
Paraíso Perdido e Atenção Plena
by João Alencar
Muita gente compara a perda da sensação de frescor da infância com a queda do paraíso, a saída de uma época em que tudo parecia ser mais vivo e mais vibrante. Nesse áudio eu busco comparar a relação de uma criança com a vida à prática de atenção pela. Podemos praticar aguçar nossos sentidos para trazer de volta este paraíso perdido.
Transcrição
Tive mais inspirações sobre atenção plena que resolvi gravar sobre como que a gente transforma as coisas no meio para um fim e aí acaba nunca estando presente realmente com o que está fazendo.
Inspirado também por um vídeo do Eckhart Tolle recente que eu vi ele explicando a cerimônia de chá japonesa que ele fala disso também e uma coisa que me veio muito foi a questão da infância,
Estava no banho aqui e veio essa intuição de que a criança está muito conectada com essa questão do aqui e agora e a gente manda a criança para tomar banho mas ela não quer ir no começo mas depois que ela entra para o banho ela fica lá 15,
20,
Meia hora e daqui a pouco vem a mãe e diz menino,
Menina está dando esse banho demorado,
Já passou o sabonete,
Não,
O que está fazendo,
Está curtindo aquela água,
Aquela coisa como assim tem uma água aqui que eu posso fazer que eu sou um mergulhador,
Surfista,
Um bombeiro,
Um marinheiro e para criança aquela água descendo ali é tão incrível quanto um adulto de repente embaixo de uma cachoeira,
Digamos e só que com o tempo a gente vai coisificando aquilo,
A gente vai transformando as pequenas coisas,
Supostas pequenas coisas do dia a dia em meios para um fim,
O banho precisa ser o mais rápido possível com o objetivo,
O fim de ficar limpo,
Então tem que tomar o banho rápido para ir para a escola,
Para ir trabalhar,
Para ir,
É sempre algo que não é em si só não tem qualidade é só uma função para alcançar o objetivo de estar limpo,
Então a gente faz aquilo muitas vezes de forma automática,
Sem sentir,
Sem nem perceber,
Às vezes entra e sai do banho e fica pera,
Eu passei shampoo,
Eu fiz isso,
Nossa fiz né,
Nem via eu fazendo aquilo,
Então a gente começa já a perder aí essa coisa de estar ligado ao que a gente está fazendo e aí cada vez mais a gente entra no processo de estar fazendo as coisas para chegar em outro lugar,
Para conseguir alguma coisa com outro objetivo na frente e na frente no futuro e depois e quando eu chegar lá e quando eu conseguir,
E aí toma banho para ir para a escola,
Para que vai para escola,
Para tirar nota boa,
Para que tirar nota boa,
Para entrar na faculdade,
Para que entrar na faculdade,
Para ser alguém na vida,
Para que ser alguém na vida,
Para sobreviver,
Para ter um salário,
A gente vai colocando cada vez mais a vida lá para frente,
Lá para frente,
Cada vez a gente vai perdendo mais de vista a vida palpável do momento presente aqui,
Então uma das práticas de atenção plena é justamente essa,
A gente faz a coisa pela coisa,
Ou seja,
Não tem um descarte mental daquilo que eu tô fazendo,
Porque aquilo não tem valor,
É só um meio para um fim,
Me lembra um pouco até o movimento da arte pela arte,
A questão da gente fazer arte não porque é bom para outra coisa né,
Mas pela própria prática de apreciação da arte em da vida em si,
A arte muitas vezes é uma prática de apreciação sensorial da vida,
E aí a gente tem isso né,
A gente perde essa noção do aqui e agora,
Com essas coisas todas né,
Que puxam a gente para estar sempre chegando a algum lugar,
Até que um dia para chegar no lugar,
Tem um emprego para conseguir a promoção,
Para virar chefe e aí de repente passaram-se 50 anos e a pessoa chegou neste lugar né,
Que lugar é esse que ela chegou,
E ela não consegue chegar mais no momento presente,
Porque ela está viciada em chegar no outro lugar agora,
Agora que ela chegou ali tem que ter alguma outra coisa para alcançar,
Tem que ter algum outro objetivo para dar sentido para aquela vida,
Daquela pessoa que só sabe colocar,
Só sabe tirar prazer da conquista de algo,
Sem perceber que já tem um tesouro ao redor dela 360 graus,
Que uma criança consegue perceber com mais facilidade,
E aí por isso que tem tanta literatura,
Tanto poema que fala da perda,
Da inocência,
Da infância,
Do frescor da vida quando a gente ainda é criança né,
E existem algumas passagens na bíblia,
Em que Jesus teria dito,
Que não poderá entrar no reino dos céus quem não for,
Quem não se fizer como uma criança,
E aí há sempre debate sobre o que ele quis dizer em relação a isso,
Mas se você trouxer de volta a ideia que eu coloquei,
De que a criança está ali entretida naquele chuveiro,
Naquele banheiro,
Tomando aquele banho,
E super divertido,
E super sabe,
Ela já está no paraíso de certa forma,
Ela já está totalmente engajada com esse prazer do momento presente,
Que não tem em si um objetivo nenhum,
Tem esse chegar a algum lugar,
Ela já chegou,
Ela já está,
Ela já é,
E esse comportamento da criança muitas vezes é,
É isso que traz essa ideia de paraíso perdido né,
A infância do paraíso perdido,
E quanto mais a gente conseguir trazer de volta essa degustação,
Essa apreciação da coisa pela coisa,
Seja o que for que a gente está fazendo,
Um certo respeito pelas coisas,
Uma admiração,
Uma consagração,
Sensação de sagrado,
Sensação de vida,
De presença,
De energia,
De que aquilo,
De que as coisas são seres vivos de certa forma,
São vibrações né,
Tudo está vibrando,
Tudo tem elétron vibrando,
Se a gente falar no nível material,
Mas tudo é energia também,
Condensada ou não né,
E a gente vai tratando as coisas ao redor,
Essa é uma prática de atenção plena,
Com essa reverência né,
E eu estou falando várias palavras aqui,
Porque são apenas indicadores do que é esse sentir,
Porque as palavras em si não apontam exatamente para o que é o real,
E esse contato com o real,
Por isso que é necessário esse silêncio,
Tão pedido em meditação,
Em atenção plena,
Porque tira esse intermediador que é o narrador mental,
Que põe as palavras para tentar controlar a realidade para já chegar em algum lugar,
E voltar para esse não preciso chegar em lugar nenhum,
Preciso sentir,
Que nem eu falei,
Degustar,
Usar os meus 5 sentidos ou mais,
6 de repente,
Para estar em contato com essa realidade ao meu redor,
Sem precisar lutar contra ela,
Sem precisar buscar nada além dela,
Essa é uma prática de atenção plena.
Então essa é a minha inspiração aqui,
Que no momento me veio e resolvi gravar e compartilhar.
Um abraço.
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