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O Valor da Introspecção

by Ricardo Sasaki

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Meditação
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Este áudio se trata de um trecho de uma aula gravada em outubro de 2008, por isso pode conter ruídos de fundo. Na natureza muitas flores, talvez sua maioria, podem ser muito pequenas. São tão comuns e tão pequenas que nem mesmos lhes damos atenção. Apenas passamos por elas. Conseguiríamos nos despertar através delas? Por que a introspecção e a consciência são tão importantes na prática do caminho?

Transcrição

Este é o DharmaCast.

Meu nome é Ricardo Sasaki e aqui falamos sobre Budismo,

Meditação e Sabedoria Ancestral no Mundo Moderno.

Sejam bem-vindos.

Bem,

Hoje nós começamos uma série de quatro palestras e essas palestras vão tocar em quatro pontos da prática,

Da prática não estritamente de meditação,

Mas uma prática de maior consciência na vida.

Esses nossos quatro encontros no domingo vão tomar como base alguns ensinamentos de um querido professor meu,

Um professor americano-japonês,

Que eu tive a honra de conhecer e passar um tempo.

De forma que essas aulas vão ser um pouco tocando alguns desses temas,

Não é uma coisa exatamente organizada,

Mas mais no sentido de estimular alguma atenção,

Alguma consideração,

Alguma reflexão que nós possamos usar nas nossas vidas.

Então o tema de hoje será introspecção.

Nem sempre esse tema é muito frequente,

Porque dentro do meio budista,

Muitas vezes nós chegamos num centro de Dharma,

Na filosofia budista,

E é claro,

Isso é natural,

É natural que nós acabamos trazendo toda a nossa cultura própria.

Então nós aqui,

Enquanto ocidentais e brasileiros,

Nós também trazemos essa cultura ocidental e brasileira.

E a nossa cultura,

De um modo geral,

É muito pouco introspectiva.

Nós,

Desde crianças,

Somos educados que todo o seu sentido de identidade e de valor,

Ele depende da nossa realização exterior.

Então a nossa sociedade é uma sociedade que é dirigida à ação,

À atividade,

À realização.

E as próprias pessoas são educadas de que é isso que te dá a medida do seu valor.

Então introspecção é,

De um modo geral,

Uma técnica ou uma atitude que é muito pouco estimulada.

É claro que introspecção e a extroversão são também características de personalidades de diferentes pessoas.

Então,

Personalidades introspectivas,

Numa sociedade extrovertida e voltada para a ação,

Acabam sendo um pouco tomadas como estranhas.

Ou deprimidos,

Ou isolacionistas,

Ou coisas do tipo.

E porque essas pessoas vivem nessa sociedade,

Elas acabam também,

Não é só uma questão dos outros pensarem de você,

Mas você acaba também se sentindo dessa forma.

Se sentindo que tem alguma coisa de errado comigo,

Eu devia sair mais de noite,

Eu devia ter mais ambições,

Eu devia realizar mais,

Olha meu currículo como que é grande.

Então existe essa dupla inadequação,

Onde você sofre toda uma pressão externa e do outro lado você mesmo acaba assumindo,

Assimilando essas noções.

É claro que uma pessoa assim,

Numa sociedade introspectiva,

Muda completamente.

Então é interessante como que quando você muda de país,

Várias coisas podem mudar.

Então não é só a comida diferente,

A língua diferente,

A cultura diferente,

Mas até a sua própria auto-imagem,

Ela pode sofrer profundas modificações baseadas simplesmente nesse fato.

O Budismo,

Em termos gerais,

Ele favorece muito a introspecção.

Então,

Por que é importante a introspecção?

Isso que é importante a gente perceber.

Qual que é o valor,

Principalmente para nós,

Que vivemos numa sociedade voltada para fora,

Voltada para a ação.

Então qual é a importância da introspecção ou da contemplação?

Uma atitude mais contemplativa em relação à vida.

Uma das características imediatas da introspecção é que só através de uma atitude introspectiva que você pode realmente se conectar com a verdade.

Que verdade?

Não aquela verdade absoluta,

Inatingível.

Primeiro,

A verdade de nós mesmos.

A menos que nós sejamos capazes de olhar para nós mesmos,

Olhar para esse corpo,

Olhar para essa mente,

Olhar para sentimentos e sensações,

Você realmente não vai conhecer nada de você.

Então,

O primeiro valor dessa introspecção é que você esteja atento,

Que você tenha os espaços,

Que você tenha as oportunidades,

Que você cria as oportunidades para olhar para você mesmo,

Olhar para dentro.

Olhar também as suas motivações,

O que faz com que você haja,

Quais são as motivações por trás dos seus pensamentos,

Das suas palavras,

Das suas ações.

Uma segunda coisa que isso leva é uma atenção à verdade das coisas.

Por coisas aqui,

Se quer dizer situações,

Objetos,

Circunstâncias,

O espaço em torno.

Como que nós nos localizamos,

Como que nós nos colocamos nos diferentes espaços.

Como que nós nos apresentamos ou nos introduzimos nos diferentes espaços.

O modo como nós chegamos nos espaços novos e antigos revela muito do que nós achamos que somos,

Achamos que é a vida.

Achamos que somos,

Achamos que é a vida.

Revela muito o quão conectado com a vida ou o quão desconectado com a vida como um todo que nós estamos.

Então,

Essa consciência da nossa presença física,

A consciência do nosso papel nessa rede espacial é importante.

Então,

É uma questão de localização do corpo,

É uma questão de localização espacial.

Veja que isso também é uma coisa que raramente é falado na nossa cultura.

Qual é o nosso posicionamento,

O que nós fazemos com os vários membros que nós temos.

Como que nós andamos,

Como que nós sentamos,

Qual é a atitude diante dos espaços que a gente entra.

Um terceiro ponto é que a introspecção leva a uma atenção à verdade de outras vidas.

Nós não vivemos sozinhos,

Apesar de que muitas pessoas acham que vivem sozinhas.

E quando as pessoas começam a achar que elas vivem sozinhas,

Então,

Apesar disso existir uma sociedade extrovertida.

Mas quando as pessoas começam a achar que elas vivem sozinhas,

Então,

Toda essa ação,

Todas as suas decisões,

Elas passam a ser baseadas no que elas sentem,

No que elas querem sentir para elas.

E um mestre tailandês,

Ele tem uma frase bastante interessante,

Que é a forma como ele define o pensamento correto,

Ou o pensamento livre correto,

Que ele chama,

É ele falar que esse pensamento correto,

Ele é focado,

Ele é focado na felicidade do todo,

Ou na felicidade de todos,

E não na felicidade de mim.

E ele coloca o mim em letra maiúscula.

Então,

Nós podemos ter essas duas atitudes.

Nós podemos agir no mundo com o pensamento,

O que me faz feliz,

O que eu quero,

O que é certo para mim.

Ou nós podemos ter uma ação no mundo,

Um posicionamento no mundo,

Baseado no que é o melhor para todos,

Incluindo eu.

Isso causa uma mudança profunda de perspectiva.

Porque você começa a prestar mais atenção nos vários elos da sua rede social,

Da qual você é um dos elos.

Mas você não é um elemento isolado,

Mas você passa a integrar uma rede de contatos.

Então eu dou o exemplo,

Que eu creio que é uma experiência comum de todos nós aqui,

Que é lá pelas 11 horas da noite,

Lá pela meia noite,

Lá pela 1 da manhã,

Um carro para na frente do seu prédio,

Com o volume no máximo,

E ainda dá umas buzinadas,

Porque dá muito trabalho você sair do carro para tocar a campainha.

Então é mais fácil você dar várias buzinadas a uma hora da manhã,

Para que a pessoa lá de cima,

Do terceiro ou do quarto andar,

Venha.

Então,

Essa pessoa que faz isso,

Ela provavelmente tem até boas intenções.

Ela está curtindo com os amigos,

Uma música gostosa que ela gosta,

Porque não compartilhar a música gostosa com todas as pessoas de toda a rua.

Então a questão não é nem você analisar se ela tem uma boa intenção ou não,

Mas quando a gente começa a perceber o que é um pensamento relacionado,

Um pensamento consciente,

Você percebe que isso não é exatamente uma boa intenção.

E que quando você começa a pensar em termos mais globais,

Você não vive sozinho.

Então não é uma questão só de o que você gosta e o que você sente prazer,

Mas como todos podem gostar e sentir prazer e estarem bem uns com os outros.

Então esse valor da introspecção,

Ele chama a nossa atenção para a nossa cadeia social.

Ela chama a nossa atenção para cuidar de detalhes.

Como que você pode ser o menos disruptor possível.

Como que você pode afetar positivamente e não negativamente em toda aquela rede.

E isso envolve você atender a verdade das outras vidas.

Elas existem.

Então nós existimos nesse corpo,

Nessa mente,

As coisas,

Situações e espaços existem nesse momento.

E as outras vidas também existem.

E esse é um primeiro fruto dessa introspecção que é fundamental.

Quando nós percebemos essa importância de,

Em primeiro lugar,

Olhar para nós mesmos,

Uma das coisas que nós podemos perceber é que existem aspectos positivos e negativos.

Por exemplo,

Aquele rapaz do carro,

Ele talvez perceba que apesar da boa intenção de espalhar o heavy metal para a rua dele,

E que isso é um grande prazer e que todos os amigos que estão dentro do carro também estejam contentes,

Ele pode perceber que tem outras pessoas que não estão contentes de serem acordadas a uma da manhã com isso.

Então,

Ele começa a notar a pureza das intenções.

Ele começa a perceber que intenções elas vêm acompanhadas de outros fatores.

Fatores de atenção,

De consciência,

De cuidado,

De consideração pelo outro.

Então,

Ele se torna mais prudente.

E a prudência,

Que era uma das grandes virtudes do passado,

E que hoje,

Não sei,

Pessoas abaixo de 25 talvez nem saibam o que significa essa palavra,

Porque raramente você escuta sobre isso.

E a prudência era uma das grandes virtudes.

Então,

Prudência tem a ver com essas coisas.

Como que você entra no espaço,

Como que você se introduz,

Como que você se relaciona.

Imprudência,

Descaso,

Desconsideração,

Inconsciência,

São todas questões que são relacionadas.

Então,

Esse olhar para dentro,

Ele implica em ver esse bom,

Esse mal,

Esse positivo,

Negativo,

E,

Num primeiro momento,

Aceitar completamente.

E é daí que a importância dessa atitude contemplativa,

Porque implica que você aceite completamente todos os seus aspectos.

Se você começa com o julgamento,

Isso não é bom,

E o próximo passo vai ser isso,

Eu não tenho.

Então,

Nós começamos a esconder aquelas falsetas nossas que nós não gostamos,

Famoso lixo embaixo do tapete,

E a nossa casa é bem limpinha,

Bem bonitinha.

Então,

A atitude contemplativa é no sentido de você entrar na casa e,

Entrar na casa e levantar os tapetes.

E reconhecer que existe uma atitude que,

Durante alguns tempos,

Você tem feito no sentido de esconder os dois lados seus.

Agora,

Não pode parar por aí.

Não basta você reconhecer e estar totalmente aberto e aceitar o momento,

Que se transforma no.

.

.

Mas eu sou assim mesmo.

Me aceitem do jeito que eu sou,

Que é a famosa frase.

.

.

Fazer o quê?

Eu sou assim.

Fique comigo ou deixe-me.

Então,

Não basta você simplesmente levantar os tapetes,

E reconhecer que tem aspectos pouco favoráveis,

Pouco agradáveis à sua personalidade.

Não é uma questão de você,

Então,

Agora deixar a sua casa totalmente bagunçada em todos os aspectos e falar assim,

Só assim que eu sou.

O segundo momento da atitude contemplativa é,

Pouco a pouco,

Ir cuidando desses aspectos.

Quando nós fazemos isso,

Quando nós realmente somos capazes de desenvolver,

Aprender a introspecção em relação a nós mesmos,

Em relação às coisas,

Em relação às outras vidas,

Então,

Nesse momento,

Nós começamos a ter condição de viver uma vida mais plena.

E essa vida plena é,

No final das contas,

O objetivo desse caminho.

Existe um verso de um grande poeta japonês,

Chamado Bacho,

Acho que deve ser o mais famoso poeta japonês,

E ele era famoso por fazer vários haikais,

Eram versinhos em três linhas,

17 sílabas.

E tem um poema que ele fala o seguinte,

Olhem cuidadosamente,

A nazuna floresce ao longo da cerca.

A nazuna é uma flor,

E é uma florzinha tão pequenininha,

Tão pequenininha,

Que geralmente as pessoas passam e nem notam.

Muito,

Muito pequenininha.

Então,

Eu leio de novo,

Olhem cuidadosamente,

Ou olhem atentamente,

A nazuna floresce ao longo da cerca.

Então,

Nisso ele expressa,

Me parece,

Duas coisas fundamentais.

Primeiro,

A importância do detalhe,

A importância do olhar cuidadoso,

Do olhar meticuloso.

É quase que um olhar fotográfico.

E vocês podem notar que certas fotografias te trazem justamente isso.

Existem fotógrafos bons.

Existem fotógrafos que tiram fotos maravilhosas,

Que conseguem.

.

.

Que tem máquinas também potentíssimas,

E conseguem realmente captar a cena.

Mas existe outros tipos de fotógrafos que eles conseguem captar a cena.

Eles conseguem capturar o que não está na cena.

E esses são os fotógrafos realmente especiais.

Então,

Começa a observar certas fotografias,

Onde a questão não é o que está,

Mas é o que está além.

Então,

Isso me parece que é de fato o olhar artístico original.

Como que você pode captar a mazuna?

Captar aquela florzinha que ninguém viu.

E isso não significa você simplesmente botar uma super-objetiva,

Colocar um super-zoom,

E aí botar aquela florzinha ou aquele detalhe numa super-perspectiva.

Não.

É cuidar do ângulo.

Cuidar daquele espaço não dito,

Que aquele que olha para a fotografia,

Ele sente algo como se ele estivesse lá.

Naquele ângulo.

Então,

A primeira coisa que ele coloca nesse verso,

Me parece,

É essa atenção ao detalhe.

Como que nós podemos olhar para os detalhes da nossa vida.

Por que que nós não estamos olhando?

Onde estão as mazunas?

Onde estão as belezas escondidas,

Por exemplo?

E onde que estão também os muros que tapam a mazuna?

Uma outra coisa que esse verso me evoca,

Além desse cuidado,

Cuidar dos pequenos detalhes das coisas,

E que é uma coisa que esse professor incentiva,

Que é,

O Pachô ele conseguiu perceber que apesar dela ser pequena,

E apesar de todos acharem que aquilo é insignificante,

Ainda assim ela floresce ao longo da cerca.

E quando ela o faz,

Ela o faz 100%.

Ela não esconde,

Ela não obscurece,

Ela não retém nada.

Então ela não se importa com a sua aparente pequeneza.

E aí então ela floresce 100%.

E só o olhar de Pachô consegue perceber isso.

Só o olhar contemplativo,

Introspectivo,

Consegue perceber esse 100% de dedicação e admirar-se com isso.

Então,

Uma última vez,

Olhem cuidadosamente,

A mazuna floresce ao longo da cerca.

Para nós que também seguimos,

De um modo ou de outro,

Os ensinamentos do Buda,

Essa atenção contemplativa é imensamente importante,

Porque sem atenção não há ensinamentos.

Não adianta quantas palestras que vocês ouçam,

Quantos livros que vocês leem,

Sem atenção nós não conseguimos ouvir o Dharma.

Porque o Dharma de certa forma é igual aquela fotografia especial que eu mencionei.

Não é o que está lá na fotografia,

Mas é o que está além.

Só palavras e só objetos não nos ajudam.

Então sem atenção nós não entendemos nada,

Nós não entendemos nada sobre as nossas vidas,

Sem atenção nós não entendemos nada sobre o que é o cuidado com os outros,

O cuidado com a nossa rede,

O cuidado com a nossa mente,

O cuidado com o nosso corpo.

E isso é uma coisa que a introspecção traz.

A partir disso nós podemos nos perguntar qual é o caminho que eu sigo.

Qual é o caminho que eu sigo?

E isso não tem nada a ver com Budismo,

Com religião ou com filosofia.

Qual é o caminho que você segue na sua vida?

Quais são os princípios que você acredita?

Qual é a diferença entre os princípios que você acredita e os que você segue?

Qual é o tipo de caminho que você anda?

Existem diferenças naquilo que você fala e naquilo que você faz?

Você consegue ser sincero o suficiente,

Não apenas com o outro,

Mas principalmente com você?

Você consegue fazer isso?

Seu caminho é um caminho todo asfaltado ou feito de borracha,

Bastante artificial e sem vida?

Ou você anda num caminho de verdade?

Um caminho que tem pedras,

Grama,

Orvalho?

Qual é o caminho que você escolhe trilhar?

Quando nós voltamos ou aprendemos ou retomamos uma vida contemplativa,

Nós novamente temos essa oportunidade.

Oportunidade de encontrar ou reencontrar o ritmo da vida,

Andar passo a passo e ser o que somos.

Agora a gente senta um pouco,

Olhando para a respiração suavemente,

Olhos fechados,

Olhando para a nossa mente,

Para o nosso corpo,

A respiração acontecendo,

Olhando para o nosso corpo,

Olhando para a nossa mente,

Para o nosso corpo,

Olhando para a nossa mente,

Para o nosso corpo,

Conscientes da nossa respiração,

Conscientes de nós mesmos,

Conscientes do espaço que ocupamos,

Conscientes de que nós não sentamos sozinhos,

Mas sentamos com todos.

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Bernadete

February 12, 2024

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