmente acontece.
Permite fazer escolhas coerentes com o que sentimos e desejamos.
Empodera.
A vida com autoconsciência é cheia de significado e cumpre um propósito.
Isso faz sentido para você?
Escuta aqui.
E se este é o primeiro programa que você ouve,
Escute também o número zero em que eu apresento a proposta do podcast e justifico a ideia de estar mais autoconsciente.
Episódio número 1.
O viciante ping-pong da atenção.
Levar uma vida mais autoconsciente significa prestar atenção em nós mesmos,
Certo?
E prestar atenção em nós pode ser um pouco mais desafiador do que parece.
Para isso acontecer,
A gente precisa mudar alguns hábitos que são típicos do nosso estilo de vida.
E nesse episódio eu vou falar sobre um deles,
Que é o de nos deixar distrair,
Interromper e até mesmo viciar pela nossa parafernália eletrônica e os aplicativos de comunicação e relacionamento que a gente tem.
É o tal de WhatsApp,
Gmail,
Facebook,
Twitter,
Instagram,
Snapchat,
LinkedIn,
Meetup e sabe lá quantos desses apps cada um acessa,
Né?
A gente carrega tudo isso conosco o tempo todo a bordo do smartphone,
Do tablet,
Do notebook,
De todos esses aparelhos juntos e ultimamente até em central multimídia de carro,
Central de connect de carro também tem isso,
Né?
A gente está o tempo todo em contato com esses apps.
E você já reparou,
Acredito que sim,
Como eles captam e como eles prendem a nossa atenção,
Né?
Olha,
O nosso relacionamento com todos esses dispositivos eletrônicos é um dos principais causadores,
Se não o maior,
De um fenômeno que a neurociência batizou de atenção parcial contínua.
Quer dizer,
Uma tensão que salta de uma coisa para outra em curtos intervalos de tempo,
Como se fosse uma bolinha de ping-pong.
Em geral,
As pessoas reconhecem que ficar conectado o tempo todo interrompe o nosso raciocínio às vezes,
Nos distrai de alguma tarefa,
Né?
Mas muitas acham que lidam bem com isso,
Que a vida de hoje é assim mesmo e que tudo bem olhar o celular rapidinho e voltar para o que estava fazendo,
Que não dá nada.
Só que não,
Viu?
Isso tem consequências,
Como você vai ver.
Olha,
Imagine que você está lendo um documento,
Analisando um documento ou estudando alguma coisa e estudar,
Analisar,
São funções do córtex pré-frontal,
Que é uma estrutura do cérebro que fica aqui na altura da nossa testa.
Os neurocientistas chamam o córtex pré-frontal de centro executivo do cérebro,
Porque ele está ligado à nossa capacidade de raciocínio,
Aprendizado,
Memorização,
Análise,
Tomada de decisão e autorregulação emocional.
O funcionamento dessa estrutura é o que mais consome energia no cérebro,
Porque ela aciona intensamente conexões neuronais que,
Por sua vez,
São fenômenos elétricos e químicos.
Então,
Por isso que estudar longos períodos,
Se concentrar por muito tempo em alguma coisa,
Cansa.
Então,
Enquanto você analisa o documento,
Imagine que milhões de neurônios estão se conectando para interpretar as informações que você está acessando.
E são conexões dinâmicas,
Elas formam redes que vão se reconfigurando conforme você avança na leitura.
Eis que,
De repente,
Você escuta uma notificação do celular e que difícil segurar a curiosidade,
Né?
Você desvia o seu foco de atenção,
Que estava naquele documento,
Para ler a notificação do celular.
E aí,
O que acontece com aquelas conexões neuronais que estavam presentes enquanto você fazia a sua análise?
Se desfazem.
Na verdade,
Cai tudo,
Porque cérebro não tem no break.
O seu pré-frontal,
Agora,
Cria conexões para entender a notificação do celular.
Você lê o que você lê,
Entende,
E aí volta para o documento e dá aquele branco rápido,
Tipo,
Onde é que eu estava mesmo?
O cérebro precisa realocar as informações do relatório para você lembrar do que estava fazendo,
E aí,
Então,
Continuar com a tarefa.
E assim segue o seu dia.
Uma hora é o e-mail que chega,
Outra é o WhatsApp,
Outra é SMS,
Outra é telefone,
E tem ainda as interrupções naturais de pessoas que vêm conversar com a gente,
De um momento em que você se distrai com alguma coisa que acontece,
E etc.
A cada interrupção dessas,
No seu dia de trabalho,
Olha quanta energia se vai.
Não é à toa que chega no final do dia e estamos,
Assim,
Mentalmente esgotados,
Parece que o cérebro virou gelatina.
E tem mais uma coisa,
Quando você interrompe um raciocínio e depois retoma,
Não necessariamente se refazem aquelas mesmas interrupções cerebrais de antes,
Você pode perder informação,
Você pode perder um insight que estava surgindo na sua mente quando a interrupção aconteceu,
E aí o insight se perde.
Isso já não aconteceu com você?
Você estava tendo uma ideia,
Acontece alguma coisa que chama sua atenção e depois,
Quando você volta para o mesmo assunto,
Não consegue ter a mesma ideia,
Ou esquece as ideias que estava tendo.
Isso é muito frustrante,
Né?
Então,
Temos aí já duas consequências do nosso pingue-pongue de atenção.
Perda da eficiência nas atividades intelectuais e grande consumo de energia.
Agora,
Vamos combinar,
Né?
É super lógico,
Faz todo sentido restringir as distrações do mundo digital e não olhar o celular quando ele notifica,
Não subir uma fotinho no Insta,
Não olhar o que as pessoas estão falando no Facebook,
Né?
Só que a gente não consegue,
Dá até ansiedade ficar sem olhar uma telinha por meia hora,
Ou menos do que isso.
E por que isso acontece?
Primeiro,
O cérebro é naturalmente receptivo a novidades,
Tá?
A nossa atenção é capturada por estímulos do ambiente e quando a gente dirige a nossa atenção para eles,
Nós somos recompensados com uma sensação de bem-estar,
Que a química cerebral produz.
Quanto mais somos neurologicamente recompensados por algo,
Mais a gente busca repetir a mesma experiência para continuar recebendo recompensa.
Esse é o mecanismo que está por trás do vício.
E o que acontece quando a gente passa algum tempo sem obter a recompensa em que estamos viciados?
Da fissura,
Da ansiedade.
Tá aí,
Porque é tão difícil resistir às tentações do mundo digital.
Eu vou ler para você a explicação daquele neurocientista canadense que eu já citei no número zero,
O Daniel Levitin.
Ele explica muito bem isso.
Vamos lá,
Abre aspas.
Atender o telefone,
Olhar alguma coisa na internet,
Checar um e-mail ou mandar um SMS no meio de uma tarefa qualquer,
São escapadas em busca de novos estímulos que acionam os mecanismos busca-novidade e busca-recompensa do cérebro,
Provocando uma descarga de hormônios e de ar.
Por isso as escapadas são tão irresistíveis,
Elas são como uma barra de chocolate zero caloria.
Fecha aspas.
E olha,
Nem precisa o celular nos interromper com uma notificação,
Né?
Nós mesmos nos interrompemos e checamos se não chegou nada.
Celular quieto dá ansiedade,
Parece que tem alguma coisa errada.
Ficar sem o aparelho ou sem poder acessar a internet então,
Pelo amor,
É uma tortura.
E tem mais,
Viu?
Conforme o nosso cérebro se habitua a mudar o foco de atenção a todo instante,
Nossa capacidade de manter o foco é prejudicada.
Fica difícil ler uma página inteira de um livro numa tacada só,
Sem desgrudar os olhos,
Sem se distrair com algum pensamento no meio da leitura.
Difícil e entediante também,
Né?
A mente fica inquieta e impaciente.
Existe um especialista nesse campo chamado Larry Rosen,
Que é doutor em psicologia da Universidade da Califórnia.
Ele estuda os efeitos da tecnologia sobre as nossas habilidades cognitivas e diz que a capacidade média de concentração hoje é de três a cinco minutos,
Sem que a gente se distraia com alguma coisa,
Ou externa ou interna,
Nesse caso com algum pensamento.
Já o Daniel Goldman,
No livro Foco,
Que citei no episódio anterior,
Ele conta histórias de pessoas que estão tomando remédio para TDAH,
Ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
E não é que essas pessoas tenham o distúrbio.
Na verdade,
Elas só querem melhorar a sua capacidade de se concentrar.
Tem advogado que toma remédio para conseguir ler contrato.
Tem estudante que simula sintomas de TDAH para conseguir o conceito do remédio e tomar para poder prestar mais atenção nas aulas.
Olha só para ilustrar,
Tá?
Num período de dez anos,
O consumo de ritalina,
Que é o nome desse remédio,
Aumentou quase 800% no Brasil.
Agora a pergunta que não quer calar.
Se a mente se esbalda nesse banquete de estímulos que o mundo exterior oferece,
Ela vai se conectar com o nosso mundo interior,
Hein?
Não,
Né?
E esse é um grande obstáculo à autoconsciência.
Moral da história,
Se você quer estar mais conectado com você mesmo,
Precisa limitar as distrações do mundo exterior.
Isso é importante.
E olha,
Você vai descobrir que pode não estar perdendo grande coisa,
Viu?
Antes de eu entrar nessa vibe de autoconsciência,
Eu era meio viciada em duas coisas.
Sites de notícias e Candy Crush.
Se eu tava trabalhando no computador e me cansava da tarefa,
E isso acontecia com uma certa frequência,
Eu espairecia a cabeça lendo notícias ou zapeando de uma matéria para outra.
E acabava perdendo um certo tempo nisso.
E aí qualquer brechinha também que pintava no meu dia,
Esperando meu filho sair de colégio,
Ou antes de ir dormir,
Ou tomando café da manhã,
Lá estava eu com Candy Crush.
Era uma obsessão.
Gente,
Aquele jogo tem tudo de viciante.
Tem o desafio,
E a nossa mente adora vencer desafios.
Ele te dá recompensas a cada instante,
Toda vez que você consegue liberar uma balinha,
E você é estimulada a continuar jogando para ganhar mais recompensas.
E como se isso não bastasse,
As peças do jogo são docinhos.
Às vezes me dava até vontade de comer doce.
Bom,
Felizmente essa fase da minha vida já passou.
Quando eu tomei consciência de que me perdia nas minhas distrações,
Comecei a rever uma série de coisas,
E uma das primeiras atitudes que eu tomei foi deletar o joguinho do celular.
Agora,
Se você acha que também está jogando muito ping pong com a sua atenção,
Eu tenho algumas sugestões para te dar.
Por exemplo,
Silenciar ou até mesmo remover as notificações das redes sociais do celular.
Deixa para ver todas as novidades de uma vez,
Num determinado momento do dia,
Que você destina conscientemente para isso.
Você vai ver que o mundo não acaba,
Viu?
E talvez se dê conta também de quanto espaço mental você libera para coisas mais importantes.
Veja o que você pode silenciar.
Talvez grupos de WhatsApp,
Alguns contatos também,
Notificações de e-mails pessoais.
Quando precisar se concentrar,
Trabalhe com computador offline.
O que mais distrai você?
Que outras atitudes você pode tomar para limitar suas distrações e focalizar atenção naquilo que importa a cada momento?
Esse é um primeiro passo importante,
Viu?
Para ampliar a autoconsciência.
No próximo episódio,
Vamos conversar sobre multitarefa,
O hábito de fazer várias coisas ao mesmo tempo,
Tão comum nessa vida corrida que a gente leva.
Que você esteja bem.
Um abraço!
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