
Pra Você Tiro o Meu Chapéu
Nascemos, crescemos, morremos na busca do eterno e do já. Nessa prosa poética vamos refletir sobre o que é a vida: dos riscos, ganhos e perdas que encontramos no caminho, e, sobretudo, de onde colocamos nossas escolhas, expectativas e valores. E fica a pergunta: Para quem você tira o seu chapéu?
Transcrição
Para você tiro meu chapéu.
Ainda falando sobre o querer,
Percebi que ele mora na casa do mundo do desejo.
E o desejo não é só desejar.
Nascemos desejantes,
De leite,
Ar,
Alimento,
Abrigo,
Amigos.
Todo desejo,
Seja ele por prazer ou necessidade,
Se transforma num querer.
Quero,
Logo desisto.
Quero,
Logo desisto.
Esse tal desejo mora na casa do chapéu.
Observei que muitos usam chapéu de enfeite,
Outros para se proteger do sol e a maioria nem usa chapéu.
Não adianta rejeitar o desejo,
Porque ele respira e se alimenta de você.
Andei muito tempo procurando o meu chapéu querido.
Uns me serviram por muito tempo,
Então cresci e eles já não me serviam mais.
Outros,
Logo perderam a forma.
Lembro daquele que odiei,
Mas ainda assim usei.
Usei e fui usada.
Hoje faço parte da turma sem chapéu,
Mas quem já usou um belo chapéu,
Jamais o esquece.
Sempre falta algo em cima.
O fato é que cansei de procurar chapéu.
Cheguei a ponto do desejo por ele morrer,
Mas descobri que a arte da chapelaria renasce,
Nunca tem fim.
Um viva ao querer que põe o chapéu na cachola.
Fico pensando no monte de boca-desejantes que encontro todos os dias nas ruas.
Elas não falam no seu querer.
Elas exageram no seu querer.
Elas não sabem o seu querer.
Elas reclamam.
Não fui eu que quis assim.
O fato é o que deseja de deseja,
Do primeiro ao último respirar.
Também acho que o domínio do desejo,
O famoso equilíbrio,
É um querer completamente infundado.
Se o desejo mora na cabeça do chapéu,
Nem a ciência,
Nem a religião vão lhe dominar.
Ainda assim,
Precisamos de regras,
Formas e formatos para nos adaptarmos nesse mundão,
Para nos sentirmos adequados no caos.
Pais de crianças pequenas sabem que elas perdem chapéus facilmente.
Duro é ver um jovem pisar no próprio chapéu.
Pior ainda ver um idoso com o chapéu para cima nas esquinas da vida.
Eu já sou adulta.
E o que esperam dos adultos?
Que tenham todo o saber,
Que dominem a arte da chapelaria e que saibam produzir cada vez mais sem perder energia.
Que sirvam de exemplo e que,
Acima de tudo,
Não domine o chapéu.
Pensando bem,
Os adultos carregam o estigma do chapéu dourado.
Os animais não usam chapéu,
Exceto o homem.
Onde será que eles colocam suas infestações?
Tudo o que eu escrevo são divagações diante da moleira da terra.
Se você está lendo ou ouvindo,
É porque tem uma cabeça para usar o chapéu.
Ou não?
Sua decisão.
Antigamente só os homens podiam usar o chapéu.
Hoje tem tanto chapéu de madame por aí.
Bom mesmo é ter a cabeça livre.
Mas não,
Não somos livres.
Até que podemos fazer bastante escolhas.
Mas a cabeça maior é maior que a moleira da terra.
E quando você se for,
Algo ou alguém vai ficar por aqui desejando você.
Pode crer.
Seja qual for o modelo do chapéu que usamos,
Vamos chamar de panamá,
Mexicano,
Cowboy,
Fedora,
Coco,
Flop,
Clochê,
Boina,
Palha,
Mágico,
Bruxa,
Chefe,
Veador,
Cangaceiro,
Policial,
Duende,
Marinheiro,
Fada.
Um dia eles todos caem e a vida diminui moda.
Realmente temos que tirar o chapéu para a vida e colocar diante dela.
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