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Tokenismo e Seus Desdobramentos na Saúde Mental

by Akoma: Afromeditacao

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Neste podcast os psicólogos facilitadores do grupo de mindfulness e autocompaixão para população negra, debatem sobre um tema recorrente em empresas e que é uma forma de racismo estrutural: o tokenismo. Você sabe o que é isso e como afeta a saúde mental de pessoas negras?

Transcrição

Eu sou a Kiki,

E junto com o Kainan,

A gente tá começando Conversas Acoma.

O Acoma é um grupo de meditação e autocuidado pra população negra.

E ele é um grupo de prática meditativa,

Mas também de partilha.

E pensando nas nossas partilhas,

A gente decidiu que seria legal a gente estender esse momento.

Por isso,

A gente tá fazendo esse momento de conversa.

Aproveito pra agradecer você,

Que tá nos ouvindo agora.

E aproveito pra introduzir o Kainan,

Que vai conversar com a gente um pouquinho.

Kainan.

Meu nome é Kainan.

Eu sou muito grato por estar aqui.

E antes de falar um pouquinho de mim,

Eu vou fazer uma coisa que eu sempre faço quando a gente tá falando,

Quando a gente tá conversando de forma genuína.

E acho que eu tenho sorte de estar fazendo isso pra quem quer que esteja me ouvindo agora.

E contigo,

Kiki.

E isso é um contrato entre nós.

Um contrato que define um pouquinho de onde a gente fala,

De onde é que a gente vem.

Inclusive,

Talvez,

Pra onde a gente deseja ir.

Até onde eu sei,

Mesmo não te conhecendo,

Pessoa querida que tá ouvindo.

Provavelmente,

Tu é humana.

Tu é uma pessoa,

Assim como eu.

Agora,

Ser humano,

Pra mim,

Tem sido uma tarefa bem árdua.

Acho que até mais nesses últimos anos com as coisas que têm rolado aqui no mundo e no Brasil.

Viver como um ser humano envolve sempre sofrer.

Sofrer e tentar não sofrer.

Tentar não sentir dor.

Juntos,

Aqui,

A nossa ideia é tentar aliviar e prevenir um pouco dessas dores.

Porque,

Às vezes,

As estratégias que a gente aprende pra nos afastar de dor,

Elas não funcionam como a gente gostaria.

E é por isso que aqui,

Através da nossa partilha,

A gente tenta desenrosar algumas dessas estratégias que não funcionam mais.

Pra que a gente possa escolher outros caminhos.

Caso tu tente fazer isso,

É o suficiente.

Já é de serviço pra mim e eu espero que seja de serviço pra ti também.

Eu sou o Kainá.

Eu sou psicólogo.

Eu tenho uma passagem por vários grupos que estudam e divulgam técnicas práticas de meditação,

Treino de atenção e cultivo de compaixão.

Tem várias siglas,

Mas eu não vou cita-las aqui pra gente não entrar numa parte mais chata.

Eu sou especialista em terapias cognitivo-comportamentais e eu sou uma das pessoas que acaba facilitando o Acoma.

Tenho a sorte de estar aqui com a Kiki.

Kiki,

Quem sabe tu fala um pouquinho de ti e dos teus maravilhosos feitos.

Então,

Vocês já sabem que eu sou a Kiki,

Também sou psicóloga.

Eu trabalho com abordagem cognitivo-comportamental e também abordagem sistêmica integrativa.

Eu faço parte da Association of the Black Psychologists e sou também estrutura de yoga.

Junto com o Kainá,

A gente facilita o Acoma,

Que como eu expliquei no início,

Ele é um grupo de meditação e autocuidado pra população negra e ele é um grupo semanal,

Gratuito.

Queria introduzir o nosso tema de hoje.

A gente vai estar falando sobre uma questão que é super importante,

Que é sobre o tokenismo.

Talvez esse seja um nome novo pra ti que tá ouvindo.

Talvez ele não seja assim tão novo.

Mas com certeza ele é um nome não comum no português.

E talvez a palavra token a gente pode traduzir como símbolo ou como um totem.

E esse termo foi pela primeira vez usado em 1962,

Pelo Dr.

Martin Luther King,

Quando ele escreveu um artigo falando sobre o caso contra o tokenismo.

E ele vai estar falando especificamente do momento dos Estados Unidos,

Onde estava acontecendo um momento de integração das pessoas que antes eram segregadas.

Então,

Como por exemplo,

Uma integração nas escolas.

Nesse momento,

As escolas passam a precisar aceitar crianças negras.

Mas então elas acabam fazendo um sistema,

Que é o que a gente chama de tokenismo,

Que é,

Eles começam a só aceitar crianças negras que são extremamente excelentes ou excepcionais naquilo que elas fazem.

E isso faz com que essas crianças negras sejam retiradas das suas comunidades,

Separadas dos seus pares,

E elas acabam ficando isoladas,

Sozinhas,

Dentro de uma instituição com apenas outras crianças brancas.

E esse processo traz uma série de questões,

Tanto pra essa criança negra quanto pra escola que a recebe.

E a gente vai estar falando um pouquinho sobre isso.

Então,

Querido,

Querida,

Queride que nos ouve nesse momento.

Acho que a introdução da Kiki se presta a dar uma palhinha do que nós vamos discutir hoje.

Pra que a gente possa se aprofundar,

É importante que a gente tenha uma definição a compartilhar sobre o que é racismo.

Grosso modo,

Não vou me estender aqui porque o assunto é complicado e precisamos seguir em frente,

Grosso modo,

O racismo consiste em dividir seres humanos em grupos e considerar que um determinado grupo é superior aos outros e que deve adquirir e manter poder e privilégios em relação a esses outros.

Só que racismo,

Aqui no Brasil,

Muitas vezes a gente aprende que ele é apenas grosseiro e interpessoal.

É quando alguém pega,

Olha pra mim,

Cara negro,

Na rua e me xinga,

Por exemplo.

Só que o racismo existe em outras esferas também.

O racismo pode ser institucional,

Ou seja,

Agir pela maneira como as regras de certas instituições e coletivos funcionam deixando com que certas pessoas consigam lugares de poder e os mantenham enquanto que outras pessoas são excluídas.

Ou até estrutural,

Ou seja,

A maneira pela qual as estruturas da sociedade são construídas para manter certas pessoas no poder.

Então,

Vamos pegar e parar e pensar nessas esferas um pouquinho maiores do que o racismo individual ou interpessoal de uma pessoa atacando a outra,

Violentando a outra,

Tendo algum preconceito ou uma discriminação sobre a outra.

O racismo,

Dentro do tolkienismo,

Está na esfera mais pra institucional e estrutural ou seja,

É uma maneira de relação entre a pessoa negra e alguma instituição ou coletivo no qual essa pessoa negra acaba sendo um token de tolkienismo.

Token quer dizer símbolo ou significado ou emblema.

Essa relação é uma maneira sofisticada na qual a instituição parece progressiva enquanto que gênero,

Raça ou qualquer outra configuração que continua mantendo uma hierarquia não muda.

A instituição continua agindo da maneira que agia antes,

Mas ela parece estar fazendo algo legal.

Vamos pensar,

Por exemplo,

Em alguma propaganda em que começa a aparecer um corpo diferente,

Um corpo negro mas depois a gente descobre que se essa propaganda for de roupa,

Que ainda tem trabalho em condições de escravidão nos seus atelieres.

Parece que está rolando alguma questão progressista,

Que as coisas estão mudando para melhor porque na propaganda aparece a pessoa negra,

Mas ainda assim há formas de discriminação horrendas acontecendo por baixo dos panos.

A instituição parece que mudou e o símbolo dessa mudança é a pessoa negra,

Mas na verdade a estrutura permanece a mesma.

Essa relação entre a instituição,

O patrocinador,

O coletivo e a pessoa negra que é usada como símbolo é o que nós vamos discutir hoje,

O tolkienismo.

Como a gente falou,

O tolkienismo é uma relação entre a instituição ou a pessoa que representa a instituição no caso que a gente vai estar falando aqui,

A pessoa branca,

Mas ela também pode se aplicar para homens,

Por exemplo ou para qualquer tipo de classe dominante e uma,

Entre aspas,

Minoria.

Mas então,

Nesse caso,

A relação que acontece é entre a pessoa branca ou a instituição branca e o tolkien,

Que é uma pessoa negra.

Uma das primeiras partes desse acordo ou dessa relação,

Ela acontece por aquilo que a gente explicou antes,

Por exemplo,

Das escolas.

Acontece a questão da excepcionalidade ou do excepcionalismo.

A pessoa negra que chega dentro da instituição ou que é colocada nesse lugar pela instituição,

Ela apresenta um grau muito alto das qualidades que são esperadas pela classe dominadora.

Então,

Ela não é uma pessoa comum só colocada para este cargo,

Ela é uma pessoa excepcional.

E isso gera uma série de questões que impactam a pessoa negra.

Primeiro,

Ela se sente feliz por ser especial,

Por exemplo,

Por estar sendo concedido um cargo nesse espaço pelos atributos que ela tem,

Por ela ser excepcionalmente boa naquilo que ela faz.

Ao mesmo tempo que a pessoa,

A instituição,

Vai cobrar dela essa excepcionalidade e vai usar isso como uma marca de referência para essa pessoa.

Por exemplo,

Muitas pessoas negras que ocupam lugares,

Sendo as únicas pessoas negras em seus espaços de trabalho ou num coletivo,

Elas vão se referir e referir situações em que elas estão em alguma situação e uma pessoa branca vem e diz Ah,

Essa pessoa é muito foda,

Ela é incrível.

Isso,

Num primeiro momento,

Parece um grande elogio,

Né?

A gente se sente bem quando alguém diz e diz pra gente,

Você é muito foda,

Você é incrível.

Mas a gente não percebe que esse comentário,

Ele já vem embutido de uma cobrança também.

Então,

A pessoa negra,

Ela não pode só ser ela mesma,

Ela precisa ser excepcional.

E isso gera uma carga psicologicamente pesada pra essa pessoa.

Então,

Isso pode gerar,

Por exemplo,

A criação de uma ansiedade exagerada com relação a todas as questões.

Afinal,

Tu não pode errar nunca e tu não pode não só errar,

Como tu precisa entregar não só o teu trabalho como um trabalho excepcional,

O tempo todo,

Pra cumprir esse lugar que foi te dado da pessoa incrível e foda.

E isso vai trazer um prejuízo pra ti,

Porque tu vai ficar o tempo inteiro em estado de alerta,

Tentando cumprir essa função,

Tentando ocupar esse lugar.

Então,

Isso vai,

Aos pouquinhos,

O espaço de ser uma pessoa especial,

Ele vai te custar algumas questões emocionais e principalmente psicológicas de saúde mental.

Ao mesmo tempo que a instituição,

Ela não tá perdendo com isso.

Na verdade,

Ela só tá ganhando muito e ela não está dando pra pessoa negra algum espaço de suporte ou cuidado.

E ela nem está atenta a isso,

Ela acha que ela dando esse lugar de excepcionalidade ou esse lugar especial pra essa pessoa negra,

Ela tá fazendo uma coisa maravilhosa,

Ela tá fazendo um ato de muita generosidade.

Como é o caso,

Por exemplo,

De instituições que vão começar a fazer suas contratações de diversidade.

Elas pensam que elas estão fazendo um ato generoso,

Um ato conectado com o novo mundo que a gente está,

Um mundo que pensa em questões políticas,

Um mundo que percebe as suas desigualdades e isso é verdade.

Mas só contratar pessoas negras não é o suficiente,

Porque a gente precisa entender que existe um sistema por trás disso,

Como o Caína falou,

Que é um sistema racial e ele é baseado no racismo.

E esse sistema que é baseado no racismo,

Ele nunca vai olhar pra pessoa negra exatamente igual a pessoa branca.

Então,

Ao mesmo tempo que existe essa contratação,

Existe uma contratação com um peso maior.

Eu estou contratando essa pessoa negra,

Eu estou contratando essa pessoa não só pro cargo dela,

Mas pelo que ela representa,

Pela causa que ela representa,

Pelo símbolo que ela representa.

E,

De novo,

A gente traz essa pessoa pra esse lugar de,

Se ela é especial,

Ela se desconecta da sua comunidade,

Porque ela é a única especial dentro da sua comunidade e especial o suficiente pra caber nesse lugar.

Então,

Além de existir uma morte da autenticidade dessa pessoa,

No sentido de que ela nunca pode ser ela mesma,

Ela precisa ser um super representante dessa causa,

Ela também acaba se desconectando dos seus pares,

Porque ela está ocupando um lugar solitário.

É importante pensar que se a gente tem uma exceção,

É uma exceção ou uma regra,

Né?

É algo que desponta de uma regra.

E qual é a regra,

Não dita,

Mas muitas vezes acreditada,

Que opera nesse tipo de espaço pra que exista excepcionalidade num corpo negro performando bem,

Ou ainda,

De forma excelente uma tarefa.

Eu não consigo deixar de te escapar de lembranças da minha presença na faculdade e de perceber o quanto a minha possibilidade de falar bem,

De ter uma oratória boa,

De conseguir organizar verbalmente algumas coisas,

Entregar conteúdo bem desenvolvido em aula,

De fazer crítica ou algo nesse sentido,

O quanto era não único,

Na verdade,

Porque existem muitas pessoas na faculdade que fazem isso,

Mas quando era voltado pra mim esse olhar,

Havia uma aura,

Uma mística de excepcionalidade.

Como se mesmo com tudo aquilo,

E aquilo nunca dito,

Aquilo nunca mencionado,

Mas mesmo com tudo aquilo,

Ainda assim havia uma excepcionalidade,

Uma excelência ali.

E isso acaba trazendo uma ambivalência que a Kiki descreveu muito bem.

Ao mesmo tempo,

A ideia de ser um super-homem que venceu as adversidades,

Aquele estudante da reportagem da Globo que conseguiu estudar 18 horas por dia pra passar em medicina,

E por outro lado,

Todas as mutilações que tem que fazer pra continuar ocupando esse espaço de mísera aceitação ou tolerância.

Então,

Queridas,

Queridas,

A partir do exemplo que falamos sobre excepcionalidade,

Acho que podemos passar pra um próximo ponto que define tolkienismo.

E esse é parecido com excepcionalidade,

Mas a diferença é importante.

Falaremos sobre individualidade ou individualismo.

Pra que o tolkienismo funcione,

É importante que o Tolkien,

Ou seja,

O corpo negro que está performando esse símbolo a favor da instituição,

Que ele ache que ele é desconectado do seu entorno,

Que ele ache que ele não é fruto de causas e de circunstâncias que o levaram até ali,

Mas sim que ele meio que apareceu do vácuo,

Que ele funciona sozinho,

Isolado do sistema,

De forma ainda mais excepcional.

Kiki,

Querida,

Pode contemplar,

Compartilhar com a gente o exemplo que a gente conversou antes,

Porque eu não acho que eu vou falar tão bem sem ele.

Eu acho que tem uma frase que eu gosto muito do texto que a gente está lendo com relação ao Tolkien,

Que a professora Judith Laws fala que o individualismo envolve a crença de que todos os resultados são o resultado do esforço individual.

O sucesso é a própria conquista e o fracasso a própria culpa.

A origem,

O gênero,

A cor,

Não é reconhecida como relevante para suas conquistas ou fracassos.

Pensando nessa questão do individualismo,

Eu também pego um exemplo da universidade,

A gente fez faculdade juntos e eu lembro de ser uma pessoa que lia muito ou que estudava muito e isso me rendeu muitos frutos,

Inclusive de fazer parte de grupos de pesquisa muito cedo.

Eu me lembro de uma situação específica em que eu apresentei num salão de iniciação científica,

Onde a gente se prepara,

A gente vai,

A gente lê todas as informações,

A gente tem slides e eu fui,

Estava bem nervosa,

Apresentei e depois da minha apresentação,

Muitas pessoas vieram me parabenizar,

Inclusive uma professora que era de alto escalão da faculdade e ela disse que eu era maravilhosa e ela falou,

Você é excepcional.

E nesse momento,

Foi um momento em que dentro da minha cabeça eu fiz um pacto e eu estava começando a acreditar exatamente nisso,

No fato de que eu,

Por mim mesma individualmente,

Tinha por estudar muito,

Por ler todos os textos,

Tinha tido a capacidade sozinha de estar nesse lugar.

O que sim,

Isso é uma boa parte de porque eu consegui falar nesse salão de iniciação científica,

Mas isso anula que eu só consegui estar lá primeiro por um esforço grande dos meus pais,

Para que eu pudesse estar lá,

Para que eu pudesse ter estudado.

Eu só consegui ter esse nível de confiança em mim mesma,

Porque eu faço parte de uma comunidade que me lembra todos os dias de que eu sou uma pessoa negra e que eu sou uma pessoa negra que pode ser quem quiser.

Diferente da minha avó,

Por exemplo,

Que dentro da sua existência ela não conseguia,

Por exemplo,

Ir no posto de saúde e ser atendida por um médico negro,

Porque ela tinha introjetado dentro da cabeça dela e ela dizia isso,

Eu sei que a gente não é capaz de ser médico.

E a minha avó não entendia porque a gente ia para a faculdade,

Porque ela achava que a gente era muito boa para limpar uma casa,

Para fazer uma comida,

E ela falava isso para a gente.

Então,

Dentro da cabeça da minha avó,

Ela introjetou que a gente não era possível de ocupar esses lugares.

Então,

Eu só estava na universidade e eu só estava podendo apresentar no salão de iniciação científica,

Primeiro,

Porque houve um esforço geral da minha comunidade e ações afirmativas que fizeram com que eu entendesse que eu tinha capacidade de estar lá,

E isso não é um mérito meu,

Isso não foi uma conquista individual,

Isso foi algo que eu peguei e que foi passado para mim.

Claro,

O fato de eu ter estudado,

O fato de eu fazer parte de um grupo de pesquisa,

Isso tem muito da minha prática individual,

Mas eu não fiz isso sozinha.

E mesmo se eu pegar a apresentação que eu fiz no salão de iniciação científica,

Eu não estava sozinha,

Era parte de uma pesquisa que eu fazia com outras pessoas.

Então,

Essa é uma questão que é muito difícil para a gente,

Porque ao mesmo tempo que a excepcionalidade está lá para nos dizer e para apontar que a gente é especial,

Isso faz com que a gente pegue essa informação e individualize isso,

Só que isso acaba nos separando ainda mais dos nossos pares e da nossa comunidade,

Fazendo com que a gente tenha um buraco,

Ao mesmo tempo que para a pessoa branca ou para a instituição,

Mantém oculto esse lugar de por que a pessoa negra precisa ser exceção,

E por que ela precisa ser individual,

Por que não são todas as pessoas negras que estão aqui,

E se tem um número muito grande de pessoas brancas,

Né?

Mas para que a gente não faça esse tipo de pergunta,

É preciso da excepcionalidade,

E é preciso que a gente acredite no individualismo,

Na nossa capacidade individual de estar lá,

Ao mesmo tempo que o nosso fracasso também é a nossa própria culpa,

Não existe falta de acesso da empresa,

Por exemplo,

Ou falta de políticas da empresa de integração das pessoas negras,

Não,

Isso é considerado como o seu fracasso individual.

Então,

É importante a gente olhar que o individualismo atua dos dois lados,

Tanto fazendo com que o Tolkien acredite que ele,

Por sua capacidade individual,

Chegou lá,

Mas ao mesmo tempo isenta a instituição,

Ou mesmo o sistema no qual a gente vive,

Do que realmente importa,

Que é a não distribuição de acesso de privilégios para todas as pessoas.

Eu acho importante a gente perceber como esse processo,

Ao mesmo tempo que nós estamos enfocando no corpo negro,

Que passa por ele diretamente e que acaba se transformando num símbolo,

Num token,

O quanto ele passa por uma espécie de propaganda,

Inclusive,

Para a pessoa branca.

Se tu contra-argumentar em relação a essa ideia de conexão,

De causas e de circunstâncias,

De ficar olhando de uma perspectiva menos míope para as razões pelas quais as coisas são do jeito que são,

A pessoa branca imediatamente teria que fazer alguma reflexão também,

De,

Bom,

Talvez eu esteja no topo dessa empresa não porque eu mereci,

Mas porque eu tive uma série de circunstâncias históricas que foram me levando facilmente para esse lugar.

E facilmente não quer dizer sem sofrimento,

Mas com mais facilidades do que outras pessoas teriam para tentar ocupar o mesmo posto.

O individualismo tem então essa essência,

Uma ideia de desconexão,

De que nós somos pessoas que fazem a si próprias independente das circunstâncias ambientais,

Pois é que nós sabemos que não é assim.

Do ponto de vista biológico,

Do ponto de vista social,

Do ponto de vista psicológico,

Nós somos informados pelo que está em volta de nós,

Pelo que veio antes de nós.

E esquecermos disso é muito fácil nessa sociedade que vivemos,

E causa efeitos terríveis,

Faz com que sejamos presa desse mito.

Um mito que vamos discutir logo a seguir.

Então pensando nessa questão do individualismo,

É legal a gente pensar que existe uma terceira coisa que permeia a relação do tolkienismo,

E ela está diretamente ligada com esse comportamento individualista,

Ou essa ação individualista,

Ou essa crença individualista,

Que é a mística meritocrática.

Então tem uma frase desse texto que a gente vem conversando,

Em que ela diz o seguinte,

Enquanto o grupo dominante acredita que sua presença na instituição,

E da presença de pessoas que se assemelham a ele,

Se baseia em padrões meritocráticos,

Não há nada a se preocupar.

A falta de diversidade é vista como falta de excelência fora do grupo dominante,

Não como uma falta de acesso para dentro do grupo dominante.

Eu acho essa frase muito impactante,

Porque ela me dá uma impressão meio matrix,

Sabe?

Quando o Morphéu está andando na rua e ele está falando do sistema,

E sobre como inclusive as pessoas que estão nesse sistema,

Elas irão lutar para defendê-lo.

Ora,

Quando a gente está falando sobre tolkienismo,

Talvez tu,

Pessoa que lida,

Já saiba sobre o assunto e está nos ouvindo,

Só para reforçar as suas ideias,

Para torná-las mais nítidas,

Mais detalhadas.

Mas quantas vezes a gente vai tentar conversar sobre isso com outra pessoa,

E ela defende as suas ideias com unhas e dentes,

E muitas vezes sobra de unhas e dentes e falta de argumentos,

Né?

Para isso,

Eu acho que é importante a gente poder pensar nessa frase.

Kiki,

Leia ela de novo para nós,

Por favor.

Claro.

Enquanto o grupo dominante acredita que sua presença na instituição,

E da presença de pessoas que se assemelham a ele,

Se baseia em padrões meritocráticos,

Não há nada a se preocupar.

A falta de diversidade é vista como falta de excelência fora do grupo dominante,

Não como uma falta de acesso para que eles façam parte do grupo dominante.

Ao mesmo tempo que nós lutamos para sentir menos dor,

E fazemos isso buscando derrubar essa espécie de mito de meritocracia,

Dependendo da pessoa com quem nós estivermos nos relacionando,

Essa pessoa vai estar lutando para manter esse mito.

Porque esse mito pode inclusive ter a ver com como essa pessoa outorga valor a si mesmo.

Como a Kiki leu,

Belamente,

Não há nada com o que se preocupar à medida que a gente pensa que a gente está ali porque nós merecemos.

E muitas vezes é isso que nós somos ensinados a acreditar.

É por isso que nós temos que ter muita tolerância com nós mesmos nesse momento,

Porque é o momento de estremecer-se,

Quando a gente percebe que talvez a gente não mereça tanto estar naquele lugar.

Talvez a gente não tenha um senso tão especial.

Talvez a gente não seja tão excepcional.

Talvez a gente não tenha nascido ideado.

Talvez nós sejamos fruto de condições e circunstâncias de pessoas que nos amaram e que nos levaram até ali.

E essa é uma forma diferente de olhar,

Inclusive,

Do que nós somos muitas vezes ensinados,

Dentro da ótica supremacista branca,

Que traz uma questão de meritocracia muito forte,

De que se nós estamos em algum lugar,

É porque nós o merecemos,

Porque nós o conquistamos.

Inclusive,

Muitas vezes,

Nem isso é o suficiente para nós,

Que acabamos pensando que estamos em um certo lugar com alguma espécie de migalha colocada para nós.

Não é uma questão de merecer ou não merecer.

É uma questão de tu estar ali e de estar ocupando um espaço.

O mérito acaba sendo uma moeda muito ruim para pegar e te ofertar valor.

Querido,

Querida,

Queride,

Me ouça nesse aspecto.

Isso é um mito.

Isso é uma falsidade.

E é muito sedutor acreditar nisso,

Porque às vezes a gente acaba crescendo achando que é um grande mercado,

Que a gente já tem um valor que está abaixo desse mercado,

E que nós temos que subir com tudo que a gente pode para ter um pouquinho de valor e ser comprado,

Ser aceito,

Ser amado.

Isso é um mito.

O teu senso de humanidade,

O teu valor enquanto pessoa,

Isso não tem como desaparecer.

Isso não tem como desaparecer,

Isso não tem como ir embora.

Isso não tem como ser destruído.

Mas é uma coisa que muitas vezes vai ser alienada,

Ou seja,

Vai ser tornada estranha,

Vai ser tornada diferente,

Vai ser tornada até fantasiosa.

Talvez você esteja me ouvindo e me achando esquisito.

Eu não te peço para acreditar em mim,

Mas eu te peço para experimentar.

Se o teu valor de fato muda a partir de coisas tão exteriores.

Isso é um mito.

Isso é um mito,

Kito.

Acho que é importante a gente levar em consideração aqui que a estrutura mantém esse espaço da mística meritocrática,

Porque é importante para ela acreditar nisso,

É importante para que exista manutenção e para que não exista um sentimento de culpa e de mudança.

É preciso que essa mística meritocrática esteja ali,

Para o grupo dominante.

Mas para a gente,

Para os tokens que ocupam esse lugar,

A gente muitas vezes se dá conta de que isso não é verdade,

Que a gente precisa trabalhar muito mais vezes.

Então,

Isso não tem a ver só com o nosso mérito,

Mas o quanto a gente é excepcional,

O quanto a gente precisa trabalhar muito mais do que uma outra pessoa branca que está no mesmo cargo que a gente.

Mas o que acontece é que como a gente é distanciado dos nossos pares,

Existe uma separação ali.

A gente está num ambiente hostil,

Qualquer tipo de validação ou de reforço positivo que a gente recebe,

Isso vai ditar o quanto a gente se sente bem naquele espaço.

Ser especial naquele espaço é uma coisa que nos atribui valor.

A gente se sente amado,

A gente se sente querido nesse lugar.

E é por isso que a gente muitas vezes acaba tentando proteger esse lugar,

Inclusive agindo como escudos da instituição.

Quando a instituição recebe algum tipo de crítica ou alguém que talvez seja um token também começa a dizer sobre a falta de oportunidades que existe nessa empresa.

Porque esse questionamento afeta aquelas pessoas que dizem que a gente é especial.

A gente acaba agindo como escudo e a gente quer proteger essas pessoas sem se dar conta disso que o Kainan falou.

Isso é uma ilusão.

O reforço que eles nos dão,

Na verdade,

Só mantém o privilégio dos privilegiados.

Eles não estão nos dando esse reforço porque,

De fato,

Se acredita nisso.

E,

Muito mais do que isso,

Está usando o sistema racial na qual a gente recebe muito ou quase nada de afeto.

Para manter esse privilégio,

A gente recebe um pouquinho de afeto e a gente acha que a gente precisa proteger isso.

E aí a gente acaba agindo dentro desse lugar e,

Muitas vezes,

Ferindo pessoas como a gente.

Então,

É importante a gente estar atentos a essa dinâmica que também acontece.

É sedutor a ponto de a gente fazer o trabalho do nosso opressor em busca de uma coisa que todos nós queremos,

Que é a aceitação,

Que é a valorização,

Que é,

Enfim,

Ser amado conforme o que a Kiki trouxe.

Nossa,

É muito difícil porque,

Muitas vezes,

A gente não tem outros meios de alcançar essas sensações.

Eu sinto que é como se a gente fosse uma criança e tivesse um cuidador ou alguém que era para ser cuidador que nos maltrata muito,

Mas,

Mesmo assim,

A gente faz tudo o que a gente pode para proteger.

É uma cena muito torta porque,

Na verdade,

O que nós precisamos não é dessa forma de cuidado,

Dessa forma de relação que nos está sendo ofertado.

E não é o nosso lugar de proteger essas maneiras de relação.

Às vezes,

É como se estivessem nos atacando.

O único lugar que a gente foi aceito,

O único lugar,

Às vezes,

Que nos deu alguma coisa que a gente gostava é estar lá ouvindo críticas.

E é quase como se nós estivéssemos mesclados à instituição,

Mesclados à empresa,

Mesclados ao coletivo,

Ao grupo,

Mesclados ao chefe.

E,

Nesse momento,

A gente acaba fazendo o trabalho da instituição para ela.

A gente acaba se queimando para que ela não se queime,

Inclusive com ela podendo dizer,

Mas eu não posso ser racista,

Afinal eu tenho um negro,

Eu tenho uma negra,

Eu tenho uma pessoa ali e ela está gritando a plenos pulmões que fizemos tudo por ela.

É com esse tipo de comportamento,

Às vezes,

Que a gente faz manutenção de fronteiras.

E essa é uma das partes que eu acho mais dolorosas do tokenismo,

Porque,

A partir desse momento,

A gente,

Às vezes,

Está institucionalizado.

A gente está mesclado junto com o coletivo e a gente defende o coletivo como se ele fosse a nossa pele,

Como se ele fosse o nosso corpo.

É quase como se a gente tivesse sido cooptado.

Eu vou voltar para o exemplo da Matrix,

Que eu adoro.

É nesse momento que,

Às vezes,

A gente acaba,

Sem querer,

Virando um dos agentes da Matrix.

Pensando nisso,

Eu tenho um exemplo para dar dentro dessa situação e que envolve a minha mãe e a relação com a minha mãe.

A minha mãe foi uma pessoa que sempre trabalhou,

Desde os sete anos e desde muito pequena.

E ela acabou,

Por alguns motivos do destino,

Indo trabalhar na casa de uma família,

Quando ela ainda era uma criança,

Cuidando de outras crianças como ela.

E nessa relação de trabalho,

Que é um pouco exploração também,

A minha mãe teve a oportunidade de estudar.

A minha mãe teve a oportunidade de fazer parte de um contexto que ela nunca tinha feito parte antes,

Que foi estudar numa escola privada,

Que foi receber educação,

Que foi aquilo que ela precisava para conseguir se libertar desse espaço de opressão.

A partir disso,

Minha mãe se tornou professora,

Minha mãe conseguiu fazer faculdade por causa disso.

E aí,

Sempre que ela fala sobre essa família,

Ela fala de um lugar de amor por essas pessoas ou de respeito por essas pessoas.

Enquanto,

Para mim,

Essa é uma relação muito violenta.

E isso foi,

Durante muito tempo,

Motivo de algumas discussões minha com a minha mãe e de eu também não entender o lugar da minha mãe,

De não entender a história dela.

Então,

Da minha parte,

Eu ter insensibilidade com relação à trajetória da minha mãe,

Mas porque eu escutava essa história e eu ficava com muita raiva dessa história.

Porque,

Como assim?

Eles te exploravam,

Eles exploravam uma criança,

Eles não te pagavam,

Eles te davam uma educação.

Tu não pode falar dessas pessoas com esse lugar.

Eu,

Do meu lugar,

Achando que eu estava arrasando,

Tentando digitar a história da minha mãe.

Hoje em dia,

Que bom que eu entendo isso,

Que bom que eu entendo e olho com amor para a história da minha mãe,

Porque foi por causa dessa história que eu consegui estar aqui também.

Mas,

De uma certa forma,

A gente pode olhar a minha mãe como esse espaço.

Porque,

Às vezes,

A gente acha que a pessoa que está,

Entre aspas,

Institucionalizada,

A gente pensa numa pessoa caricata,

Quase como o robô da instituição.

E,

Às vezes,

Isso é mais sutil do que a gente imagina.

A instituição está presente numa relação de afetividade.

E isso também pode existir na realidade do Brasil,

Por exemplo,

Quando as pessoas dizem mas ela é da família,

Quando essa pessoa é a empregada doméstica.

E aí,

Essa pessoa também se sente como pertencente a essa família,

Ao mesmo tempo que é explorada por essa família.

E existe uma fronteira aí que ela é real.

E ela é uma fronteira que nos afeta num lugar emocional.

E aí,

A gente não consegue.

.

.

Enfim,

A gente acaba protegendo essas pessoas,

Porque elas são pessoas que foram muito boas pra gente,

Sem conseguir entender que,

Sim,

Elas foram pessoas que,

Talvez,

Foram muito boas dadas as suas épocas pra gente.

Mas isso não tira o fato de que elas estavam utilizando o privilégio delas pra continuar privilegiadas e pra existir espaços de exploração.

Então,

A manutenção das fronteiras acontece nesse sentido.

E não só no sentido caricato de alguém que ocupa um espaço dentro da sua instituição,

Por exemplo,

Como,

Sei lá,

Foi contratado como analista de gestão,

É uma pessoa negra,

E vai acabar sendo também analista de gestão,

Mas também a pessoa que vai pensar a cultura da empresa,

A pessoa que vai ajudar a empresa se reorganizar e se repensar com relação às diversidades,

E vai fazer tripla jornada de trabalho,

Porque essa pessoa não tá fazendo só aquilo que ela foi contratada,

Né?

Ela tá fazendo aquilo que ela foi contratada,

Mudando a cultura da empresa,

E ainda ajudando o CEO a como ele pode criar políticas melhores para outras pessoas negras,

Porque essa pessoa também tá pensando que ela quer melhorar esse espaço pra outras pessoas negras que vão entrar,

Né?

Então a gente tá aí,

Talvez,

Quadruplicando a jornada de trabalho se a gente for parar pra pensar.

Mas isso é mais fácil da gente pensar dentro da manutenção de fronteiras,

Né?

E tem essa pessoa,

E essa pessoa vai agir de escudo pra quando a empresa recebe críticas com relação a,

Bom,

Se a empresa não é tão diversa,

Essa pessoa vai vir à frente e vai dizer,

É sim,

E eu tô fazendo esse trabalho,

E eu tô melhorando essa empresa,

Né?

Bate no lugar que é nosso,

Porque a gente tá fazendo esse trabalho,

Sem se dar conta que,

Na verdade,

Não.

A gente tá,

Sim,

De fato,

Fazendo esse trabalho,

Mas essa empresa precisa receber essa crítica pra melhorar também,

Né?

Então existe esse lugar.

Mas isso é mais fácil da gente pensar do que pensar,

Talvez,

Em estruturas como a da minha mãe,

Por exemplo,

Né?

Que são estruturas mais relacionais,

Afetivas.

E eu queria só trazer que essas duas coisas,

Elas existem,

Né?

Elas coexistem,

E isso também é manutenção de fronteiras.

Eu fico.

.

.

Eu fico pensando que,

Assim,

É uma relação abusiva,

Né?

Em que uma das pessoas detém muito poder na relação,

A outra detém pouco,

Mas como talvez seja a maneira pela qual a pessoa que detém pouco poder recebe alguma nesga de aceitação,

De amor,

De cuidado,

Dá muita vontade de proteger essa instituição,

Dá muito medo de sair dessa instituição,

Desse trabalho,

Desse coletivo,

Enfim,

Dessa relação com esse patrono,

Com esse patrocinador,

Seja ele qual for.

E aí,

Quando a gente deixa isso de uma forma acrítica,

Ou seja,

Vai se tornando automatizado,

A gente começa a fazer a gestão desse estigma.

A gente começa a proteger o sistema sem nem pensar muito sobre.

Quando aparece uma outra pessoa negra,

Inclusive,

A gente é super crítico com ela,

Porque é quase como se fosse um sistema Highlander,

Em que só pode haver um,

E a gente fica numa ideia de competição,

Como se fôssemos,

Como se fôssemos de fato ter espaço para um só.

A empresa não muda a maneira como ela funciona,

Ela simplesmente,

Talvez,

Aumenta e faz a gestão de alguns números a mais,

Conforme vai trazendo algum apreço do público,

Mas sem mudar de fato.

Sem que o poder político se move para mãos menos caucasianas.

É a partir desse tipo de lugar que eu penso em algumas coisas.

Pra ti,

Pessoa querida que está nos ouvindo.

O tokenismo fala que tu é um indivíduo excepcional.

Eu acho que tu é uma pessoa única e especial,

Mas não é mais,

Nem menos.

Tu tem uma construção pela história,

Pelas pessoas que te cuidaram,

Pelas pessoas que inclusive te machucaram,

Pelas circunstâncias que a gente gosta e que a gente não gosta.

Tu é construída pela história,

A história do teu corpo,

A história da tua região,

Da tua família,

De tudo.

Independente,

Às vezes,

Do tokenismo trazer a ideia de isolamento,

Tu não é uma árvore sem raízes,

Não tem raízes.

E tu tem valor e merece chuva e sol pra florescer,

Independente daquilo que tu possa vir a fazer.

Tu não merece isso porque tu é muito boa no teu trabalho,

Ou porque tu é muito ruim,

Tu não merece,

Ou algo assim.

Tu merece simplesmente porque tu existe.

Isso é o suficiente.

E pode parecer utópico,

Mas tudo bem,

Tenta só respirar isso uma vez.

Tu só existia o suficiente pra merecer e florescer.

Aceitação,

Cuidado.

Tu merece essas coisas,

Não pelo que tu faz.

Tu não é o grupo ou o que a sociedade faz de ti,

Mas o que tu faz a partir do que essa sociedade faz com a gente.

E tu não precisa ser um símbolo a favor de coisas que talvez não estejam linhadas com os teus valores.

Não precisa fazer a gestão de qualquer coisa que não seja tu.

Querida Kiki,

Uma pergunta importante dos nossos colaboradores.

Quer dizer então que é melhor não elogiar uma pessoa negra no meu trabalho porque vou contribuir para ela se sentir mal?

Não.

O elogio por si só,

Ele não é ruim.

Ele até pode ser bom.

O que depende é qual é a tua intenção por trás do elogio.

E se o teu elogio está a serviço de fortalecer por exemplo o excepcionalismo,

Que seja ou o excepcionalismo por fazer o Tolkien se sentir desconectado da sua comunidade,

Ou seja,

Ela é uma mulher negra bonita.

Ela é bonita para os padrões de ser uma mulher negra.

Então isso retira a comunidade dela,

Ao mesmo tempo que não faz com que ela se sinta bonita o suficiente para competir com uma mulher branca por exemplo,

Competir aqui usado só como a métrica desse sistema que a gente vive.

E o segundo fator é se através do nosso elogio a gente não está criando a expectativa de perfeição através desse Tolkien.

Por exemplo,

Quando esse Tolkien comete uma falha que acaba sendo pequena,

Se comparado por exemplo com o fluxo da empresa,

Mas a gente acaba super reagindo a isso,

Porque a gente está esperando que essa pessoa inclusive vai ler a nossa mente.

Ou a gente cria a partir desse elogio a expectativa de que essa pessoa sempre vai cumprir o papel da melhor pessoa do mundo,

E aí a gente reage de uma maneira ruim a partir de qualquer apresentação de uma falha.

Então a questão aqui é não é sobre elogiar ou não elogiar,

Mas estar atento ao que tu está fazendo e o que o teu elogio reforça.

Talvez junto com o elogio ter cuidado e preservar o espaço na qual a única pessoa negra ou diversa dentro desse espaço de trabalho possa se sentir à vontade para errar,

Para que está tudo bem se ela não ocupar sempre o lugar de excepcionalidade.

Vamos para a pergunta 2,

Então,

Que é,

Kainan,

Quer dizer que é melhor não contratar pessoas negras porque vivemos em uma sociedade meritocrática e isso vai levá-las a serem Tolkien sempre?

Olha,

A nossa sociedade certamente é difícil,

Então acho que vai ter sempre chance da gente acabar ferindo,

Agindo mal com as pessoas negras em função da maneira como a sociedade funciona.

Mas não contratá-las não é uma solução.

Uma solução muito melhor é a gente estar atento sobre como é que funciona o tolkienismo para não estar,

Por exemplo,

Ofertando tetos de vidro para alguém na empresa.

Ou seja,

Uma pessoa negra que entra,

Que acaba não se institucionalizando,

Que propõe coisas novas,

Talvez inclusive em relação a como as relações raciais se dão e a gente acabar não dando pra ela a chance dela crescer na empresa como daríamos pra alguma outra pessoa.

Contrate e seja consciente de como se dá essa contratação e como se dá o processo dessa pessoa na empresa.

É só isso.

Vamos para a nossa última questão,

Que é,

Quer dizer que todo afeto que pessoas brancas manifestam por pessoas negras no trabalho é para manipular e para proteger privilégios?

Pessoas brancas são maquiavélicas?

Pessoa querida que pensa nessa pergunta,

Que talvez esteja se julgando,

A resposta é não.

Não é uma questão de moralizar os processos em bem ou mal.

A gente tem uma sociedade muito antiga que funciona com essa linha de pensamento que é atravessada pelo racismo há muito tempo.

Não é uma pessoa boa por tentar lutar contra isso e não é uma pessoa má por seguir isso.

Mas o que acontece é que se tu não se responsabiliza tu certamente vai reproduzir isso.

E é isso que a gente precisa fazer.

Se responsabilizar pra que a gente possa se conscientizar e não repetir ou reproduzir coisas que acabam machucando pessoas que,

Enfim,

Querem sobreviver e florescer como nós.

Como todos.

Acho que é importante a gente olhar e aí eu volto no exemplo que eu dei sobre a minha mãe e sobre a minha relação com a minha mãe,

Que essa situação que ela vivenciou gerou uma conflitiva entre nós.

As pessoas que ocuparam o lugar de serem essa família que usufruiu do trabalho da minha mãe quando ela era uma criança elas nem sabem que a gente teve esse tipo de discussão.

Talvez elas estejam vivendo a vida delas em um outro lugar sem nem estar atentas a isso.

Elas continuam usufruindo do privilégio delas enquanto isso gerou uma série de conversas e talvez debates entre eu e a minha mãe que nos fez crescer muito,

Mas só porque agora eu consigo enxergar a partir dos olhos dela também e ela muito gentilmente me guiou dentro desse processo.

Mas o que a gente precisa entender é que essa relação do tolkienismo,

Quanto mais a gente compra esse espaço,

Mais a gente mantém o privilégio dentro das pessoas já privilegiadas,

Ainda privilegiadas e a gente recebe muito pouco pra proteger tanto pra eles.

E de novo,

Isso não tem a ver com a tua culpa ou com algo que tu precisa fazer pra mudar.

Tá tudo bem,

A gente acaba muitas vezes nos encontrando nesses emaranhados difíceis das relações.

E se tu se deu conta de coisas aqui nesse momento que tu pratica respira fundo toma um tempo pra refletir,

Mas não coloca mais uma carga de coisas que tu precisa fazer de coisas que tu precisa mudar.

Só respira,

Só toma um tempo pra entender o porquê tu tá fazendo isso.

Tá tudo bem,

O sistema faz com que a gente ocupe esse lugar.

É preciso que as pessoas que estão nos ouvindo agora que são pessoas aliadas brancas,

Que ocupam instituições cargos altíssimos dentro das suas instituições,

Reflitam que é o papel delas mudar esse sistema.

É uma relação entre duas partes?

Sim.

É uma relação entre o Tolkien e o patrocinador?

É uma relação entre o Tolkien e a instituição?

Sim.

Mas o Tolkien,

Ele acaba se relacionando dentro disso porque ele precisa.

É uma forma de sobrevivência dentro de um ambiente hostil.

É um comportamento adaptativo.

A gente pode olhar pra isso e perceber as limitações os prejuízos que isso traz e o quanto esse comportamento,

Ele serve pra reforçar esse lugar?

Sim.

Mas quem precisa fazer o trabalho de olhar pra si,

De repensar as suas práticas é a instituição.

As pessoas brancas que ocupam essa instituição.

Então fica aqui a minha dica pra quem tá nos ouvindo nesse momento que ocupa cargos de gestão e de organização dentro das suas empresas.

Antes de fazerem contratações diversas,

E isso não tem só a ver com fazer contratações de pessoas negras,

Mulheres,

Pessoas LGBTQ+.

Antes de fazer essa contratação,

Quem sabe vocês façam uma assessoria,

Uma consultoria pra mudar a estrutura da empresa de vocês.

Pra que a empresa ao contratar pessoas diversas não esteja reforçando de novo esse mesmo lugar.

Contratar pessoas diversas só pela necessidade de fazer isso não vai mudar o sistema que a gente vive.

Isso não é não é nenhuma política de mudança ou de progresso.

E isso no fim das contas,

Como a gente explicou aqui,

Pode só fortalecer esse sistema.

Então é preciso que se faça um trabalho muito minucioso dentro da empresa e que não se cobre das pessoas nas quais tu tá contratando pra entrar,

Pra estar dentro de um cargo que não tem a ver com diversidades ou com repensar a cultura da empresa fazer isso.

Essas pessoas foram contratadas pro cargo que tu contratou elas.

Outras pessoas precisam estar lá pra repensar a dinâmica da empresa,

Pra transformar essa empresa de fato numa empresa que vai receber as pessoas negras e diversas que vão ocupar esses lugares.

Então esse trabalho é teu.

E pras pessoas negras que se identificam nesse lugar de Tolkien que tão ouvindo a gente lembrem que vocês não estão sozinhos.

Lembrem da comunidade de vocês.

Encontrem espaços dentro das instituições com outras pessoas diversas na qual vocês possam se sentir unidos se sentir em grupo em comunidade.

Isso ajuda muito ajuda muito mesmo e faz com que se construam espaços sem a ótica da pessoa branca ditando como ou não tu deveria fazer.

Isso faz com que tu possa tomar decisões mais enraizadas em quem tu é.

Pessoa querida que está nos ouvindo nesse momento,

Obrigado obrigado por ter ouvido até aqui ouvir ouvir a gente nesse se for sobre um assunto tão difícil é um ato de amor na nossa direção.

É um ato de amor da nossa direção pra ti é um ato de amor de ti pra ti e certamente é um ato de amor de nós pra nós também porque tô olhando aqui o rosto da Kiki e parece tá com um sorriso acho que é vitorioso pra ela assim como é pra mim.

Eu quero agradecer especialmente ao Cleverton Borges que faz a edição do nosso podcast.

Sem ele essa aventura tecnológica seria uma desventura e eu espero que qualquer pessoa que tenha interesse em continuar ouvindo que saiba que antirracismo não é um objetivo antirracismo é um valor é uma direção,

É uma coisa que não termina.

A gente não dá check em antirracismo e está pronto.

A gente se afia a gente se treina a gente sofistica o que a gente pode fazer pra que a gente sofra menos pra que a gente faça os outros sofrerem menos e em algum momento eu espero que a gente possa descansar tranquilos.

Obrigado por tudo.

Obrigada pela presença de vocês,

Por nos ouvirem Obrigada ao Kainé por estar aqui comigo Obrigada ao Cleverton Nos vemos.

Obrigada por vocês estarem aqui com a gente até o fim É muita doçura É isso aí pessoal Vamos se amar bastante porque é uma coisa que a gente precisa pra seguir na luta Fiquem bem

5.0 (13)

Avaliações Recentes

Ana

March 22, 2022

Baita podcast!! Reflexões muito boas e referências muito boas

Vanessa

February 13, 2022

Foi muito esclarecedor pensar no tokenismo especificamente para relações profissionais.

Dulciane

January 30, 2022

Maravilhoso, obrigada pelos ensinamentos

Hélio

January 24, 2022

Parabéns pelo olhar e leveza. Pois se ganha espaço não com polarização, mas com conhecimento. Trazendo para consciência. Não todos que praticam algo ruim é intencional, apenas não conseguiu no ponto de clareza/dor do outro! Muito sucesso neste projeto lindo!

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