Temos o Kyoku,
Instruções para o cozinheiro Zen,
Eihei Dogen.
Escrito na primavera do ano de 1237,
Pelo monge Dogen,
Que transmite a lei com a função superior do mosteiro Kanon Dori Kosho Shorinji.
Na verdade,
A função de cozinheiro concretiza a transmissão dos antigos.
Ela é,
Ao mesmo tempo,
O olho e a orelha,
A palavra e o sentido.
Porque não seria ela o centro do alvo,
O coração da prática?
Se sois dignos do vosso nome de chefe cozinheiro,
O vosso espírito e a vossa arte são idênticos.
No regulamento dos mosteiros,
Diz-se,
Ponde toda a vossa atenção na preparação das duas refeições diárias,
Cuidando tanto da qualidade como da quantidade.
Nunca nenhuma das quatro oferendas,
Comida,
Roupa,
Dormida,
Medicamentos,
Deve faltar.
O venerável Shakyamuni fez-nos dom de 20 anos da sua vida.
A nós,
Seus descendentes longínquos,
Para nos proteger.
Graças ao mérito deste benefício,
Desfrutamos da ajuda da sua indesgotável luz.
Sabei,
Portanto,
Servir a comunidade o melhor possível,
Nunca temer a pobreza.
Se o vosso espírito não conhecer limites,
O vosso quinhão de felicidade é indesgotável.
É com este mesmo espírito que um superior de um mosteiro deve servir a comunidade.
O essencial na arte de cozinhar é ter uma atitude de espírito profundamente sincera e respeitosa para com os produtos e tratá-los sem julgar a sua aparência,
Seja ela grosseira ou refinada.
Lembrai-vos da velha mulher que obteve méritos infinitos por ter de coração puro oferecido a Buda a água com que tinha lavado o seu arroz?
Pensai no rei Ashoka que,
No momento de morrer,
Ofereceu metade de uma manga a um mosteiro.
Ao plantar esta última raiz do bem,
Recebeu a profecia de que dela recolheria os frutos na sua próxima existência.
O laço que criamos com Buda não é em função da grandeza da oferenda,
Mas da autenticidade do nosso coração.
A nossa prática quer que sejamos verdadeiros em todos os actos da vida.
Um prato preparado com ricos ingredientes não é necessariamente superior e um cozido de simples legumes não é necessariamente inferior.
Ao colher ou ao preparar vulgares plantas selvagens,
Fazeio sinceramente com todo o vosso coração e tratai-as com os mesmos cuidados que teríeis para com os mais extraordinários produtos.
Não obstante receber inúmeros rios,
O vasto oceano tem um único sabor e o vasto oceano da natureza original não faz discriminação entre os sabores subtis de uma delicada iguaria e o gosto rude de um cozido de ervas selvagens.
De igual modo,
Quando fazeis crescer o germe da via e alimentais o embrião sagrado,
Manjares refinados ou vulgares têm um só sabor.
Há um velho ditado que diz,
A boca de um monge é como um forno.
Lembrai-vos de que uma erva selvagem pode alimentar o santo embrião e dar nascimento ao germe da via.
Não a rejeiteis com desprezo e não a trateis com viandade.
Um instrutor e guia dos deuses e dos homens deve saber tirar partido de um vulgar legume.
Por outro lado,
Não julgueis as qualidades e os defeitos dos membros da comunidade e não leveis em conta a sua antiguidade ou idade.
Uma vez que ignorais o vosso próprio futuro,
Como podeis adivinhar o dos outros?
Se medirdes as faltas dos outros,
Tendo por bitola as vossas próprias faltas,
Como podeis não cometer erros?
Os homens diferem em idade e em faculdades,
Mas na via são todos iguais.
Além disso,
Pode acontecer que aquele que agiu mal ontem haja bem hoje.
Quem é santo?
Quem é um homem vulgar?
Ninguém sabe.
Está dito no regulamento dos mosteiros.
Um monge não é nem santo nem homem vulgar.
Ele abarca as dez direções.
Se estiveres firmemente resolvidos a não permanecer na dualidade do bem e do mal,
Entrareis diretamente na via da incomparável sabedoria do despertar.
Mas,
Se escorregais num ou no outro,
Não vereis a via,
Ainda que ela esteja diante de vós.
É aplicando-nos em não discriminar que atingimos os ossos e a medula dos antigos mestres.
Vós,
Meus irmãos,
Que ireis preencher a função de cozinhar no futuro,
Realizareis também o despertar ao fazer o mesmo esforço.
Considerando que o nosso grande antepassado,
Haichang Huaihei,
Vos deixou uma linha de referências para vos guiar na via,
Como podereis deixar de as levar em conta?
No meu regresso do Japão,
Encostei o meu bordão de peregrino durante dois a três anos em Keninji.
Efetivamente,
Havia um cozinheiro em funções neste mosteiro,
Mas o titular deste cargo não tinha nada a ver com um autêntico cozinheiro digno desse nome.
Ele até ignorava que cozinhar era uma atividade de Buda.
Não sabendo discernir a via,
Como é que ele pôde dedicar-se à prática?
É lamentável que eu nunca tenha tido a oportunidade de ver um verdadeiro cozinheiro É completamente deplorável desperdiçar assim o seu tempo e reduzir a migalhas a própria prática,
Ao atamancá-la sem consideração.
Observei este monge no exercício da sua função.
Ele não cuidava pessoalmente da preparação das duas refeições diárias e,
Para tudo,
Se dirigia ao trabalho.
Ele dava as ordens,
Quer o assunto fosse importante,
Quer não,
Mas jamais verificava a execução do trabalho,
Como se fosse tão vergonhoso ou inconveniente fazê-lo,
Como olhar para a mulher do vizinho.
Passava o seu tempo no quarto e continuava a trabalhar.
Não era tão inconveniente fazê-lo como olhar para a mulher do vizinho.
Passava o seu tempo no quarto,
A conversar com amigos,
A ler ou a cantar sutras.
Os dias e os meses passavam sem que ele nunca se aproximasse de um tacho.
Nem é preciso dizer que não fazia parte das suas preocupações para prover os víveres necessários e ainda menos planear uma emenda.
Como poderia ele saber que estas atividades são em si mesmas a prática da via?
Evidentemente,
Nunca lhe tinha vindo ao espírito,
Nem sequer em sonhos,
Por estrenar-se nove vezes antes de mandar levar os pratos para o refeitório.
Sendo ele próprio ignorante destas coisas,
Como poderia estar em posição de formar jovens alunos?
Esta situação deplorável entristecia-me profundamente.
Eis como se comporta um homem que não tem o espírito da via por não ter tido a sorte de conhecer um verdadeiro mestre.
Ele entra numa montanha de pedras preciosas e regressa à casa de mãos vazias.
Penetra num oceano de gemas e parte sem adormes.
Se não tendes ainda o espírito de despertar,
É importante que saibais que compreendereis a via ao praticar com um mestre que tenha em si próprio realizado a sua verdadeira natureza original.
No entanto,
Se ainda não havéis encontrado esta pessoa,
Enquanto existem em vós uma profunda determinação em produzir o espírito de despertar e se colocardes todo o vosso coração nesta tarefa,
Realizareis também a via.
É claro,
Se nenhuma nem outra destas condições forem preenchidas,
Não espereis qualquer benefício.
Em todos os mosteiros onde permaneci,
Na grande China dos Song,
Observei que os administradores e os seus adjuntos eram nomeados para exercerem a sua função durante um ano.
Todavia,
Em todos os momentos e circunstâncias,
O seu comportamento manifestava as três linhas de conduta exigidas a um superior de mosteiro.
Por um lado,
Eles trabalhavam para o bem de outrem,
Obtendo assim um duplo proveito,
Para si próprios e para os demais.
Por outro lado,
Elevavam o prestígio do mosteiro pela nobreza do seu espírito,
À semelhança dos antigos.
Enfim,
Competiam com os grandes mestres do passado,
Seguindo o seu raste e exemplo.
A propósito disto,
Gostaria que compreendesseis bem que aquele que não presta atenção aos outros é um idiota e que aquele que considera os outros como a si próprio é um sábio.
No passado,
Um mestre escreveu esta estrofe.
Haveis alcançado dois terços da vossa vida,
Sem nunca ter feito resplandecer a mínima parcela da vossa alma.
Insaciáveis,
Devorais a vossa vida correndo atrás de futilidades.
Que posso fazer por vós se nem sequer voltais a cabeça quando vos chamo?
Deveis saber que sereis levados pelas vossas emoções se não adardes para este amigo de bem.
Como será deplorável se fordes como esse estúpido filho pródigo que traz em si o tesouro legado por seu pai e que o põe de lado como se se tratasse de um monte de lixo?
Não deve acontecer o mesmo convosco.
Todos os homens da via que no passado exerceram a função de cozinheiro mostraram que as suas atividades e os seus valores espirituais estavam em consonância.
Kyuei-chan,
Lingyu,
Issan,
Reiu,
Atingiu o despertar na época em que era cozinheiro.
Foi também o cozinheiro Tung-chan,
Shou-chu,
Dozan,
Shu-shu,
Quem,
Ao pesar o sésamo,
Respondeu a um monge que lhe fazia perguntas sobre Buda.
O Buda?
Três libras de sésamo.
Existirá alguma coisa mais preciosa do que a realização da via?
Haverá momento maior que o do despertar?
Para aquele que aspira ardemente à realização da via e que se dedica à prática,
Um punhado de areia oferecida transforma-se num tesouro,
Numa imagem de Buda cuja escultura está em processo,
Num objeto de veneração.
A história deixou-nos numerosas experiências deste género.
Certamente,
Estas ações são meritórias,
Mas com mais benéficas não são ainda as atividades de um cozinheiro do que o foram as dos nossos grandes predecessores.
Se cumpris a vossa tarefa com a exatidão e o espírito puro que eles nos transmitiram,
Porque não houveis vós de igualar a sua perfeição na via?