
#42: Vacinando a Alma - Desaprendendo
Neste episódio falamos sobre a origem da palavra Empatia, sobre os planos da nossa Alma, a qualidade das nossas perguntas e o quanto boa parte do conhecimento hoje foca em desaprender tudo aquilo que já sabemos. Sobre os Elefantes Na Neblina: Três amigos conversam. Um mundo em constante mutação. Buscando jogar alguma luz sobre assuntos grandes, muitas vezes incômodos. Conversando sobre o que é ser um humano em nossos curiosos e complexos tempos.
Transcrição
Amigos que gostam de conversar em tempos interessantes,
Incertos,
Implacáveis.
Com o futuro suspenso e o passado cada dia mais distante,
Estamos aqui estacionados na condição humana,
Na tentativa de fazer uma nova vida funcionar.
Cada dia é um passeio na neblina,
E os elefantes estão soltos.
Não usamos nomes,
Porque somos nós e somos ninguém,
O que importa é a conversa e a vontade de gerar alguma luz.
Mas você,
Aquela foto sua voando praticamente,
É muito impressionante,
Não é?
Não era eu,
Eu deixei esse disclaimer só para vocês,
Era o cara que estava guiando a gente.
Na verdade,
Aquilo é você do futuro.
O kite é razoavelmente fácil você voar,
O problema é você aterrissar,
Então com muito.
.
.
Machuca muito o joelho quando você pousa?
Não,
Porque você meio que faz um paraglider ali,
É bem,
Assim,
Se você pega a manha é bem suave.
Agora,
Quando você não pega a manha,
Você pode despencar de 10 metros,
Não é?
Agora,
Me conta uma coisa,
Snow,
Essa história do kite está absurdamente na moda,
E eu tenho sempre a impressão de que cada modalidade de esporte,
Pelo menos cada época tem uma modalidade de esporte que melhora de fim.
Você acha que tem alguma razão que você consegue pensar em por que o kite agora é o grande esporte do momento,
Entre todas as pessoas?
Eu tenho algumas hipóteses na minha cabeça.
A primeira é porque demorou,
Porque realmente o kite é um dos esportes mais legais de fazer,
E está hypado no Brasil,
Porque o Brasil,
A gente tem essa costa inteira que vai do Rio Grande do Norte até o Piauí,
Que é o melhor lugar do mundo para fazer,
E mais barato.
Então,
Naturalmente,
A gente já deveria,
Isso já deveria ter ficado um esporte que a gente faz,
Não é?
Eu acho que tem a questão,
Está mais fácil de aprender,
Os kites mais novos são mais tecnológicos,
Então está muito mais fácil de aprender,
A gente tem o Havaí dos ventos,
E eu acho que o que está acontecendo é que o pessoal está descobrindo mais do que qualquer coisa.
Essa é a minha.
.
.
Porque me chama a atenção que não é que atrai necessariamente um perfil só de pessoas,
As mais diferentes pessoas estão começando a se sentir atraídas por essa ideia de sair meio que voando com o vento e com as ondas,
E eu não sei,
Eu fico até pensando se não é a arte de se deixar levar que está sendo expressa aí nessa história do kite,
De uma maneira mais extrema ainda do que no surf,
Como se as pessoas estivessem sentindo a necessidade do let go,
Vivendo isso através do kite,
Não sei se é muita viagem da minha parte.
Não,
Eu acho que você está totalmente certo,
Eu acho que é uma sensação de liberdade absurda com um silêncio absoluto,
Só você e o vento,
Eventualmente as ondas,
E eu acho que é isso,
E é uma meditação,
Você tem que ter uma concentração tão profunda para estar lá e não errar,
Porque eu acho que um erro te custa caro,
Você perde a prancha,
Dependendo de como você cair,
Você pode engolir bastante água,
Então é uma meditação profunda assim,
Então numa velocidade e aquela sensação de liberdade,
E geralmente é muito linda,
Porque você está em um lugar paradisíaco,
As pipas são muito bonitas,
Tem cores lindas e aquilo tudo no ar,
Então eu acho que sim.
Parece mesmo uma metáfora das coisas que a gente conversa,
Porque se você para para pensar,
Exige um grau de concentração enorme,
Você ter o equilíbrio que te permite fazer o let go,
E no momento que você sai dessa concentração meditativa,
Que te permite deixar as coisas fluírem através de você,
Se você sai desse lugar,
A primeira coisa que você faz é splash,
Que é exatamente o que acontece na vida,
Gente.
E engole os litros d'água.
Engole os litros d'água e faz um splash na própria vida,
E é isso,
E são as emoções,
Eu acho que a água são as emoções,
Então é bem aquilo,
A gente está fluindo em alta velocidade,
Mas num lugar de equilíbrio em que a gente está se sentindo bem,
Sem estar nem sequer percebendo as emoções direito,
Porque elas passam de tão rápido,
E de repente uma hora ali você perde o equilíbrio,
E você é engolido por alguma emoção muito intensa.
Perfeito,
Eu nunca tinha pensado isso dessa forma,
Mas realmente,
Acho que eu e você a gente já conversou muito sobre o quanto é uma meditação e tal,
Mas uma metáfora da vida,
Do let go,
Eu nunca tinha pensado,
E é engraçado,
Porque tem mais uma dimensão ainda que tem uma certa dificuldade para você chegar lá e aprender a fazer também,
Você tem que passar por um período de resiliência grande,
De engolir muita água,
De ser muito arrastado para você conseguir aprender também.
Realmente me chama a atenção que eu acho que a metáfora é boa,
Porque no começo tudo é sobre a água,
E quanto mais craque você fica,
Passa a ser mais sobre o vento,
Então isso que eu acho que é uma metáfora muito boa,
A respeito daquelas coisas que a gente está sempre conversando,
Essa passagem das águas para os ventos,
Se isso não é um certo exercício de evolução espiritual,
Então eu não sei o que que é,
Né?
E eu vou falar uma coisa para vocês,
Toda vez que eu vou lá para o Norte,
Enfim,
Fico e passo um tempo,
A quantidade de pessoas interessantes que eu conheço do mundo inteiro que vem para o Brasil fazer kite,
Inclusive muitos brasileiros que estão lá também,
Eu sempre me impressiono,
De alguma forma,
Consciente ou inconsciente,
Tem muitas pessoas pensando nessa metáfora,
É impressionante a quantidade de pessoas profundas e interessantes que procuram o kite,
Isso é muito legal,
Realmente é uma coisa que você vê que a boa parte das pessoas que estão lá,
Que estão fazendo esporte,
Que viajam para fazer isso,
Elas têm uma outra vibração,
Isso é muito legal.
Interessante,
Quando eu era criança,
Uma das coisas que me marcava nas tardes,
Era tardes de domingo eu saia para passear de carro,
Eu ficava no banco de trás olhando pela janela,
Tinha uma tradição na minha família que era você passeava de carro até se perder,
Isso é uma coisa que meu pai gostava de fazer,
Ele botava toda a família no carro e a gente saia na tarde de domingo para passear,
E naquela época São Paulo não era perigosa,
Então já tinha as periferias e tudo mais,
Mas era relativamente tranquilo,
Então ele botava a família no carro e ele entrava,
Saia entrando,
Zona norte,
Zona leste,
E a brincadeira é,
A gente tem que se perder,
Obviamente não tinha Waze,
Não era o caso de usar o mapa,
Então era se perder,
Era muito gostoso fazer isso,
Uma das melhores lembranças de infância que eu tenho,
E uma coisa que eu sempre me lembro nas tardes era a quantidade de pipas que tinha no céu,
São Paulo no domingo à tarde era repleto de pipas,
E era se a garotada que não tinha muito recurso fazia sua própria pipa,
Dois segundos com aquele material muito simples,
Mas eles realmente ficavam horas e horas levando as pipas lá no alto e decoravam as pipas,
E você tinha algumas pipas que eram lindas com uns rabos compridos e tudo mais,
Eram muitas pipas,
E sempre impressionou muito.
É isso,
Que eu não vejo mais,
É verdade,
Eu cheguei a empinar pipa também,
E a gente vai perder nessa relação,
E você falando essa história de se perder,
É impressionante como a gente não consegue se perder,
A gente só se perde dentro da gente,
Né,
Agora.
.
.
E aí vem o ex-interno.
O ex-interno não chegou,
Mas é impressionante como é isso,
Como se perder virou algo perigoso,
E a gente não tem mais uma beleza poética em se perder,
Virou uma coisa meio perigosa.
A gente só pode se perder quando perde o sinal agora,
Né?
É,
É isso.
Eu estava pensando justamente outro dia quanto tempo eu usei mapa,
E como era tão dependente de mapa para chegar aos lugares,
Ou aquele guia quatro rodas que ficava no porta-malas,
Se achar a rua e tal.
.
.
Sim,
Aquele grossão,
Estava todo com as orelhas dobradas,
Era maravilhoso aquilo,
Aquilo era a bíblia das férias.
Impressionante como isso desapareceu,
Né?
Esse é o tipo de coisa que a gente não vê mais mesmo,
Né?
Impressionante como,
Assim,
Ninguém,
Nem por as pessoas que gostam das coisas vintage tem fetiche por ter um mapa,
Né?
Eu vou contar uma coisa para vocês,
Eu talvez por ter tido bastante tempo nessa outra época,
Eu consigo dizer que eu não suporto o GPS oral,
Que fica só falando para você.
Eu sinto uma necessidade profunda de ter uma visibilidade do mapa,
De onde eu vou lá na frente,
Em que direção eu estou indo,
Se eu estou indo para o noroeste,
Se estou indo para o nordeste,
Se lá na frente eu vou ter que fazer uma curva,
Eu tenho uma necessidade de ter esse visual do meu trajeto.
Se tem uma coisa que para mim é insuportável,
Me parece uma tutela que me incomoda,
É simplesmente não ter isso e ter apenas,
Agora,
Daqui a 300 metros,
Vire à esquerda,
Agora,
Daqui a não sei o quê,
Vire à direita,
Na rotatória pegue a segunda entrada.
Parece que eu nunca sei o que vai acontecer e eu não preciso saber,
Como se fosse uma criança sendo tutelada por aquela voz pastosa,
Eletrônica,
Que me incomoda muito.
Me parece um títis da autonomia,
Não sei se é a coisa.
.
.
Mas é engraçado,
Porque eu estava pensando nisso e também me veio essa,
Talvez,
Será que a gente já não perdeu essa autonomia geográfica mesmo?
Essa ideia de ter esses aplicativos,
Esses GPS há tanto tempo,
Eu vejo as gerações mais novas que não têm contato com se localizar,
Vocês têm essa impressão também?
De que essa habilidade.
.
.
Até nas regiões mais,
Nas áreas mais urbanas,
Como é que você faz o caminho sozinho de casa,
Mas acho que vem muito mais de você estar sempre ligado em alguma forma de desatenção,
Que seja um telefone,
Uma mídia social,
Alguma coisa nos caminhos que você está percorrendo,
Você não tem mais a memória visual do que você está correndo.
Então,
Ninguém mais sabe como chegou de um lugar a outro,
É como se você fosse teleteleportado.
É,
E acho que as pessoas estão perdendo essa capacidade de localização geográfica,
De se entender,
De entender onde está.
Acho que não é só na questão geográfica,
Mas tenho a impressão de que as pessoas não têm a menor ideia não só de onde elas estão,
Mas do que está acontecendo,
Onde elas estão.
Mas você sabe que isso é uma verdade,
Porque hoje você vê que as pessoas não sabem mais como reagir às notícias,
Elas não sabem.
.
.
Você vê muito isso no mercado financeiro,
Porque o que normalmente seria uma notícia ruim,
Você vê as pessoas assumindo,
De certa forma,
Alguma verdade ali e seguindo um caminho para mudar de ideia dois dias depois,
Como dentro da mais pura teoria das massas.
Pelo alguém liderar um caminho,
Ninguém mais sabe interpretar,
Tem uma ideia própria,
Pode ser atropelado pelo tempo.
Sim,
Não há nenhuma tendência clara que você possa ter de consenso em intervalos maiores de tempo,
Isso é muito impressionante.
Eu estava comentando isso agora há pouco,
Eu estava terminando uma conversa e eu estava dizendo assim,
E o mais notável é que eu ainda posso,
Daqui a uns 3,
4 meses,
Olhar para trás e dizer,
Este foi um dos melhores semestres da minha vida.
Ao mesmo tempo,
Que é perfeitamente possível que nesse mesmo intervalo de tempo eu olhe e diga,
Que período difícil.
Então,
Essa dificuldade de você localizar realmente para que lado as coisas estão indo,
Pelo menos no que diz respeito a você,
Eu acho que é muito impressionante mesmo.
É uma característica do nosso tempo muito marcante.
Mas aí eu te pergunto uma coisa,
Será que a gente não teve sempre a opção de dar o significado que a gente tivesse,
Quisesse,
A qualquer coisa que acontecesse na nossa vida?
Só agora esse negócio tem ficado ainda mais notório,
A teoria do copo meio cheio,
Meio vazio,
Sempre teve presente e a gente,
Com todos os viés que a gente sempre teve,
Procurou alguém que explicasse para a gente o que estava acontecendo com a gente.
Mas a possibilidade de dar o significado que a gente quisesse sempre teve ali igual,
Ou não?
Eu tenho a impressão de que isso,
Obviamente,
Sempre foi verdade,
Mas existem momentos onde a volatilidade é tão grande que,
Independente da tua interpretação,
Parece que os dados são jogados várias vezes e você tira um número bom ou um número ruim numa sequência quase incontrolável,
Como se a vida virasse um cassino,
Mais do que qualquer outra coisa.
Agora mesmo você estava comentando das pessoas que estão vivendo essas fatalidades com o Covid e,
Um ano atrás,
Nós falávamos desse assunto e nós,
Como todo mundo,
Buscávamos algum tipo de regularidade e de previsibilidade.
Então,
Começava sempre aquela tentativa de racionalizar.
Há as pessoas mais velhas,
Há,
Sim,
Claro,
As pessoas com comorbidade,
Depois,
Sim,
Há as pessoas que têm sobrepeso,
Depois,
Há,
Sim,
Os homens,
Sim,
Os torcedores daquele time.
E a gente vai chegando num ponto,
Um ano depois,
Em que parece que a loteria se revelou definitiva.
É uma loteria,
Qualquer um pode ser a próxima vítima e,
Quando nós estamos num cenário assim tão caótico,
É um daqueles momentos em que ou você se torna alguém profundamente crente,
Pio e começa a sacrificar para os deuses,
Ou você fica com um olhar um pouco atordoado assim,
Sem saber em que direção andar,
Me parece.
Você não concorda?
Eu acho que sim.
Eu até,
Nessa final da semana passada que eu tive em casa,
Muito próximo de mim,
Uma confluência onde,
Por acaso,
Quase todos os membros da família foram hospitalizados por razões diferentes,
E eu tive a oportunidade de enxergar,
Olhar para isso e até pesquisar dentro de mim qual era a interpretação que eu estava dando aqui.
Se era uma onda que assolava a minha residência,
Energias ruins que tomavam o ambiente,
Ou se basicamente era só uma coincidência que,
Frente a tudo que vinha acontecendo aqui,
Acho que no campo da saúde que estive vivendo,
Foi até muito light para todo mundo.
Mas aí,
Por curiosidade,
Não sei se é essa palavra,
Mas estava aqui folhando o meu Kindle,
Porque eu até estava,
Inclusive,
No hospital,
E estava com um tempinho livre ali,
Comecei a folhar o Kindle e acabei voltando naquele livro que acho que já até falei para vocês umas outras vezes dele,
E que eu vi que ele não estava completo,
Que eu resolvi ler um pouquinho mais dele,
Que é o Your Soul's Plan,
Que é o Plano da Alma,
Que é desse cara chamado Robert Schwartz,
E eu acho que eu falei para ele,
Já comentou dele outras vezes,
Mas eu acho que eu entrei um pouco mais profundamente,
Porque se você acreditar de alguma forma que existe realmente esse plano do que cada um veio viver,
De que forma e como é montado esse teatro,
Quem é que tem que fazer que personagem,
O que esse grupo de almas vem evoluir e como é a relação kármica entre os processos,
Isso desmistifica qualquer outra coisa que você pode ter na cabeça,
Se você realmente,
De alguma forma,
Acreditar em alguma coisa daí,
Mas as histórias são interessantíssimas,
E eu acho que vale a pena quem tiver paciência e dar uma olhadinha,
Porque,
Por exemplo,
Tem um conceito que eu tinha muito na cabeça das pessoas que você olhava com alguma fatalidade por terem filhos com algumas necessidades,
Terem alguns filhos com algumas necessidades de ajuda,
Alguma doença de nascenso,
Alguma coisa assim,
A explicação desses,
Que é feita de uma maneira muito interessante,
Um grupo de médiums que acompanha depois cada um desses casos e consegue localizar os pontos diferentes de onde foi feito esse planejamento e como cada um conversou sobre isso,
Mas qual é a ideia que tem por trás de uma encarnação com essas características,
Ou de uma encarnação que você vê como uma minoria que vem expressar algum tipo de coisa que você combateu,
Que você tem muita necessidade de desenvolver,
Seja autoestima,
Autoconfiança,
Amor próprio e coisas assim,
E é muito interessante ver se isso realmente pudesse ser mais estudado,
Mais comprovado de alguma forma,
É interessantíssimo para você ressignificar tudo que acontece na sua vida.
Aproveito para me desculpar por estar um pouco fanho ainda,
Resultante dessa pequena cirurgia.
Absolutamente normal,
Isso faz parte do teu soul plan,
De alguma forma.
Eu acho muito bacana essa ideia,
Explorar essa ideia de várias maneiras,
E me parece que o jeito mais divertido de fazer essa exploração é se você brincar um pouco,
Ou seja,
Você imaginar para alguma coisa que te incomoda em relação a alguma pessoa,
Você imaginar como se você fosse uma espécie de literato,
Um escritor que tivesse tido,
Sei lá,
Fizesse uma residência literária com Chico Xavier,
E você imaginar,
Bom,
Se tivesse sido um plano feito entre almas eternas,
Que plano seria esse?
O que a gente estaria aqui exercitando,
Aprendendo,
Sendo convidados a explorar?
Eu tenho a nítida sensação de que no momento que a gente faz isso,
A vida começa a responder.
Isso que é a coisa mais importante.
Tem algo que eu aprendi,
É que o aspecto talvez mais estratégico da vida é a qualidade das perguntas que você é capaz de fazer.
Se você faz perguntas interessantes,
As respostas interessantes se manifestarão.
Se você tiver que fazer algum tipo de investimento,
Faça um investimento cognitivo,
Intelectual em desenvolver perguntas.
E isso significa o quê?
Em qualquer situação da sua vida,
Você se perguntar,
Mas como seria se ao invés de fazer assim,
Eu fizesse de uma outra maneira?
Como seria se essa pessoa tivesse respondido outras coisas?
Como seria a razão,
Qual seria a razão pela qual ela se comportou daquela maneira?
E assim por diante,
Você vai fazendo perguntas e você tenta fazer as perguntas as mais interessantes que você puder.
As primeiras perguntas são bobas,
Mas à medida que você for desenvolvendo essa habilidade,
Você vai ver que você vai ter perguntas fascinantes.
E quando você tem perguntas fascinantes,
A vida começa a se descortinar para você de uma outra maneira.
Eu não tenho nenhuma dúvida de que o aspecto mais importante que você consegue desenvolver com isso é o da curiosidade,
Para começo de conversa.
Mas,
Sobretudo,
A vida vira uma espécie de livro e isso muda,
Muda demais.
Quando a vida é um livro que você fica tentando ler,
Você começa a tratar tudo como se fosse uma certa pista.
Muitos criticam isso,
Dizendo,
Ah,
Mas isso é uma espécie de misticismo ou crendice.
Não,
Eu acho que se você faz isso como se fosse um jogo,
Você,
Na verdade,
Está voltando a ser criança.
A criança,
Ela naturalmente,
Quando ela não sabe alguma coisa,
O que ela faz,
Ela imagina.
E a imaginação nada mais é do que você inventar uma pergunta e inventar uma resposta para essa pergunta.
E isso,
Depois que a gente fica supostamente crescido,
É algo que se perde por um engano,
Porque nós não sabemos muito mais depois que nós crescemos.
Nós devíamos continuar fazendo a mesma coisa,
Inventando as perguntas e inventando as respostas para essas perguntas.
A vida ficava muito mais rica e colorida assim,
Eu acho.
Estava aqui pensando que,
No fim,
Tanto desse olhar,
E eu concordo com você,
De que a vida ficaria muito mais rica se a gente trata ela com esse olhar um pouco mais de criança,
Como um livro das perguntas e das respostas que a gente se dá,
Quanto à ideia do Souls Plan.
Uma questão de qual é a lente que a gente escolhe olhar a vida,
Não é?
No sentido de.
.
.
É a escolha de uma lente um pouco mais leve,
Um pouco mais apropriada ao que você é,
Mais conectada com a sua história,
Mais conectada.
.
.
O que eu estou querendo dizer?
É uma lente mais leve,
Não é a lente da.
.
.
Isso aqui é uma guerra,
Isso aqui vai virar.
.
.
A vida é uma guerra,
Salve-se quem puder,
É você encarar isso aqui como uma brincadeira,
Como um jogo.
.
.
Além do kitesurf,
Como estávamos falando.
Além do kitesurfing.
Isso,
Ou como um teatro.
Eu acho que você,
Por esse caminho,
Sai daqueles maiores problemas que a gente encontra,
Que é o comparativo,
Que é o tal do peer pressure,
Ou seja,
A pressão dos seus companheiros para tentar sempre entender por que a realidade do outro,
Embora você conheça muito pouca delas,
Em profundidade,
Pode ser melhor ou pior que a sua.
Na verdade,
O teu teatro,
Em última instância,
Você escreveu todo o enredo e está vivendo ali,
Que é a única diferença que você não se lembra de ter escrito.
E a única forma de você lembrar,
Talvez,
É pensar que as pistas estão todas ali mesmo,
Que aquele caça-tesouro é.
.
.
Tudo que está se manifestando não é o que parece.
Tem alguma coisa muito específica para você ali no teu processo,
Senão não estava ali,
Porque,
A partir do momento que você compreender,
Possivelmente aquilo não vai mais precisar acontecer.
Eu sinto muito isso,
Acho que é a mudança de fase no jogo.
O Anthony de Mello,
Que fala muito,
Depois de falar o livro inteiro dele,
Aquele livro,
O Awareness,
Que eu acho que a tradução deve ser,
É consciência,
Mas,
Enfim,
Ele diz no final,
Na dúvida,
Você tem que sempre tentar compreender,
Entender o que é aquilo ali.
Nunca é o óbvio da manifestação,
É muito mais o que aquele processo está fazendo no seu caminho.
Não precisa ficar interpretando a vida inteira,
Mas eu acho que quando as coisas que te saltam mais estão ali realmente para um processo muito específico e te levar para um outro lugar na tua evolução.
Eu acho interessante você,
Nesse momento,
Quando você estava falando,
Você sentiu necessidade de usar a palavra em inglês.
Às vezes as pessoas pensam que a gente está usando uma outra língua,
Ou porque a gente só lê em inglês,
Ou quase todo mundo está só lendo em inglês,
Ou por certo esnobismo,
Mas não é isso.
É que as palavras,
Às vezes,
Têm uma energia diferente.
Você,
Quando usou o understanding,
Você usou de um jeito muito legal,
Go.
Nem sei se você tinha muita consciência disso,
Mas as pessoas perdem,
A energia do understanding é muito diferente da energia do compreender.
Porque o compreender,
Você vai ver na etimologia,
É literalmente você aferrar em torno.
E nas línguas anglo-germânicas,
O compreender tem a ver com você ir para baixo daquilo que está ali posto.
Então,
O understanding é você pegar embaixo.
O verstehen também tem a ver com você pegar o avesso.
Então,
Na verdade,
O compreender nas línguas anglo-germânicas é ir para a raiz.
É você aferrar a raiz e não o caule.
Nas línguas latinas,
Parece que você está pegando o caule da árvore.
Nas línguas anglo-germânicas,
Parece que você está pegando a raiz.
Então,
Isso é uma brincadeira,
É parte do jogo que eu acho que também é muito interessante.
Então,
São maneiras diferentes de jogar,
Você vai em torno e vê de todos os ângulos,
Ou você vai por baixo e você vê aquilo que subjaz a experiência tida.
Mas como um jogo,
Esse eu acho que é um ponto muito importante.
Para mim,
Isso é uma coisa que eu gosto muito de frisar.
Nós estamos o tempo todo falando dos caminhos que nos parecem os melhores para a evolução,
Os caminhos que psicologicamente fazem mais sentido.
Falamos de meditação,
Equilíbrio,
Transcendência.
E muitas vezes dá a impressão de que o ponto todo é,
Nós vamos fazer isso,
Vamos investir nisso,
Porque é melhor para nós,
Porque é o certo.
E a verdade é que quando a gente vai nessa direção de isso é o bom,
Isso é o certo,
Normalmente a gente cria uma pressão,
Um esforço,
Que acaba fazendo com que o próprio processo de evolução fique mais difícil.
Porque existe algo na nossa natureza que busca espontaneidade.
E quando você está no esforço do correto,
A espontaneidade se perde.
Agora,
Quando você entende que a própria essência e lógica do jogo,
Da leveza,
Como nós estávamos dizendo,
Que deixa a vida mais atraente,
Mais lúdica,
Mais infantil no bom sentido,
Nos leva nessa mesma direção,
Aí é diferente.
Aí você não estimula a repressão.
Aí é como se,
Ao contrário,
A nossa própria criança fosse convidada a participar desse projeto de evolução.
E é a nossa criança que cresce,
E é a nossa criança que evolui.
Que eu acho que,
De novo,
Me veio na cabeça o filme Soul,
Que eu não consigo escapar dele nunca mais,
Eu acho,
Depois de ter visto.
Não,
E eu acho que imagina que o contrário disso,
Que por acaso é a forma como nós fomos criados,
É imaginar que sempre existe uma ação correta para cada situação.
Que é nada menos do que um terror permanente.
Isso.
E o que eu acho que.
.
.
Você imaginar o seguinte,
Você vai seguir,
Desculpa,
Snow.
Não,
Eu vou ter o que dizer,
Desculpa.
Você imagina quando você vai receber uma orientação que,
Na educação,
É imperativo que seus filhos ou crianças,
Seja a quem você está educando,
Tenham limites,
Que os limites sejam claros.
Será que não é o oposto?
Será que elas têm que ser o mais abrangente possível?
Estava ouvindo a história daquilo que a gente discutiu outro dia,
Que,
Para mim,
Era relativamente novo,
Esse livro Summer Hill,
Que o Bi me disse que,
Nos anos 1980,
Estava aí na prateleira de todas as livrarias,
Contando a história dessa escola inglesa,
Que foi o marco na época,
O educador,
Que eu não vou me lembrar o nome agora.
A.
S.
Newell.
Ele é o próprio autor,
É ele mesmo,
A.
S.
Newell.
E talvez você possa contar melhor que eu a história,
Porque eu não li o livro ainda,
Mas pelo que eu entendi era justamente a contra-educação total na época.
Era o anti-establishment em termos de educação,
Que teve um sucesso em cima de dar liberdade absoluta no início para que o jovem encontrasse os próximos limites e entendeu que era importante para ele aprender.
E hoje a gente está aí,
Sei lá,
40 anos depois,
No mesmo lugar.
Não fomos para lugar nenhum.
E ainda todo mundo brigando com as mesmas ideias de qual é a receita correta para se lidar com os jovens,
Ou o que quer que seja.
Então,
É ainda a ideia de que a gente tem uma ação correta para qualquer situação.
E esse é um pensamento absolutamente utópico.
Você imaginar que,
De alguma forma,
Você vai vir com um download tão perfeito que você tem um Big Blue,
E você que te mostra os movimentos corretos para cada formato que o tabuleiro te mostra.
Esse ponto que você falou é perfeito,
Hugo,
Porque eu estou com uma polêmica que eu estou querendo levantar para vocês,
Que é exatamente essa que você trouxe.
Todos os livros que eu tenho lido,
Do mais,
Vamos dizer,
Esotérico da consciência ao mais,
Do empreendedor,
De como fazer negócios,
Todos hoje em dia tratam de desaprender.
Desde o Antônio de Mello,
Que outro livro que eu estava lendo esses dias,
Estava falando do desaprender,
O próprio Joe Dispenza fala muito isso,
Enfim.
Até esse último livro que eu estou lendo,
Do Adam Grant,
Que se chama Think Again.
É basicamente um tratado,
Sim,
É muito bom.
É basicamente um tratado científico que o cara prova,
E ele é muito legal,
Porque ele vai com a cabeça de cientista dele,
Então ele vai trazendo muitos e muitos estudos científicos que comprovam o quanto a única coisa que vai nos salvar é a gente desaprender o que a gente aprendeu.
E eu fico pensando.
.
.
E a coragem para isso,
Não é?
Isso.
E será que não era melhor a gente começar a pensar,
Ensinar de um jeito novo,
Que a gente não precisa de desaprender?
Mas aí essa pergunta é maravilhosa.
Eu te digo o seguinte,
É claro que eu que sou um desensinador vocacional,
Eu posso te dizer que nada supera o sabor e a experiência sublime que é o desaprender.
E para você desaprender,
Você precisa primeiro ter aprendido.
Veja,
A história toda é que o que nos salva não é a correção do que nós aprendemos antes.
O que nos salva é o desaprender,
Isso é diferente.
Porque veja aquilo que o Gould estava falando agora há pouco.
O que o Gould estava falando?
Ele estava falando da inocência de achar,
Por exemplo,
Que existe uma coisa certa para cada situação.
Vamos explorar isso um pouco mais,
Snow.
Para mim,
O que o Gould está dizendo,
De um jeito mais filosófico,
Você sabe como é a minha cabeça,
É que a realidade é infinita.
Mas não é que a realidade é infinita só em termos extensivos.
Assim,
Nós sabemos que o espaço é infinito.
Então,
A quantidade de coisas que podem estar acontecendo e acontecem é infinita.
Não,
A realidade é infinita em termos intensivos.
O que isso significa?
Um mesmo instante,
No mesmo lugar,
Também é infinito.
Então,
Ele tem infinitas dimensões de significado e importância naquilo mesmo que está acontecendo.
Porque ele acontece em várias escalas ao mesmo tempo.
Então,
É literalmente como se fosse o seguinte,
Você dá uma topada numa pedra e dói o teu pé.
Isso,
Esse evento simples,
Ele tem um significado para o teu pé.
Para a tua subjetividade,
Já tem um outro significado.
Pode ser,
Por exemplo,
A voz da tua mãe na tua cabeça dizendo,
Você,
Garoto,
Nunca presta atenção onde você anda.
Pode ser um pensamento seu do tipo,
Se isso fosse uma bola de futebol,
Onde ela teria ido parar?
Para uma formiga que estava ali,
Encostada naquela pedra e foi esmagada pelo teu pé,
Tem um outro significado.
E assim vai.
Tem infinitos significados daquele mesmo evento.
E por causa disso,
O que é a leitura ou a visão certa daquilo que está acontecendo?
É muito difícil de você chegar lá.
Então,
É inocente você achar que existe uma resposta certa.
Porém,
Aprender é você desenvolver métodos de procurar respostas.
Ou de receber respostas.
Então,
Portanto,
Você aprende perspectivas e leituras e interpretações de modelos e tudo mais.
E eles são necessários.
Porque sem eles,
Você não tem essa experiência que é a experiência da sabedoria.
A experiência da sabedoria é a experiência do understanding.
Mas qual o understanding?
É você ter a experiência daquilo que está por baixo daquilo que você aprendeu.
É o avesso.
Então,
O desaprender é você ir alegremente,
Ludicamente,
Em busca da exploração de tudo aquilo que é o avesso do que você aprendeu.
Eu penso muito na ideia do Picasso,
Né?
O quê?
O Picasso.
O Picasso,
O Miró,
O Klee,
O Adam Grant.
Basicamente,
A ideia toda é.
.
.
O Krishnamurti.
O Krishnamurti.
É aquela ideia do wise fool,
Do foolish wisdom.
É aquela ideia de que você tem a experiência de ser um tolo e aí você atinge a sabedoria.
E tem uma pegadinha aí.
Porque tolo mesmo jamais sabe que é um tolo.
E aí não vale.
Nós estamos falando daquele que aprendeu um monte de coisas e aí voluntariamente se põe no lugar do tolo.
É,
Sócrates,
Né?
Exato.
E aí você acessa a possibilidade da sabedoria,
Que é uma coisa que todos nós precisamos fazer.
Então,
O grande paradoxo é que as pessoas mais interessantes que eu conheço não são aquelas que nunca foram doutrinadas,
Que nunca foram limitadas,
Que nunca foram treinadas.
As pessoas mais interessantes que eu conheço viveram grandes treinamentos.
Elas viveram grandes restrições na mente virgem delas.
Mas depois elas se libertaram disso.
Então,
O grande paradoxo,
Que eu acho que é muito difícil de resolver,
E aí voltando para aquilo que o Gautama estava falando a respeito do Summer Hill,
É que,
Sim,
Quando a gente pensa nos estragos que a educação tem,
Que a educação faz,
Quando a gente pensa em todos os erros que são cometidos em nome do saber,
E do educar,
E do formar,
E do trazer uma cultura para as pessoas,
Nós ficamos imaginando assim como seria a vida se nada disso acontecesse.
Mas o fato é que eu não conheci muitas pessoas realmente interessantes que tenham tido essa educação muito livre,
Em que elas nunca tiveram nenhum limite importante,
Que elas nunca tiveram algum professor meio repressivo.
Essas pessoas,
Em geral,
Não é que elas sofram com isso.
Elas,
De fato,
Têm uma fluidez diferente,
Mas elas não são especialmente sábias.
Elas não têm a experiência do desaprender,
Que me parece tão fundamental para você atingir a sabedoria.
Pelo menos essa é a minha observação.
Então,
O que me parece é que,
Assim,
Na vida a gente realmente precisa da dificuldade,
E a gente precisa contornar essa dificuldade com os nossos próprios meios.
Ou seja,
Quanto mais eu vivo,
Mais eu acho que a vida realmente é um workshop de autoajuda.
Não posso estar enganado.
Literalmente.
O Summer Hill é mais do que uma escola,
Tá,
Go?
Ela é uma comunidade,
Porque Summer Hill só funciona porque os pais vivem todos juntos,
Juntos com as crianças.
Então,
Na verdade,
Não é uma escola separada do resto.
E você sabe desde quando ela existe?
Ela existe há 100 anos,
Por isso que estão falando dela de novo agora.
Ela foi fundada em 1921.
E por que a gente vê tão poucos movimentos indo nessa direção?
E a gente tem tão.
.
.
É tão como é difícil ter coragem,
Eu vejo os grandes educadores,
Os grandes conglomerados educadores,
De fazerem essas experiências,
Que eu acho que daqui a 10 anos vão ser absolutamente inevitáveis,
Porque,
Diante desse último.
.
.
Dessa última légua aí que a gente está vivendo,
Das escolas no meio,
Das escolas no meio,
Vivendo das escolas no meio dessa pandemia toda,
E todos os métodos sendo questionados,
E a ideia de se ir,
O que se aprender,
O que é importante,
Enfim.
Se depois disso a gente não sair com alguma coisa muito mais clara,
A gente vai ter que,
Talvez nós mesmos,
Fazer a escola elefantina.
De desaprendizado.
De desaprendizado.
É,
Unwind your mind.
A escola do desaprender.
Olha,
Não fala muito,
Hein?
Nós andamos bombando.
Acho que não tem nada que me dá mais vontade de fazer do que isso hoje.
É que eu realmente não.
.
.
Como não podemos confundir isso de algum jeito com algum tipo de anarquia,
Ela precisaria ter alguma estrutura.
Eu já não saberia muito como começar essa história,
Acho.
Está vendo?
Agora chegamos lá,
Porque ela teria que ter uma estrutura.
E qual seria a estrutura?
Do jeito que eu conheço nós,
Se nós quiséssemos fazer isso,
Nós faríamos reuniões que seriam mais longas e mais intermináveis do que as nossas conversas de elefantes.
Está tentando.
.
.
Mas acho que,
Seguindo o Summer Hill,
Você teria rodas tratando de assuntos,
Não é?
E quem gostasse do assunto ia ficando na roda.
Depois pulava para outra roda no outro dia e,
Possivelmente,
Depois de dois anos,
Você ia ter aprendido tudo o que era importante se aprender.
É legal isso que você diz,
A direção que você está indo.
Eu não sei se você vai concordar com essa referencial que eu vou colocar na conversa,
Mas o que você está falando me lembra muito do pensamento daquele grande antropólogo brasileiro que,
Às vezes,
Eu menciono,
O Eduardo Viveiros de Castro.
Ele fala muito que nós vivemos,
Hoje em dia,
Num sistema que,
Em poucas palavras,
É mesmo um sistema que é definido pelo ter.
Então,
Essencialmente,
Você tem duas posições dentro do sistema.
Você tem a identidade daqueles que têm e,
Por definição estrutural,
Isso é importante,
Eles são minoria.
Qual é o tamanho ideal dessa minoria?
Isso é questionável,
Mas os que têm são minoria e,
Depois,
Você tem a maioria que não tem.
E a maioria que não tem se esforça para fazer parte da minoria que tem.
E a minoria que tem se esforça para continuar parte da minoria que tem.
Então,
É como se nós vivêssemos dentro desse sistema e ele gira por causa desse esforço de manutenção e esse esforço de conquista.
Basicamente,
É isso.
Só que ele diz o seguinte,
Que,
Nesse jogo de ter e não ter,
Nós vamos destruir o mundo.
Se o mundo tiver que sobreviver,
Nós temos que estar fora do sistema do ter e não ter.
Isso não tem nada a ver com a quantidade de recursos que você vai ter.
É uma questão mental de você se colocar como alguém que tem ou como alguém que não tem.
E a única liberdade para fora desse sistema é você não se definir como alguém que tem nem como alguém que não tem.
E ele,
Como antropólogo,
Diz que esse é o lugar do índio.
Então,
Ele diz,
Nós só vamos sobreviver se nós voltarmos a ser índios.
E eu me lembrei muito disso quando você estava falando,
Porque essa escola que você está tentando inventar me parece uma roda indígena onde você tem os mais velhos e as crianças e todo mundo e de manhã todo mundo se encontra e conta quais foram os sonhos.
E aí,
Os sonhos são interpretados coletivamente e aí,
De repente,
Uma criança tem um sonho importante para a comunidade inteira.
Então,
Parem todos,
Porque esse sonho pertence a nós.
E a gente avança perto daí.
Ou seja,
Nós estamos going back to basics,
Porque nós viemos disso.
Eu acho que eu tive essa ideia,
Tive essa referência do índio quando você estava contando,
Eu estava pensando mais no outro antropólogo que viveu um pouco mais tempo atrás,
Chamado Jesus Cristo,
Que falava muito dessa questão,
Não do ter,
Mas do obter.
E de como você,
Toda vez que quisesse obter alguma coisa do mundo,
O mundo ia querer precisar obter alguma coisa de você.
E como esse trabalho de você entender que toda vez que você realmente precisava controlar um resultado muito grande,
Qualquer que fosse esse resultado,
Ele era de uma satisfação muito efêmera.
Portanto,
Ele não era eterno,
Ele não era digno de ser perseguido.
Eu acho que a gente tem muito esse caminho de ter sido criado com a ideia do obter,
E aí vem a competição de ser o primeiro,
De ter o do outro,
De estar na frente do cara do lado.
Até o Antony conta uma história interessante no livro dele,
Não sei se você lembra da história dos americanos que foram estudar em uma escola suíça de medicina.
E a primeira coisa que eles estranharam demais é o fato de que não existia um ranking na classe.
E aquilo começou desde.
.
.
Você chegou nesse ponto,
No livro?
Não,
Não houve essa história.
Os americanos começaram a ficar extremamente preocupados com a ideia de que não havia uma posição,
Não tinha como eles se posicionarem e de saber qual o lugar deles no grupo.
E que eles começaram a contar que,
Das escolas onde eles vieram,
Não existia um ajudar o outro,
Eles ficaram surpresos quando nas salas de aula de medicina um ajudava o outro com a pesquisa e tal,
Eles faziam referências nas escolas americanas,
Que eles até preparavam,
Mexiam no.
.
.
Telescópio,
Imagina,
Mexiam no microscópio,
Mexiam nos equipamentos,
Para que,
Quando o próximo chegasse,
Demorasse mais tempo para ajustar a máquina e tal.
Eles não entendiam aquele sistema.
E que,
No final das contas,
Os resultados,
Obviamente,
Do grupo e do indivíduo eram muito melhores na Suíça,
Pelo menos naquele espaço amostral ali.
Mas vem tudo de uma formação,
Essa formação de obter,
De ter,
Para você estar bem importante com o outro,
Não esteja tão bem quanto você.
E acho que isso ainda é possível de se explicar de uma maneira diferente.
Acho que isso é a educação que a gente pode começar a pensar em ter uma escola,
Uma escola que passe de pé a partir disso.
Eu gosto demais desse desafio.
Para mim,
Tem uma etapa dessa história,
Que é uma parte da charada que eu ainda não consegui matar.
Confesso para vocês.
Tem um pedaço dessa charada que eu não consegui resolver.
Eu vou colocar em palavras do jeito mais simples que eu consigo.
Eu não tenho nenhuma dúvida de que,
Se a humanidade tiver que sobreviver,
Ela tem que ir nessa direção.
Primeiro ponto.
Segundo ponto.
Nenhuma dúvida de que é nessa humanidade que eu gostaria de estar presente.
É nesse mundo que eu gostaria de viver.
Mas,
Na minha observação,
É muito mais fácil você conseguir viver assim quando você,
De certo modo,
Você tem algumas preocupações básicas da subsistência que estão resolvidas.
Ou seja,
Viver na cultura do compartilhamento pleno e da identidade com o outro e da generosidade do encontro é muito mais fácil quando você não tem uma vivência contínua de risco e de escassez.
Quando mais você vive num ambiente de abundância,
Pela minha observação,
Mais fácil é essa nova cultura que a gente quer construir e se manter.
Então,
Para mim,
O ponto que eu ainda não consigo.
.
.
Eu tenho uma boa notícia para você.
Porque eu acho que é praticamente impossível que a gente viva 20 anos mais nessa mesma sociedade,
Com essa mesma característica,
Com essa mesma,
Vamos dizer,
Com esse disparate tão grande e com essa lógica de divisão.
Então,
Eu acho que,
Pelo que consta,
Quando desencarnou o Buda,
Ao chegar diante do Senhor,
Ele recebeu uma orientação.
.
.
Quando ele desencarnou,
Não.
Quando iluminou.
A orientação que ele recebeu dá meia volta e vai buscar os outros.
Então,
Eu acho que,
De algum jeito,
A gente vai chegar em algum lugar onde talvez essa identificação do que é riqueza fique tão fraco que a única coisa que nos dê uma noção de como sobreviver como espécie seja encontrar esse equilíbrio onde só vale todos juntos.
Não sei se isso é muito.
.
.
Mas acho que agora não é nem uma questão de utopia,
Agora é uma questão realmente de sobrevivência de espécie.
Sim,
Eu concordo.
O que eu digo só é como.
.
.
É interessante,
Não é?
Quando é que você não tem a percepção da escassez,
Como eu estava dizendo?
Ou quando todo mundo tem o suficiente,
Ou quando ninguém tem nada.
Aí você não tem a percepção da escassez também.
Porque a escassez tem um componente comparativo.
Então,
A grande.
.
.
Total.
Então,
A grande pegadinha nessa história é como construir esse lugar quando ainda existem as diferenças.
Eu penso muito nisso.
E eu tenho uma pista que tem muito a ver com os comentários que tenho feito.
Tem uma coisa que descobri.
.
.
Eu sabia indiretamente,
Mas tive uma confirmação que nunca tinha me dado conta,
Que o Nexo estava ali.
Vocês sabem de onde vem a palavra empatia?
Nós sabemos que fomos falando muito disso.
Hoje em dia,
Nós falamos demais da empatia.
Muito do que o Hugo está dizendo é,
Em outras palavras,
Tem empatia verdadeira.
Muito bem.
A palavra empatia é relativamente recente.
Ela não existia 150 anos atrás.
Olha só.
E ela foi desenvolvida a partir do alemão,
Foi uma tradução do alemão,
Einfühlung.
E já vou falar sobre isso.
Mas era um pouco parecido com aquela época em que os americanos,
Os ingleses,
Traduziam as coisas alemãs e criavam palavras meio latinas ou meio gregas para traduzir uma palavra alemã que não existia.
Então,
É o mesmo jeito que o ego foi uma palavra inventada numa tradução americana e jamais o Freud falou de ego,
Jamais o Freud falou de ego,
Jamais o Jung falou de ego.
Isso foi uma tradução.
Eles falavam só de eu.
Bem significativo,
Interessante isso.
Da mesma forma,
A empatia é a tradução do Einfühlung.
E o que é isso?
É sentir dentro.
Mas sentir dentro como?
Como é que essa palavra,
Esse conceito de Einfühlung existiu,
Nasceu?
Ele nasceu,
Queridos,
Na estética alemã.
E o sentido dessa experiência era,
Segundo eles,
A resposta do olhar que cria a percepção da arte.
Vou traduzir.
Essa frase ficou muito complicada.
Em poucas palavras é o seguinte.
Quando você vê alguma coisa.
.
.
Quando é que você tem uma experiência artística vendo alguma coisa?
Quando você vê um desenho,
Por que de repente isso é arte?
Quando você vê um objeto,
Por que isso é arte?
Quando você vê uma cena,
Por que você diz isso é arte?
E o que eles refletiam naquela época é que acontece isso porque você entra com o sentimento dentro daquilo que você está vendo.
E quando você entra com o sentimento dentro daquilo que você está vendo,
Não existe mais distância entre você e aquilo que você observa.
Então,
Na verdade,
A origem do termo empatia nem era a respeito de uma pessoa com outra pessoa.
Não era psicologia,
Era.
.
.
Não era.
Era uma psicologia da arte.
Era você ter uma vivência estética.
E o que acho fascinante nessa história,
Que é uma coisa que sempre estou buscando,
Estou desenvolvendo muito essas conexões da estética com o crescimento pessoal,
Desenvolvimento e psicologia,
Mas o interessante é que,
Se você para para pensar,
Se você tem uma relação com o outro que é uma vivência estética,
Você tem uma relação empática.
E a empatia não pressupõe a identidade.
Isso que eu acho que é o mais legal dessa pista.
Porque,
Muitas vezes,
É difícil você superar todos os meandros e barreiras de quem você é e se sentir exatamente igual ao outro.
É quase como se você tivesse que ir para um nível muito básico da existência para se sentir igual.
Mas,
Quando você pensa na empatia desse outro jeito,
Você não precisa se sentir igual para se sentir junto.
Você pode olhar para o outro como se fosse uma manifestação genial da vida.
Uma obra única,
Irrepetível,
Fantástica,
Misteriosa,
Miraculosa.
E aí você tem aquela awareness do Antônio de Mello.
Você olha para o outro assim,
Uau!
E você está fazendo isso,
Você vai,
Naturalmente,
Ter empatia pelo outro.
Porque você vai,
Com o teu sentimento,
Querer experimentar a existência do ângulo daquele outro ser.
E não.
.
.
Você sabe que ele fala aí uma coisa interessante,
Que não é você imitar o Cristo pelas atitudes do Cristo,
É você ser o Cristo para você agir como o Cristo.
Facinho,
Lindo!
Não,
Eu estou dizendo de uma maneira permanente,
Você viver aquele momento.
.
.
É isso mesmo.
Eu estou falando exatamente do mesmo lugar.
Estou falando exatamente do mesmo lugar.
Você não é por imitação,
Você tem que se sentir daquele jeito.
E se sentir daquele jeito é tanto um desafio de sensibilidade e imaginação quanto um desafio de um coração aberto.
Então,
É exatamente esse o ponto.
O caminho mais curto para chegar lá não é,
Necessariamente,
Você pensar no que é o certinho,
No que é o correto.
Mas é você pensar nisso,
Como tantas vezes eu gosto de pensar,
No JC como um grande roqueiro.
Eu volto e meia,
Na minha cabeça,
Eu penso no JC e ele tem a cara do Jimi Hendrix.
Eu fico imaginando ele no meio de Jerusalém queimando uma guitarra.
Eu faço umas viagens assim e completamente sóbrio,
Eu te garanto.
Então,
Eu acho que essa liberdade estética de você olhar para a realidade assim,
Procurando se comover com tudo que você tem diante dos olhos,
Esse é o caminho maior da libertação.
E ele leva para essa liberdade,
Essa transcendência,
Para essa poesia,
Que é também a evolução que a gente busca,
De um jeito divertido.
Acho isso muito importante.
Eu estava pensando aqui,
Uma das coisas que eu mais sinto de tudo o que a gente vê quando a gente começa a dar nossos passos um pouquinho mais profundos na ideia da consciência é o quanto tudo o que a gente tem de caminho e das pessoas que escreveram é esse distanciamento da ideia de um conhecimento psicológico ou da consciência com um conhecimento estético.
Tem duas coisas que eu sempre me questiono,
É a separação da mente e do corpo,
O quanto a psicologia moderna separou a cabeça do corpo e o quanto a ideia de uma estética e de quanto a estética pode nos dizer alguma coisa,
Da estética como uma linguagem,
Ela também não figura nessa ideia de conhecimento do que é a psicologia,
Do que é o autoconhecimento.
Não sei se estou completamente enganado,
Mas vejo a estética talvez como algo menor,
Algo que é deixado de lado,
Algo que é fútil.
Talvez a arte entre como um quê de catarse,
Mas a estética em si é colocada como algo menor.
Não sei se é uma interpretação minha,
Mas quando você traz isso,
Falando que a empatia vem de um conceito estético.
.
.
Eu não sei,
Teve algum cara,
Não me lembro quem,
Que falou que ia pegar a pedra abandonada e usar ela de base para a igreja dele.
Então,
Digamos que eu gosto de brincar disso.
Eu acho que sim,
Eu acho que isso ficou perdido nos últimos tempos e me parece que é fundamental recuperar.
Sabe o que eu acho,
Por que a estética ficou para trás?
Minha leitura está.
.
.
A estética de todas as grandes lentes e portas de entrada para a experiência é uma das menos autoritárias.
Então,
É mais difícil você cancelar alguém na base da estética,
É muito mais fácil você cancelar alguém na base da suposta verdade ou da suposta ética,
Do politicamente correto.
Agora,
Na estética,
É mais difícil você viver a autoridade,
Essa é a minha impressão.
Vocês tiveram a chance de assistir um documentário já sobre o padre,
O padre não,
Na verdade,
O monge Thomas Keating?
Ah,
Você anda viajando por estradas surpreendentes,
Meu querido Go.
Gosto muito dele,
Mas você descobriu o padre Thomas Keating como?
Conta essa história toda,
Que ela não é trivial.
Na verdade,
Eu estava assistindo um comentário sobre o documentário e aí eu fui me aprofundar um pouco na história dele e aí nada melhor do que o próprio documentário para contar essa história.
Mas você chegou no documentário como?
Esse documentário está onde?
Eu nunca vi o documentário,
Eu conheço a obra dele,
Mas.
.
.
O documentário está no.
.
.
Você acha ele no Amazon Prime,
Você pode alugar ou comprar.
Opa,
Tá.
Como é que é o nome?
Chama-se Thomas Keating,
É exatamente o nome do.
.
.
E ele.
.
.
Você ouviu falar dele ou não?
Não,
Não ouvi,
Não me lembro.
E,
Olha,
Não quero dar nenhum spoiler,
Porque vale a pena um pouco ouvir a história.
Tem que dar um pouco o spoiler de por que ele é importante.
Na verdade,
Ele é a referência,
Eu acho,
Da igreja católica,
Que vem de uma origem mais rígida possível,
Que tem um grande insight em determinado momento da vida dele e percebe que a espiritualidade está em todos os lugares,
É o primeiro cara a se abrir para as outras religiões,
Outras doutrinas,
E passa a ser um grande porta-voz de espiritualidade junto ao Dalai Lama,
Aos grandes imãs,
Enfim,
Transita e até com o Ken Wilber,
Ele faz seminários,
Enfim,
E começa a conversar desse lugar e faz um paralelo muito grande do que ele viveu na vida monástica para o que é essa espiritualidade para fora,
Vivendo no mundo.
Pelo menos foi o meu entendimento.
E é uma história de vida muito surpreendente,
Do lugar que ele veio,
De uma família superabastada,
De filhos de advogados em Nova Iorque,
O estado de Nova Iorque,
Com uma carreira muito já montada e esperada pelo pai,
Que muito cedo resolve seguir contra toda a indicação da família de seguir esse caminho.
E como ele sobe rapidamente dentro dos rankings da igreja,
Até por ele ser um cara extremamente rígido,
Consigo mesmo,
Declaradamente rígido.
Muito comparado.
E aí vira todo esse jogo,
Vira a cabeça dele,
E acho que o spoiler não vale dar,
Que é o momento que ele tem esse insight.
Pois é,
Mas tudo bem.
Você sabe que esses detalhes biográficos dele,
Eu nem conheço,
Mas é melhor contextualizar de um.
.
.
Eu prefiro de um outro lugar,
Porque explica para onde ele foi parar.
E parece que nosso episódio de hoje dos elefantes é dedicado à quaresma,
Porque nós somos mais cristãos do que impossíveis,
Mas interessantes para variar.
O padre Thomas Keating é o cara que resgatou a tradição mística cristã da meditação.
É verdade.
Então esse é o ponto pelo qual ele é realmente conhecido.
Todas as conexões que ele teve depois foi sobretudo porque ele,
Graças a isso,
Ele pôde ser colocado junto com Dalai Lama,
Com os outros caras todos.
Simplesmente ele resgatou e ele formulou aquilo da maneira mais simples possível como uma forma de oração chamada oração de centramento.
Você lembra por que ele chegou nesse lugar?
Não,
Eu na verdade nem sei.
Eu não conheço.
A tradição que ele escolheu dentro do cristianismo,
Do catolicismo,
Era uma doutrina de muito silêncio,
Muita introspecção.
Os primeiros quatro anos da vida monástica dele ele deve ter talvez balbuciado umas cinco palavras.
Mas então é como o Thomas Merton,
Lembra do Thomas Merton?
É outro da mesma linhagem.
E aí ele começou a identificar as similaridades da oração com a meditação,
A oração meditativa.
E aí eu não tinha me dado conta que foi o que aproximou ele do Dalai Lama e dos outros.
O que eu tinha entendido foi a partir desse grande insight que ele tem de transpor religião,
De ter autoridade por cima das doutrinas religiosas e enxergar em tudo,
Ele passou a ser.
.
.
Eu acho que sim,
Mas o ponto é que foi depois que ele foi desenvolvendo essa meditação através da oração,
Ele foi chegando nos mesmos resultados meditativos significativos das outras tradições meditativas.
Quer dizer,
Dito de uma outra maneira,
Ele,
Num caminho completamente cristão,
Ele se tornou alguém muito próximo dos outros caras que iam naquele caminho mais oriental.
Explorar isso um pouco mais é legal.
Sabe o que eu acho que é a grande distinção importante?
É assim,
Na tradição oriental,
Numa linguagem bem caseira,
Mas é essencialmente isso,
Nas tradições orientais a gente está o tempo todo ouvindo e tentando desenvolver a coisa em termos de eu sou Deus.
Aí a gente pode formular isso de várias maneiras,
Mas essencialmente você procura Deus dentro de você como uma coisa que já está lá,
Ou seja,
Não existe em princípio essa diferença entre você e Deus.
Todas as tradições orientais levam para,
De certa maneira,
Esse monismo místico.
Muito bem.
A tradição cristã não funciona assim.
A base da tradição cristã é o diálogo com esse outro infinito,
Com um poder infinito,
Com consciência infinita,
Que seria Deus.
E aí você se relaciona com ele de todas as maneiras que você consegue.
Você evolui nesse diálogo.
Desde um nível bem criancinha,
Que ainda tem muito por aí,
Do tipo assim,
Eu vou rezar,
Fazer um terço,
Vou fazer não sei o quê,
Vou fazer uma penitência,
Aí Deus vai me atender,
Até esse nível bem caseiro e infantil da história,
Até um nível profundamente evoluído da história.
E esse nível profundamente evoluído está embutido nas tradições mais profundas que querem,
Em última instância,
Dizer o seguinte,
Não sou eu que quero,
É você.
Não sou eu que vivo,
É você.
Não sou eu que desejo,
É você.
E aí,
Através desse diálogo com um eu maior do que você mesmo é e de onde você emana,
Você vai se desfazendo do teu ego e você vai mergulhando nessa consciência crística que é a consciência da divindade.
E aí você vai chegando num mesmo lugar que você chega pela vertente oriental.
Tem nuances,
Mas elas são muito complicadas e não vale a pena entrar no detalhe agora.
Mas o ponto importante é na tradição cristã,
O que ficou em segundo plano durante séculos era esse componente místico-meditativo.
E esse componente místico-meditativo é como é que você reza pra você ficar cada vez mais perto da consciência do Criador.
Então,
Os grandes místicos da Idade Média faziam isso naturalmente,
Mas depois isso se perdeu.
E o Thomas Keating foi o cara que conseguiu formular de uma forma simples e contemporânea como é que você faz isso sendo um cristão.
Então é essa a história dele.
Então ele é muito importante,
Muito valorizado em todos esses centros e discussões de interfaith,
Quer dizer,
Essas coisas que você,
Esses encontros que você faz de todas as religiões juntas,
Apontando pro mesmo lugar.
Ele era um grande representante disso e um grande patrono desses movimentos,
Porque ele trouxe de volta o misticismo cristão à tona.
E,
Através do misticismo,
Você consegue falar com o budismo tibetano,
Você consegue falar com o hinduísmo e assim por diante.
É mais ou menos isso que estava lá no documentário.
Isso,
Isso mesmo.
Ele ainda é vivo?
Não.
Ele morreu alguns anos atrás,
Não faz muito tempo,
Não.
E ele foi um padre católico,
É isso?
Um protestante.
Católico,
Católico.
É,
O que,
Por si só,
Já nos EUA não é tão natural,
Né?
Não me lembro o nome da ordem dele.
Tetrus,
Tretris.
.
.
Trapistas,
Era um monge trapista.
E os monges trapistas tinham voto de pobreza também,
Não tinham?
Ah,
Claro.
Pobreza,
Silêncio e fazem uma cerveja fabulosa.
É,
Né?
Não tem nenhum problema.
Interessante isso também,
Né?
Quando você fala isso,
Enfim,
Acho que isso já virou quase um tema recorrente aqui dos elefantes.
O quanto,
No fim,
Todas as religiões apontam para o mesmo caminho,
Né?
E será que se a gente.
.
.
É cerveja?
É cerveja.
Cerveja e meditação.
Todas as cervejas apontam para o mesmo caminho.
É,
Todas as cervejas apontam para o mesmo caminho.
Mas eu fico pensando se a gente pode ter essa utopia de um dia ver uma unidade maior entre as religiões e não uma competição.
Olha,
Tem aqui.
.
.
Eu puxei aqui a referência do Thomas Keating.
Eu só queria citar uma frase dele,
Porque se tivesse que ter um cabelo,
Eu acho que tem que ser dele e não o nosso.
Vocês estão merecendo o que parece.
O silêncio é a linguagem que Deus fala.
E tudo mais é uma tradução ruim em silêncio.
Cabelo!
Cabelo!
Não é incrível?
É isso.
Todo o resto é uma tradução ruim.
Agora,
Como o silêncio é difícil,
Eu,
Pelo menos,
Como o Hugo vive sofrendo,
Tendo que ficar me escutando o tempo todo,
Sem parar,
Pensando assim,
Quando é que esse homem vai se calar finalmente?
Silêncio,
Para mim,
É difícil.
Silêncio.
.
.
Eu tive a oportunidade de agora passar dois dias com o celular desligado.
Eu vi cruel.
E foi quase que.
.
.
Quase não.
Foi muito mais interessante do que a semana de férias que eu havia tirado uma semana antes.
Sarcástico,
Como sempre.
As verdadeiras férias foram essas.
Hoje em dia,
Férias é isso.
Você conseguir desligar o celular em dois dias.
Mas o melhor do que isso,
O melhor do que você desligar o celular em dois dias,
É você poder desligar o celular em dois dias.
Ou você,
No meu caso,
Você está munido de uma posição que te dá respaldo para manter o seu celular.
Dois dias,
No meu caso,
Para que os ouvintes não saibam,
Eu estava hospitalizado.
Havia sofrido uma pequena cirurgia no sábado e me presenteei com esses dois dias que eu não podia ser julgado pelo meu celular estar desligado.
Foi maravilhoso.
Será que a gente vai voltar em algum momento,
Numa época,
Em que a gente vai poder ter essa escolha?
Porque,
No fim,
É isso.
O seu celular ligado é só um bem para o outro,
Ele não é um bem para você.
É uma total inversão de valor.
É como as pessoas conseguem te achar,
E não o contrário.
Olha,
Eu tenho um pouco a impressão de que a gente tem essa escolha,
A gente nunca perdeu essa escolha,
A gente perdeu as razões que levam a essa alternativa.
E isso é que é o grave,
E é isso que precisa ser recuperado.
Então,
Eu vivo falando naquele autor,
O Carl Newport,
Que tem pesquisa sobre isso,
E ele diz basicamente o seguinte,
Você só faz um trabalho profundo em qualquer coisa se você fica quatro horas sem nenhuma interrupção em cima daquela tarefa e daquele esforço.
Então,
É aquele livro,
É aquilo que você está escrevendo,
Aquilo que você está estudando,
Aquilo que você está fazendo.
Se você vai fazer um trabalho profundo,
Você tem que ser absolutamente não interrompido por nada nem ninguém por quatro horas.
Isso era relativamente mais fácil quando nós não tínhamos os celulares,
Os e-mails,
Os whatsapps e tudo mais.
Agora,
Como nós somos viciados na rede,
E a rede chega até nós e ela faz barulho e tudo mais,
Ela manda mensagens,
É muito difícil a gente ficar quatro horas ininterruptas sem essa interrupção.
E por causa disso também,
Nós perdemos a consciência de como isso é necessário e é útil.
Então,
Todo mundo hoje em dia tem déficit de atenção,
Todo mundo está fazendo mais ou menos mil coisas ao mesmo tempo.
E todo mundo,
Vamos falar a verdade,
Em geral,
Não está fazendo nada bem.
As únicas pessoas que provavelmente ficam com o celular desligado,
Tirando os cirurgiões,
Talvez,
Espero,
Devem ser justamente os caras que programam as redes e os celulares que nós usamos.
Eles e talvez os filhos deles lá no Vale do Silício não usem isso.
Mas nós estamos todos viciados e nós ficamos com a consciência completamente interrompida.
Dá para dizer que a nossa consciência hoje em dia é gaga.
E não são só essas distrações.
Pelo que eu vejo,
No seu dedo esquerdo você tem um oxímetro enquanto está falando com a gente.
Ele mediu o oxigênio enquanto falava.
Você está medindo o oxigênio enquanto fala com a gente.
Não,
Eu não sou.
Seria muito divertido se eu fosse neurótico assim,
Mas simplesmente tem um oxímetro aqui com um milhão de outras coisas,
Meu canivete suíço,
Meu cubo mágico,
Tudo mais,
As mais diferentes utilidades,
Meu Powerball,
Meu celular,
Um outro par de óculos,
E ao me soltar.
.
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Corroborando com a minha ideia das suas distrações não estarem apenas focadas no seu celular.
Você tem outros brinquedinhos aí enquanto você.
.
.
Eu tenho inúmeros brinquedinhos.
E aí eu fiquei brincando com o meu oxímetro enquanto nós estávamos aqui conversando.
Mas no fim é isso,
Né?
O celular é mais um brinquedinho.
Também.
E dá jatinhos de dopamina durante o dia.
É um belo brinquedinho.
Nós somos o brinquedinho do celular.
Eu quero fazer um movimento de volta ao Startak.
Relançaram o Startak,
Não relançaram?
Eu ouvi dizer que eu acho que o Startak foi relançado.
Gol.
Eu sempre soube que no fim da sua carreira você iria virar um hipster.
Eu não tenho dúvida.
E a Nokia parece que está relançando os celulares que só mandam mensagens e telefone,
Né?
São os Burners.
Atitudes ilícitas e tudo mais.
Os Burners já estão aí.
Em poucos anos nós não vamos ter mais celular.
Esse que vai ser o ponto.
A gente já vai estar no próximo estágio.
Neurolink.
Com seus óculos mesmo.
Com seus óculos.
Os nossos óculos vão fazer o trabalho todo.
Vai ter.
.
.
O som vai estar na haste,
Que vai direto na nossa têmpora.
E a gente vai ter uma projeção na própria tela com todas as informações importantes.
A gente não vai mais precisar de celular,
Por assim dizer.
Mas o problema só aumenta.
Ainda mais se o Elon Musk conseguir o que ele pretende,
Que é botar um chip dentro do nosso crânio.
Aí acabou a brincadeira.
Mas eu acho que isso já estava previsto naquele livro Singularities Near,
Né?
Aliás,
Fazia na época.
Acho que o livro foi lançado em 2015 ou 2014.
E ele fazia a previsão que em 2022,
2023,
Você já teria os primeiros ciborgues,
Vamos chamar assim,
Os primeiros implantes neurais com capacidade de substituir algumas áreas do cérebro.
Então,
Nós não estamos muito longe disso.
Pode ser que já tenha muita experiência nesse sentido.
Eu fico pensando como é que vão ficar as patologias psicológicas com essa história aí.
Se o celular já dá esse tipo de coisa,
Imagina quando a gente multiplicar isso por mil,
Né?
Eu não sei.
Eu tenho a impressão que o ser humano,
Ele está sofrendo mutações.
Nós estamos numa transição tão grande que nós estamos tendo a solução de alguns problemas muito antigos e a criação de problemas novos que a gente mal consegue começar a compreender.
Eu,
Por exemplo,
Eu vou dizer o seguinte,
Eu não tenho a menor ideia do que vai ser atender psicologicamente a essa geração que já nasceu com o celular na mão e não conhece a vida sem uma tela.
Eu não sei como é que eles vão ser aos 35,
40 anos de idade.
Eu estou muito curioso,
Eu tenho certeza que basicamente é uma outra raça humana.
E eu acho que eles vão ter dificuldades importantes.
Eu consigo identificar essas dificuldades,
Mas eles vão de ter também facilidades e superpoderes que a gente nunca sonhou.
Eu acho que tem uma mutação enorme e eu gosto muito dessa teoria do design ontológico.
Eu acho demais essa teoria e eu,
Hoje em dia,
Me guio por ela,
Que é essa ideia de que nós,
Ao criarmos os nossos utensílios e as nossas tecnologias,
Nós nos tornamos tão simbióticos com elas que elas mudam a nossa própria natureza.
Então,
Nós nos tornamos outros seres.
Desde que nós temos esses celulares e tudo mais,
Nós mudamos.
Assim como nós mudamos quando inventamos as cadeiras,
Quando inventamos o lápis,
Quando inventamos o automóvel,
Cada coisa dessas que a gente inventa a gente muda um pouco como ser.
O fogo.
Agora,
Estou chegando à conclusão que essa história de que a gente só usa um percentual do cérebro é mais ou menos como comprar o iPhone com capacidades diferentes.
Eu acho que o meu é o 64K mesmo ou o XA32,
Porque eu estou sentindo que,
Para eu conseguir aprender alguma coisa nova,
Eu tenho que esquecer alguma coisa antiga.
E acho que não é dentro dessa pegada do desaprender,
Não.
É por falta de opção.
Eu venho esquecendo coisas,
Mas as coisas que não são relevantes estão indo embora.
E eu acho que não é todo mundo que tem essa capacidade desse universo expandido no que diz respeito ao cérebro de sempre acumular mais conhecimento.
É possível.
Como nosso querido Bi.
Nosso Bi,
Quanto tempo demoraria para desaprender?
Duas vidas.
Duas vidas para desaprender uma.
O Adam Grant viria para o Brasil estudar o Bi.
Vamos ver como ele faz para o Bi desaprender.
Vocês sabem que a quantidade de coisas que eu esqueço é brutal.
Eu tenho a impressão que você está pensando de um jeito diferente hoje.
Quando você muda o jeito que você pensa,
Você começa a esquecer de uma forma mais ativa.
Tem um tipo de pensamento que é um pensamento que você cria aquilo que você está pensando.
E tem um outro tipo de pensamento que é você lembra aquilo que você pensou.
Eu vejo que você,
Desde que eu te conheço,
Você se tornou mais e mais um criador.
E isso está te fazendo muito bem,
By the way.
Então,
Por favor,
Se o palpite do amigo valer alguma coisa,
Continue assim.
Exatamente.
E aí é o seguinte,
Quanto mais você se torna um criador,
Mais você começa um processo de esquecimento.
Porque o que interessa é o espaço vazio que você vai preencher quanto a nova criação.
É totalmente diferente do exercício de ficar lembrando.
Então,
Eu vejo isso com professores que eu tive.
A professora,
Não vou citar o nome dela aqui,
A professora que tinha a melhor lousa que eu já vi em todos os tempos.
Lousa,
Para quem não sabe,
Era uma superfície escura onde você pegava alguma coisa arcaica chamada giz,
Que era um pó concentrado,
Mineral,
Que você usava para fazer traços brancos e primitivos,
Como se você fosse um caçador das cavernas e lascou.
E era assim que a gente tinha aula no meu tempo,
Muito antes do iPad.
Mas,
Enfim,
A melhor lousa que eu já vi era sempre dela.
Se tivéssemos celulares naquele tempo,
Era muito simples,
Era só fotografar a lousa e pronto.
E a característica dela é que qualquer livro que ela tivesse lido e fichado nos anos 60,
Ela,
20,
30 anos depois,
Ela tinha presente como se ela tivesse acabado de ler 20 minutos antes.
E era imbatível isso.
Claro que,
Em cima disso,
Ela tinha lido,
Sei lá,
Uns 6 mil livros.
Então,
Ela era um Wikipedia ambulante com as conexões que uma pessoa inteligente consegue fazer e que o Wikipedia não tem.
Muito bem.
E esse cérebro absolutamente inacreditável,
Na minha humilde impressão,
Nos tempos que eu acompanhei ela,
Jamais teve uma ideia original.
Esse é o grande risco,
De você virar um grande citador.
Exatamente.
Diante de qualquer contexto,
Qualquer pergunta,
Qualquer tema,
Ela imediatamente dizia,
Fulano de tal,
Beutrano,
Cicrano.
.
.
E ela vinha com referências de oito caras e ela citava de memória o que o cara tinha dito,
Sem hesitação.
É o melhor exemplo olímpico da educação do passado.
É.
E ela não tinha nenhuma ideia original.
E,
Na verdade,
A maneira como questionava na vida pessoal dela,
Para o meu critério,
Não era nem muito inteligente.
Então,
Ela tinha memória.
E eu conheci um outro carinha,
Esse não era da academia,
Que trabalhava em business corporation,
Não sei mais o quê,
E que ele tinha uma memória perfeita.
Ele tinha conhecido o Ita e era muito curioso.
Ele lembrava,
Não era do que ele tinha lido,
Ele lembrava,
Ele parecia um personagem de Jorge Luis Borges,
Ele lembrava de tudo o que tinha sido dito na conversa que eu tinha tido com ele sete anos antes.
Ele lembrava do que eu estava vestindo,
Do que ele estava vestindo,
Do que a gente tinha comido e de tudo o que tinha acontecido.
Ele era assim com absolutamente tudo.
Ele tinha sido o melhor aluno na escola,
No vestibular e na faculdade graças a isso.
Ele tinha uma memória fotográfica absoluta.
E não esqueci de nada.
E você quer saber?
Era muito chato conversar com ele.
É quase uma maldição.
É quase uma maldição.
Escuta,
Essa pessoa,
Ela é totalmente desprovida de sal,
Porque ela só está esperando o próximo evento que ela vai registrar.
Na verdade,
A vida é um remake.
Então,
De novo,
O nosso tema de hoje,
Que tem a ver com o desaprender,
É o esquecer,
É o esvaziar,
Que é a famosa via negativa.
Para você poder fazer isso direito,
Sem ilusões,
Primeiro você tem que encher o tanque,
Depois você esvazia o tanque.
Não vale a pena,
E não vale,
Na regra do jogo,
Você fazer o atalho de,
Bom,
Já que é assim,
Então eu não vou encher nada,
Não vou aprender nada,
Não vou ler nada.
Aí pronto.
Aí eu tenho menos coisa para desaprender.
É preciso chegar ao final do arco-íris para saber que ali não está o pote de ouro.
Exatamente.
Que pena!
Tia Célio,
Nós nunca vamos cessar com as explorações.
E o fim de nossas explorações vai ser chegar no ponto de partida e conhecer o lugar pela primeira vez.
Acabamos.
Acabou.
Acabou.
Minha cabeça está explodindo,
Senhores.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
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