
No. 23 - O Ninho do Sabiá | Sobre Persistência x Teimosia | Podcast Autoconsciente
Até onde vai a persistência e começa a teimosia? O que diferencia uma da outra? Foi no que fiquei matutando em meio a um tira-teima com um sabiá que resolveu fazer seu ninho em um lugar não autorizado da casa.
Transcrição
Eu lhe dou as boas-vindas ao Autoconsciente,
Um podcast que entende você,
Pra você se entender melhor.
Sou Regina Gianetti,
Criadora do programa de autogerenciamento Você Mais Centrado,
Pra gente ter mais foco,
Bem-estar e paz com a gente mesma.
Eu faço esse programa pra compartilhar reflexões e ações pra uma vida com mais autoconsciência.
A minha intenção é que,
Ao terminar um episódio,
Você se sinta melhor do que quando começou.
Aqui entre nós,
Não tá fácil viver nesse mundo pós-globalizado,
Acelerado e hiperconectado,
Não é?
A gente precisa lidar com uma avalanche de informações,
A correria do cotidiano,
As adversidades que aparecem sem aviso,
Demandas,
Pressões,
Metas,
Prazos.
A vida é como um turbilhão que nunca para e nos arrasta junto.
No mundo de hoje,
Tudo concorre pra que a gente viva no piloto automático,
Apenas fazendo e fazendo o que aparece,
Permanentemente preocupados com o futuro,
Ruminando acontecimentos passados,
Reféns das próprias emoções,
Descontentes conosco mesmos.
Isso é familiar pra você?
Se é,
Está tudo bem.
Lidar com isso é o desafio de todos nós.
Por isso eu quero deixar aqui pra você alguma palavra que possa fazer sentido,
Que possa trazer clareza pra uma questão que você está vivendo,
Que possa lhe trazer apoio.
Se este é o primeiro episódio que você escuta,
Eu te convido a escutar também o número zero,
Em que eu falo da importância de estar mais autoconsciente.
E se você gostar do que vai ouvir aqui,
Compartilhe com seus amigos nos grupos de Whatsapp e nas redes sociais.
Vamos espalhar boas vibrações por aí.
E iniciando o ano dois do autoconsciente,
Este é o episódio vinte e três,
Unindo Sabiá sobre persistência e teimosia.
Ultimamente,
Fenômenos da natureza tem me chamado a atenção.
No inverno foi a lagartinha verde que se transformou na janela e me convidou a refletir sobre a confiança na vida,
E inspirou o episódio quinze,
Um dos que eu mais gosto,
E que também é um dos mais ouvidos no podcast.
Agora na primavera,
São os Sabiás que escolheram a minha casa pra fazer seus ninhos,
E me convidaram a refletir sobre até onde vai a nossa persistência e onde começa a nossa teimosia.
Se você está seguindo este podcast,
Já deve ter me ouvido falar que eu moro numa cidade do interior de São Paulo.
Aqui tem muito verde,
E portanto tem muitos pássaros,
E na primavera a passarada fica muito em evidência,
Porque é época de acasalamento,
Eles cantam mais,
Circulam mais,
São mais percebidos.
Muito bem,
No final de tarde,
Eu olho pra mesa que fica na varanda da casa,
Numa área de churrasqueira,
E vejo um bocado de sujeira ali,
Terra,
Folhas,
Matos arrancados pela raiz,
É como se alguém tivesse mexido com um vaso de plantas ali,
E não tivesse limpado a bagunça.
E olhando pra cima,
Eu logo descubro de onde vem a sujeira.
É de uma viga de madeira que sustenta o telhado e fica a uns 3 metros de altura,
Bem acima da mesa.
Um pássaro começou a formar o seu ninho ali,
E deve ser um Sabiá pela quantidade e o tipo de sujeira.
Uma parte do material que ele trouxe pra fazer o ninho caiu sobre a mesa,
Porque a viga de madeira é estreita,
Não tem mais do que 10 ou 12 centímetros de espessura.
Eu fico pensando,
O que é que deu nos Sabiás pra de repente começar a fazer ninho em casa,
E em lugares assim tão à vista.
Em 16 anos que eu moro aqui,
Nunca teve ninho de Sabiá tão próximo da gente,
E neste ano aparecem logo 3 de uma vez,
Um no parapeito de um vitrô,
E esse já tá na segunda ninhada.
Provavelmente também foram Sabiás que tentaram fazer ninho em cima de um apá de ventilador,
Olha o lugar,
Mas não foram adiante,
Porque qualquer vento mais forte faz aquele ventilador girar,
E isso deve ter assustado os pássaros.
E agora aparece mais esse ninho num lugar bem movimentado da casa.
Eu começo a imaginar como seria ter um ninho acima da mesa da churrasqueira,
Por algumas semanas a viga seria o puleiro de um casal de Sabiás,
E você sabe como é que fica embaixo de um puleiro,
Não é?
Nem preciso entrar em detalhes,
Eu é que não iria comer nessa mesa.
E começo a imaginar também como seria quando os filhotes deixassem o ninho,
Filhotes não saem assim voando,
Eles se jogam do ninho e ficam saltitando pelo chão até aprender a voar,
E isso seria um problema,
Porque os meus cachorros,
Eles passam a maior parte do tempo naquela varanda,
E bem ali em torno da mesa,
E eles caçam todo bicho que se atreve a pisar no território deles.
Antes desse ninho aparecer,
Só nesta primavera,
Os cachorros já tinham matado 3 filhotes de Andorinha e 2 de Sabiá que apareceram pela casa,
Eu sei porque eles fazem questão de deixar os cadáveres das suas vítimas bem à vista,
Como que para dizer,
Olha só o invasor que eu peguei na nossa casa.
Bom,
Depois desse exercício básico de projeção do futuro,
Que nós seres humanos somos tão bons em fazer,
Eu chego à conclusão que é melhor evitar que o Sabiá forme o ninho dele ali.
Tem lugares de sobra para fazer o ninho em torno da casa,
Ele vai achar um local mais seguro para ter os filhotes,
E eu posso usar a mesa da churrasqueira sem susto.
Então eu pego a mangueira do jardim e derrubo com água um tantinho de material que o Sabiá tinha depositado ali,
Lavo a mesa,
Deixo tudo em ordem e a noite cai.
Na manhã seguinte,
Olho pela porta de vidro da varanda enquanto tomo café,
E como encontro a mesa,
Suja de novo.
O Sabiá ignorou solenemente o embargo da sua obra e havia retomado a construção.
Eu penso,
Isso não vai ser fácil,
Melhor arrumar um jeito mais prático de tirar essa sujeira daí,
Porque eu acho que vou ter que fazer isso várias vezes.
E aí eu tenho a ideia de jogar uma cordinha por cima da viga para remover aquele princípio de ninho.
E assim eu faço,
Passo uma corda longa por cima da viga e ela fica pendurada com as duas pontas para baixo.
Eu puxo as pontas como quem regula uma cortina persiana,
A corda desliza sobre a viga e derruba tudo que o Sabiá deixou ali.
Minha família fica só olhando e zoando as minhas maluquices.
Em casa meu apelido é Crazy,
E para encurtar ficou Cray.
Se eles querem ser carinhosos comigo,
Eles me chamam de Cray Cray.
Mais tarde volto para ver se o Sabiá desistiu,
Mas que nada,
Ele começou o ninho de novo,
E aí tem início uma pequena treta entre mim e o Sabiá,
Eu derrubo a sujeira e ele coloca mais.
Por vezes eu movo a corda quando o Sabiá está sobre a viga e ele vaza de lá,
Mas logo já está de volta com mais barra e plantas.
Fico admirada do comportamento do Sabiá,
Ele não desiste,
E simplesmente recomeça a construção do ninho como se nada estivesse acontecendo,
Ele tem um comportamento que entre os seres humanos seria o que a gente chama de persistência,
Não é?
A atitude de continuar trabalhando para atingir um objetivo apesar das dificuldades ou adversidades.
Mas será que a gente seria tão inabalável quanto o Sabiá?
É difícil,
Imagine você querendo realizar um projeto e sendo impedido por alguém,
Isso tira qualquer um do sério,
Uma reação bem comum seria se sentir indignado e aí protestar,
Reclamar,
Bufar,
Brigar,
Não deixar isso barato,
Outra reação seria se sentir frustrado,
Impotente e aí perder a motivação para continuar com o projeto e desistir.
Bom,
Se o Sabiá é persistente,
Eu também sou,
E continuo a nossa rusga ao longo do dia,
Eu nem sei quantas vezes mexi naquela corda,
E o Sabiá sempre voltando com a terra e matinhos.
O lado bom é que ele tá capinando os meus canteiros,
Jardinagem de graça,
Mas a mesa da churrasqueira tá forrada de sujeira,
E chega um momento em que ele começa a colocar de volta os matos que estão caídos ali,
Olha que espertinho.
Agora,
Além de mexer nas cordas,
Eu ainda tenho que recolher a sujeira da mesa,
Porque eu não vou dar moleza pra esse Sabiá.
Do meio da tarde em diante,
O Sabiá não coloca mais nada sobre a viga.
Será que desistiu?
Fico suspense pro dia seguinte.
Amanhece e eu tô lá de novo,
Com a xícara de café nas mãos,
Olhando através da porta de vidro da varanda e a mesa suja,
Em cima da viga uma pequena pilha de detritos.
Pois é,
O Sabiá havia começado cedo naquele dia.
Ao ver aquela cena eu me irrito.
Que Sabiá teimoso!
Deixo de lado a xícara de café,
Abro a porta da varanda e puxo a corda bruscamente.
O Sabiá tava lá em cima,
Amassando barro com o corpo,
E vou assustado.
Aí eu caio em mim.
Sempre que eu me pego assim,
Envolvida por uma emoção,
Eu paro o que eu tô fazendo e levo a atenção pra o que eu tô sentindo.
Quando eu apenas observo o que eu sinto,
Eu tenho um momento de clareza,
De tomar consciência de que emoção é aquela e do pensamento que tá por trás daquela emoção.
A emoção naquele momento era de irritação,
E o pensamento era de que aquele Sabiá teimoso tava me contrariando.
Mas quem tava sendo teimoso naquela história?
Não era o Sabiá.
Na sua inocência de bicho,
Ele continuaria trazendo material pro ninho até que ficasse pronto.
A teimosa da história era eu,
Né,
E insistia com a ideia furada de que se eu ficasse tirando o material de lá,
O Sabiá iria desistir.
Eu não tava sendo persistente,
Eu tava sendo eteimosa.
Na persistência,
A intenção é atingir um objetivo.
Isso envolve determinação e paciência.
Incluir considerar o que tá acontecendo e mudar de estratégia se for o caso,
Buscar alternativas.
A persistência não exclui a flexibilidade,
Porque o que importa é o que a gente deseja atingir,
E não como a gente vai atingir.
A gente mantém o foco no o quê,
E se for preciso,
Muda o como.
Já na teimosia,
Não tem flexibilidade.
Tem é uma insistência em continuar com algo que não funciona,
Ignorando as evidências de que não funciona.
A teimosia não vê nem escuta,
Não percebe o que tá acontecendo,
Não quer perceber.
Na teimosia,
Existe apego.
Pego de volta a minha xícara de café e sento num dos bancos da mesa da churrasqueira.
E fico lá,
Tendo o meu momento,
O que é que eu tô fazendo.
Autoconsciência é isso,
É se perceber e refletir.
E a gente pode fazer isso de uma forma objetiva,
Sem autocrítica severa,
Sem se autoflagelar.
É assim que eu procuro lidar comigo mesma,
Aceitando a minha humanidade imperfeita e escolhendo formas de agir que me tragam paz.
Em nome dessa paz,
Eu escolho soltar a ideia de desmanchar o ninho do sabiá.
Eu tô me irritando,
Gastando energia com algo tão bobo,
Uma picuinha.
Desapego,
Pronto,
Não vou ficar insistindo nisso,
Vigiando a viga o dia todo.
Meio bizarro,
Né?
Se tiver outra forma de evitar que o sabiá monte um ninho ali,
Eu vou atrás,
Porque evitar o ninho é a minha intenção,
Mas eu não mexo mais nessa corda.
No dia seguinte,
Vem em casa o Carlão,
Que faz serviços de manutenção pra nós e apareceu pra limpar as calhas do telhado,
E conversando com ele sobre a treta com o sabiá,
Nós tivemos uma ideia,
Colocar sobre a viga alguma coisa que afastasse o pássaro.
Aí eu lembrei de um guarda-chuva preto e quebrado,
Que eu já tinha separado pra levar pra reciclagem,
E o Carlão amarrou o guarda-chuva aberto sobre a viga.
Perfeito!
Vendo aquela coisa estranha,
O sabiá não voltou mais.
Seu marido não curtiu muito a nova decoração da churrasqueira,
Aquele guarda-chuva preto e capenga pairando sobre a mesa.
– Isso aqui tá parecendo a casa da Mary Poppins,
– ele disse.
– Mas deixou pra lá.
Ele já tá acostumado com essas coisas de crazy.
Quanto ao sabiá,
Bom,
Eu não tenho certeza de que seja ele,
Mas na tarde daquele mesmo dia nós vimos um casal dessa espécie rodeando uma luminária de parede,
Na área externa da casa.
Eles ficaram dando várias voltas em torno da luminária e pousando,
E logo depois começaram a formar um ninho ali.
Naquele local os cachorros não ficam,
E tem várias plantas onde os filhotes podem se esconder até aprender a voar.
Agora toda manhã eu pego a minha xícara de café e fico espiando pela janela como tá o ninho.
A fêmea já tá chocando,
E eu estou feliz por abrigar uma família de sabiás na minha casa.
A natureza,
A tudo se adapta,
Sempre encontra meios pra que seus desígnios se realizem.
E nós,
Humanos,
Temos muito o que aprender com ela.
Que você esteja bem,
Um abraço.
Conheça seu professor
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