TENZO KYOKUNO Instruções para o Cozinheiro Zen EIHEI DOGENO Escrito na primavera do ano de 1237 pelo monge Dogeno que transmite a lei com a função de superior do mosteiro Kanon Dori Kosho Horinji.
Há séculos que os ensinamentos de Buda foram transmitidos no Japão.
No entanto,
Ainda ninguém se entraçou pelo método de preparação das refeições dos monges.
Os nossos antepassados não deixaram nenhuma recomendação a este respeito e os nossos sábios predecessores não incluíram este capítulo no seu ensinamento.
Nem é preciso dizer que nunca se fez menção às nove prostranações antes de servir as refeições.
Nem a sonhar alguém pensou nisso.
No nosso país,
Parece-me que as pessoas dão tanta importância à comida e à sua preparação como os animais às penas e ao pêlo.
É completamente deplorável.
Por que é que isto é assim?
Quando estive na China,
Aquando da minha estada no mosteiro do monte Tien Tung conheci um monge chamado Jung.
Originário desta região,
Ele era responsável pela função de cozinheiro neste mosteiro.
Um dia,
Depois de almoçar,
Quando me dirigia para o pavilhão de repouso seguindo pela Galeria Leste,
Dou com ele a secar os cogumelos diante da sala de Buda.
Ele tinha nas mãos uma vara de bambu e não trazia chapéu.
O sol tórrido queimava a terra.
Ele ia e vinha banhado em suor,
Virando e revirando os cogumelos com toda a energia.
Era um trabalho ingrato e esgotante.
Tinha as costas tensas,
Como um arco,
E as suas sobrancelhas brancas lembravam uma garça real.
Aproximei-me e perguntei-lhe.
Que idade tenho?
Sessenta e oito anos.
Por que não pedam um serviçal para se ocupar dessa tarefa?
O que faz um outro não é feito por mim.
Vejo que agirás por mim,
Vejo que agis de acordo com a regra dos antigos,
Mas por que executar esta penosa tarefa debaixo de um sol ardente?
Deixá-la para mais tarde?
Mas para quando?
Não sabia o que mais lhe dizer.
Continuei o meu caminho,
Ao longo da galeria,
A pensar naquilo que o cozinheiro havia acabado de me dizer.
As suas palavras tinham-me sensibilizado vivamente.
E,
No fundo de mim próprio,
Pressenti o grande alcance desta função.
Chegámos à China a meio de abril de 1223,
Mas eu fiquei algum tempo a bordo do barco no porto de Tsingyuan.
Um dia,
Nos princípios de maio,
Quando conversava com o comandante,
Apresenta-se um monge.
Ele tinha cerca de sessenta anos.
A finalidade da sua visita era comprar cogumelos aos mercadores japoneses que estavam a bordo.
Convidei-o para tomar chá e perguntei-lhe de onde vinha.
Ele disse-me que era cozinheiro no mosteiro do monte Haiyuan.
Sou originário da província de Shicheshuang,
Mas deixei a minha aldeia há quarenta anos e tenho agora sessenta.
Durante todos estes anos,
Viajei de um mosteiro para o outro,
Sem fixar em lugar nenhum.
Até o ano passado,
Em que conheci Kuyun Taochuan Kogun Doken,
O superior do templo Kuyun do monte Haiyuan.
Tinha vindo fazer-lhe uma visita e fiquei junto dele,
Compreendendo que até aquele momento havia desperdiçado o meu tempo.
No final do retiro de verão,
Fiquei responsável pela função de cozinheiro.
Amanhã celebra-se o quinto dia do quinto mês lunar e considerei que não tinha nada de bom para oferecer à refeição.
Pensei então fazer uma sopa de massa,
Mas não tinha cogumelos.
Foi por isso que vim expressamente aqui para os comprar.
Assim,
Poderia fazer uma oferenda a todos os monges nas dez direções.
Quando havéis deixado o mosteiro?
Esta tarde,
A seguir à refeição.
A que distância daqui fica o monte Haiyuan?
A quinze,
Vinte quilómetros.
Quando havés regressado?
A seguir a ter comprado os cogumelos.
O nosso encontro de hoje no barco é devido a circunstâncias fortuitas que nos permitiram conversar um momento.
Não será um acaso de bom augúrio?
Por favor,
Permita-me que o convide a passar a noite a bordo.
Devo regressar ao mosteiro para preparar a refeição de amanhã.
Se não vigio eu próprio a cozinha,
Isso não será bom.
Nesse grande mosteiro há com certeza alguém capaz de fazer a comida.
Apesar de tudo,
Podem passar sem o cozinheiro sem sofrerem agravos.
Esta função foi confiada ao velho homem que eu sou.
Digamos que é a minha prática de velho homem.
Como posso delegá-la noutra pessoa?
Além disso,
Não pedi autorização para passar a noite fora do mosteiro.
A vossa idade merece consideração.
Por que é que não vos consagrais apenas à prática de zazen ou ao estudo dos propósitos de mestres antigos,
Em lugar de vos dar-lhes a tanto afã como cozinheiro e de fazer-lhes apenas trabalhos manuais?
Que proveito retirais disso?
O cozinheiro desatarrir e diz-me.
Meu bom amigo,
Que vindes do estrangeiro,
Ainda não haveis compreendido o que significa a prática da via e não sabeis ainda o que querem dizer as palavras e as letras.
A sua resposta inesperada encheu-me de confusão e vergonha.
Perguntei-lhe o que quer dizer com as palavras e as letras e o que entendo por prática da via.
Se não você não entende o que quer dizer com as palavras e as letras,
O que quer dizer com a prática da via?
Se não vacilar-lhes nestas questões essenciais,
Tornar-vos-eis um homem da via.
Nesse momento era incapaz de compreender o que ele queria dizer e acrescentou Se não compreendeis,
Vim de visitar-me um dia ao monte Ayuang.
Examinaremos mais de perto o que é necessário para recolher-te.
É preciso que me apresse a regressar.
Ele levantou-se e partiu com grande rapidez para o mosteiro.
Em julho do mesmo ano,
Por ocasião da minha estada no mosteiro do monte Tientung,
Recebi um dia a visita do cozinheiro do monte Ayuang.
Ele diz-me Vou deixar a minha função no final do retiro de verão e tenho a intenção de regressar ao meu país.
Quando tomei conhecimento de que estáveis aqui,
Pensei vir cumprimentá-los.
Estava encantado por voltar a vê-lo e recebi-o com alegria.
Falámos disto e daquilo.
Depois levei a conversa para a discussão que havíamos entabulado a bordo do barco a propósito das palavras e das letras e da prática.
E ele disse-me Uma pessoa que estude as palavras e as letras deve saber o que é uma palavra ou uma letra.
E aquele que se consagra à prática da via deve compreender o que praticar quer dizer.
O que entendeis por as palavras e as letras?
Um Dois Três Quatro Cinco O que é a prática da via?
Não há tesouro escondido num universo.
Abordámos em seguida outros assuntos que não vêm a propósito mencionar aqui.
Se adquiria algum conhecimento sobre as palavras e as letras e se compreendia um pouco o que é a prática da via foi graças à grande bondade deste cozinheiro.
Quando contei esta conversa ponto por ponto ao meu malogrado mestre Myourzen ele chorou de gratidão.
Mais tarde no decorso das minhas leituras encontrei esta estrofe que Sui Tu Chung Hsien Tset Cho Chu Ken escreveu em intenção de um monge.
Uma palavra Sete palavras Três palavras Cinco palavras Para compreender a verdade das míriades de formas do universo não se fie a início.
Na noite profunda a lua brilhante ilumina o vasto oceano.
A joia do dragão negro que procurais está lá.
A joia do dragão negro que procurais está aqui e ali por todo o lado.
Ao ler este poema a conversa que tinha tido no ano anterior veio-me ao espírito.
O que espremia o Sui Tu correspondia exatamente ao que o cozinheiro me havia dito.
Esta estrofe vinha confirmar o meu sentimento de que o cozinheiro de Haiwang era o homem da via.
Foi assim que consegui ver o sentido de um dois três quatro cinco e que agora sei também o de seis sete oito nove dez.
Então,
Irmãos e irmãs das gerações vindouras aplicai-vos em ver de aqui o que está ali e de ali o que está aqui e experimentareis para além das palavras o sabor único do desenho.
Inversamente se não fizermos este esforço sereis vítimas vos impedirá de preparar com coração e talento a comida da comunidade.