
Sobre Budismo #112 – O que é o Carma?
Acredito que a maioria das pessoass já tenha ouvido falar sobre o carma, ou lei de causa e efeito, que basicamente significa "ação" ou "fazer" - uma expressão de causa e efeito natural. Neste episódio eu compartilho o conceito de carma sob a óptica budista.
Transcrição
O que é o karma?
Olá,
Tudo bem?
Aqui é Leonardo Watt e esse é o podcast Iluminação Diária 112.
Para você saber mais sobre os recados que eu tenho para te dar e dos links úteis,
É só você ir na descrição desse podcast e clicar no que você achar melhor.
Vou trazer mais um texto do professor Alex Berzin e ele diz assim,
Karma refere-se aos impulsos baseado em nossos padrões de comportamento que nos fazem agir,
Falar e pensar de uma determinada maneira.
Nossos hábitos pavimentam vias neurais do cérebro que,
Quando acionadas,
Pelas circunstâncias corretas,
Nos fazem repetir nossos padrões de comportamento.
Ou seja,
Quando temos vontade de fazer alguma coisa,
A fazemos compulsivamente.
Ou seja,
Até nos retiros que eu já fui com os meus mestres durante esses últimos oito anos,
Eles falam assim,
Vocês acham que vocês têm controle sobre o que acontece com vocês,
Sobre as suas decisões,
Mas na verdade foram um monte de ações que vocês plantaram que geraram hábitos e aí vocês se movem no mundo através desses hábitos,
Desses impulsos.
Então,
Não está muito no nosso controle,
A gente acha que a gente está controlando tudo,
Mas na verdade a gente só está repetindo os impulsos e os hábitos que a gente plantou.
E aí quanto mais a gente faz essas coisas,
Mais hábito a gente gera em relação às nossas atividades,
Às nossas ações e aí esse parágrafo ilustra bem esse fato.
Eu achei esse trecho aqui interessante desse primeiro parágrafo.
Nossos hábitos pavimentam vias neurais no cérebro que,
Quando acionadas pelas circunstâncias corretas,
Nos fazem repetir nossos padrões de comportamento.
Ou seja,
O exemplo que o meu mestre Lama Jigme Laung lhe dá é que,
Imagina uma praia,
Na areia da praia,
Quando você pisa ele faz um buraco,
Né?
E aí você anda e continua andando.
Então,
Aquilo vai fazendo sulcos na areia.
Então,
Vamos supor que o nosso cérebro tem vias neurais e cada vez que a gente faz uma ação,
Ele faz um sulco num determinado lugar de algo que você fez através das suas ações de corpo,
Fala e mente.
E aí,
Se você,
No dia seguinte ou alguns minutos depois,
Você dá a volta e você passa de novo naquele mesmo lugar,
O buraco fica um pouco mais fundo,
Né?
Então,
Quando a gente repete uma ação,
Você faz um buraco mais fundo.
Então,
A sua tendência de passar por aquele lugar de novo é muito maior.
Porque você já passou ali uma vez,
Você já passou duas e vai fazendo um buraco cada vez maior.
Então,
Quando as condições externas estiverem favoráveis,
A gente vai repetir aquele determinado hábito.
Porque a gente já passou por aquela via neural uma vez,
Duas vezes,
Três vezes,
Aquilo vai fazendo como se fosse sulcos,
Né?
Como se fosse buracos naquele lugar.
Então,
A gente vai querer passar sempre por aquele mesmo lugar.
E ele continua.
Muitas vezes o karma é confundido com sorte ou predestinação.
Quando alguém se machuca ou perde dinheiro,
As pessoas dizem,
Nossa,
Que má sorte,
Que karma.
Esse tipo de pensamento é semelhante à ideia de vontade de Deus.
Da vontade de Deus,
Né?
Algo que não compreendemos e nem podemos controlar.
Mas esse não é o conceito budista de karma.
O karma no budismo refere-se aos impulsos mentais que nos fazem,
Por exemplo,
Gritar com alguém que está nos perturbando ou esperar pacientemente até a pessoa se acalmar e então conversar com ela.
O karma também refere-se aos impulsos que nos fazem torcer o tornozelo quando descemos as escadas ou descer as escadas com cuidado.
Fumar cigarro é um bom exemplo do funcionamento do karma.
Pois cada vez que se fuma um cigarro,
Isso age como um potencial para fumar-se outro.
E quanto mais fumamos,
Mais forte é a tendência de continuarmos fumando,
Até que acendemos o cigarro sem pensar.
O que nos leva compulsivamente a aceitar o cigarro é um impulso kármico.
O karma explica de onde a vontade e o impulso de fumar vêm.
Vêm de um hábito previamente construído.
Fumar não só gera o impulso de repetir a ação,
Mas também influencia os potenciais físicos do corpo para desenvolver um câncer,
Por exemplo.
Nesse caso,
Tanto o impulso de fumar quanto o desenvolvimento do câncer são resultados de ações compulsivas anteriores.
E quando ocorrem,
Dizem que houve o amadurecimento do karma.
Ou seja,
Você fez uma determinada ação por várias vezes e aquilo também impulsionou a criação de um novo hábito a partir desse primeiro hábito.
Esses dois hábitos foram criados por algo que você fez anteriormente.
E aí quando você desenvolve,
Por exemplo,
Você fuma demais,
Porque você começou a fumar uma vez,
Fumou duas,
Dez,
Um maço e por aí vai,
Isso gerou um câncer.
Aí esse câncer é o resultado,
É o amadurecimento desse karma,
Que você plantou uma ação,
Você fez aquilo por um tempo e ela deu um fruto,
Que é o amadurecimento do karma.
Que nesse caso especificamente é um câncer,
Mas pode ser outra coisa,
Alguma coisa positiva.
É que ele estava dando esse exemplo do cigarro,
Né?
E aí como a gente muda os nossos hábitos?
Aí ele diz,
O karma faz sentido porque ele explica de onde vêm nossas vontades e impulsos e porque algumas vezes nos sentimos felizes e outras infelizes.
É tudo um resultado de nossos próprios padrões de comportamento,
Ou seja,
É tudo um fruto.
Então primeiro você planta uma coisa,
Aí você começa a fazer aquilo,
Aquilo vai virando hábito,
Porque você vai repetindo,
E depois ela gera um fruto quando as causas e as condições estiverem favoráveis.
É tudo um resultado de nossos próprios padrões de comportamento,
Portanto,
O que fazemos e o que acontece conosco não é pré-determinado.
E aí tem uma citação aqui do Sr.
Sainto Dada Dalai Lama,
Fala assim,
Karma é um termo que designa uma força ativa,
Indicando que os eventos futuros estão em nossas mãos.
Apesar de parecer que somos escravos dos nossos hábitos,
Afinal,
Nosso comportamento habitual é baseado em vias neurais bem estabelecidas,
O budismo diz que é possível mudar isso.
Temos a capacidade de mudar e construir novos caminhos neurais ao longo da vida.
É a mesma coisa,
Numa areia,
Na praia,
Você está na praia,
Você está passando por um lugar sempre,
Aí todo dia você vai e passa naquele mesmo lugar e aquele buraco vai aumentando,
Vai aumentando.
Então você pode escolher passar por outro lugar,
Você não necessariamente pode passar por ali,
É obrigado a passar por ali,
Então você pode mudar isso.
E ele continua,
Quando sentimos vontade de fazer alguma coisa,
Existe um espaço antes do impulso kármico nos fazer agir.
Nós não agimos imediatamente de acordo com as nossas vontades,
Afinal,
Nós aprendemos a nos segurar para ir ao banheiro.
Da mesma forma,
Quando surge a vontade de dizer uma grosseria,
Podemos escolher,
Será que devo mesmo dizer isso?
Podemos sentir um alívio momentâneo ao expressar nosso desagrado gritando com alguém,
Mas o hábito de gritar com os outros é um estado mental de infelicidade.
Todos sabem que resolver um conflito através do diálogo é um estado muito mais pacífico e feliz.
Essa habilidade de distinguir entre uma ação construtiva e uma destrutiva é o que realmente diferencia os seres humanos dos animais.
Essa é a nossa maior vantagem.
Dito isso,
Nem sempre é fácil escolher não engajar-se em uma ação destrutiva,
Mas fica mais fácil escolher quando temos espaço suficiente em nossa mente para termos consciência dos sentimentos que surgem.
E é por isso que o treinamento budista nos encoraja a desenvolver consciência.
E aí eu te convido a ouvir o podcast Iluminação Diária 108,
Que diz o que é a meditação,
Para você entender um pouco mais como se desenvolve esse processo de consciência.
E ele continua.
À medida que ficamos mais calmos,
Ficamos bem mais conscientes do que estamos pensando e do que estamos prestes a dizer ou fazer.
Começamos a observar.
Estou com vontade de dizer algo que machucará alguém.
Se disser,
Poderei causar problemas.
Então não direi.
Podemos escolher.
Mas quando não temos consciências,
Somos inundados por uma quantidade tão grande de pensamentos e sentimentos que compulsivamente fazemos o que nos passa pela cabeça.
E isso nos causa inúmeros problemas.
Ou seja,
Sabe quando você é muito impulsivo?
Você é muito reativo,
Né?
Alguém fala uma coisa e você já responde na hora.
Não,
Você quer não sei o que.
Não,
Você quer isso.
Não.
Aí fica aquele bate e volta,
Né?
Por quê?
Porque não há consciência nesse momento.
Então quando a gente tem consciência do que está acontecendo dentro da gente e a gente escolhe como a gente quer reagir,
Na verdade como a gente quer agir,
Porque reagir é isso.
A pessoa fala uma coisa e você não pensa no que você pode causar de mal falando a outra coisa.
E aí você reage.
E você pode agir.
O que é agir?
Você recebe uma informação,
Você para.
Poxa,
Se eu responder do jeito que eu quero,
Não vai ser legal nem pra outra pessoa nem pra mim.
Vou brigar,
Vou falar alguma coisa até que eu não queira.
Mas isso é segundos,
Né?
Microssegundos.
Então deixa,
Eu não vou responder agora não.
O que você teve?
Um momento de consciência.
Ou você pode responder assim,
Não,
Olha só,
Eu não vou discutir agora com você,
Eu preciso fazer umas coisas.
Depois a gente conversa quando você estiver mais tranquilo,
Quando estiver mais calmo,
Tá bom?
Então o que vai te ajudar a desenvolver essa consciência?
É a meditação.
Então ouve o podcast 108 que vai te ajudar a entender mais como você pode desenvolver esses processos.
Preveja o futuro.
Podemos prever o que pode ocorrer no futuro com base em nosso comportamento kármico passado e atual.
No longo prazo,
Ações construtivas trazem bons resultados e felicidade.
E as ações destrutivas trazem consequências indesejadas.
Então isso é bem simples de entender,
Né?
Se a gente plantar coisa boa,
Os mestres dizem assim,
Você quer saber como é que é o seu karma passado?
É só você ver como é que está a sua vida agora.
Se a sua vida não está bem,
Se você está infeliz,
É porque você não plantou coisas boas.
É muito simples.
Agora,
Você quer saber como vai ser seu futuro?
Olhe as suas ações agora.
Se elas estão sendo positivas,
O seu futuro vai ser bom.
Então nós somos senhores do passado e do futuro também.
Porque é só a gente olhar para o momento presente.
Se a gente está bem ou não,
Foi o que a gente plantou atrás.
E como a gente vai estar lá na frente é o que a gente está plantando agora.
É muito simples.
E aí ele continua.
A forma como uma ação kármica amadurece depende de muitos fatores e condições.
Quando jogamos uma bola para cima,
Podemos prever que cairá no chão.
Mas se pegarmos a bola antes,
Ela não cairá.
Da mesma forma,
Uma vez que podemos prever com base nas nossas ações anteriores,
O que ocorrerá no futuro,
Podemos dizer que o futuro não é determinado,
Não é destino e nem é gravado na pedra.
Várias tendências,
Ações e circunstâncias influenciam o amadurecimento do karma.
Se formos obesos e continuarmos a comer muita comida que engorda,
Podemos prever uma alta probabilidade de termos diabetes.
Mas se fizermos uma dieta severa e perdermos bastante peso,
Pode ser que não adoecemos.
Então é tudo uma questão de escolha e ter consciência do que você está plantando.
Porque às vezes a gente diz que gosta de comer um sanduíche.
E aí,
Toda vez que eu passo em determinado lugar,
Eu tenho aquela vontade.
Se você continuar plantando isso e se deixar levar pelos impulsos,
Você vai ficar doente.
Você não vai ficar bom,
A sua saúde não vai ficar boa.
Se você tiver a consciência,
Poxa,
Meu corpo é meu templo,
Eu não vou comer isso,
Não vou seguir esse impulso.
Então eu nem vou passar por aquele lugar.
Aí você passa por outro lugar,
Vai no mercado,
Compra salada,
Compra frutas,
Vai para sua casa e muda esse hábito.
É claro,
Não é tão simples como eu estou falando.
Mas só para ilustrar,
Para você entender,
Porque às vezes a gente acha que é complexo.
Mas na verdade,
É só a gente ter essa habilidade de ter consciência do que a gente sabe que é melhor para a gente.
Quando batemos o nosso pé,
Não temos que acreditar em karma ou causa e efeito para experimentar a dor.
Ela simplesmente ocorre naturalmente.
Da mesma forma,
Se mudarmos nossos hábitos e desenvolvermos hábitos mais benéficos,
O resultado positivo virá independente de nossas crenças.
Então você não precisa acreditar em karma,
Budistas ou não.
Eu entendo isso,
O karma,
Como uma questão universal,
Não é nem budista.
Se você todo dia xinga as pessoas à sua volta,
O que você está plantando?
Você está plantando algo negativo.
O que você vai colher?
As pessoas não vão gostar de você,
Você não vai ser bem-vindo,
Você vai ser uma pessoa amargurada.
Pelo contrário,
Se você é educado com as pessoas,
Se você elogia as pessoas de coração,
Se você sorri para as pessoas,
Se você gosta,
Quer o bem das pessoas de verdade,
Naturalmente as pessoas vão querer você ao seu lado.
O que você está plantando?
Você está plantando o bem.
E aí é naturalmente que o karma vai amadurecer e quando as causas e condições adequadas acontecerem,
As pessoas vão te convidar,
As pessoas vão querer estar ao seu lado,
As pessoas vão te dar presente,
Porque naturalmente você tem essa vontade de ajudar,
De ser uma pessoa boa para outras pessoas,
De plantar coisas boas,
E é natural que a sua vida vai fluir naturalmente bem com as pessoas ao seu redor.
Nós somos seres de relações,
Então se a gente está plantando coisa negativa para os outros,
Sendo invejoso,
Tendo ciúmes,
Sendo carente,
A gente está plantando essas coisas negativas e a gente vai colher isso.
É básico isso,
É simples.
Então a minha pergunta é,
O que você está plantando agora?
O que você quer colher?
É só você olhar para o que você está plantando,
É só você olhar agora para o que você está fazendo,
Se é benéfico ou não.
E qual é o critério que eu sugiro para você saber se é benéfico ou não?
Está trazendo benefício para você e para as outras pessoas?
Não é só para você,
Porque isso é um egoísmo,
A gente só querer o nosso bem.
Nós queremos o nosso bem e nos treinar para beneficiar os outros,
Para ajudar os outros também.
Então olha para as suas ações e vê direitinho o que você está fazendo,
Tenha consciência.
Gratidão,
Até o próximo podcast Iluminação Diária.
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