
Entenda o Luto na Pandemia
Neste podcast vou apresentar o conceito de luto, a singularidade do luto na pandemia, algumas formas de despedir-se no seu ente querido, bem como lidar com o seu luto e apoiar os enlutados que estão sofrendo, próximo ou longe de você. E muitas outras dicas, como, conversar com as crianças sobre a morte.
Transcrição
Olá,
Hoje eu quero falar com você sobre um tema muito delicado,
Que é o luto,
Que pode ser um trauma durante a pandemia.
Neste mundo que vivemos,
Tudo que sabíamos sobre morte,
Luto e despedidas,
Virou de pernas para o ar.
Mas afinal,
O que é luto?
John Bowlby,
Um teórico da análise da psicologia,
Disse que o luto é um processo natural que ocorre em reação a um rompimento de vínculo.
É a sensação de que algo nos foi tirado.
Algo que era tão precioso,
Tão nosso,
Que não deveria absolutamente ter sido tirado de nós.
A insegurança diante da ameaça invisível do vírus e a falta de perspectiva de fim da pandemia,
Submetem todos ao luto coletivo.
É o tipo de morte que invade a nossa vida sem pedir licença.
Diferente de uma perda,
De uma morte anunciada,
Ela irrompe,
Invade nossas vidas.
É escancarada pela TV e redes sociais com informações fantásticas que acabam levando a uma banalização da morte.
Ao mesmo tempo que fascinam,
As imagens também aterrorizam.
São as imagens de UTIs cheias e famílias esperando do lado de fora que nos aterrorizam.
Talvez uma das imagens mais chocantes tenha sido a das notícias comuns que vemos nas TVs.
Nelas não há nomes,
Biografias,
Apenas números que se empilham.
Isto é muito triste.
Mas nem sempre foi assim.
Deixamos de falar sobre a morte porque ela saiu de dentro das nossas casas e migrou para os hospitais.
Antes,
As pessoas eram protagonistas de suas próprias mortes.
Morriam em casa e agora o luto e o sofrimento passaram a ser escondidos.
O luto também apresenta estágios.
Eu vou citar alguns,
Mas fique atento que não necessariamente nós precisamos vivenciá-lo desse jeito.
O luto é algo único,
Singular.
Segundo os estudiosos,
Uma das linhas diz que primeiro vem o choque,
Que pode ter a duração de horas ou semanas e ainda pode vir acompanhado de manifestação de desespero.
Depois,
A negação,
Que envolve um processo de defesa,
De não aceitar a perda,
Como a raiva,
Outro sentimento de defesa,
Que se manifesta com uma sensação de injustiça que sentimos.
Detalhe,
Quanto mais violenta ou inesperada for a morte,
Mais a raiva pode se manifestar.
Depois vem o desejo ou fantasia,
Pela busca da figura perdida,
Que pode durar também meses ou anos.
Dois processos contraditórios coexistem nesse estágio.
A tranquilidade da perda e a esperança de um reencontro.
Por fim,
Quando a pessoa cai na real que realmente aquela pessoa querida não está aqui,
Vem o desespero.
Uma raiva muito intensa e persistente,
Impedindo a aceitação.
Tristeza e culpa se manifestam.
O vazio se simplifica,
Tornando a fase marcada por apatia e isolamento.
E por fim,
Vem a reorganização,
A aceitação da perda definitiva e constatação de que uma nova vida precisa ser começada ou seguida.
Saudades e tristezas,
Claro que vão existir e elas podem retornar,
Tornando o processo de luta gradual e nunca totalmente concluído,
Especialmente em datas comemorativas.
O processo de luto é composto de um conjunto de reações que não necessariamente ocorrem ordenadamente.
O tempo é variável e depende do grau de vínculo,
Bem como a capacidade que a pessoa enlutada tem de lidar com a dor,
Da sua capacidade de resiliência.
Quanto mais próximo a perda,
Mais intensa será a minha dor.
E também,
Muito importante,
É lembrar da rede de apoio que a pessoa possui para sustentá-la nesse processo.
Embora algumas pessoas desenvolvam quadros depressivos após uma perda,
Com mais dificuldade de passar pela fase de luto,
É importante compreender que luto não é depressão.
Infelizmente,
Essa associação é feita com frequência e muitas pessoas acabam sendo medicadas como se estivessem deprimidas,
Quando,
No meu ponto de vista,
Elas deveriam vivenciar a sua dor do luto.
Mas quais as características dessa dor?
Os sintomas de luto?
O luto engloba um conjunto de manifestações clínicas,
Isto é,
Diversas respostas físicas,
Emocionais,
Cognitivas e comportamentais em face à perda.
Por exemplo,
Manifestações físicas como sensação de aperto no peito,
Uma dor no estômago,
Falta de ar,
Cansaço ou endemasia podem se apresentar.
Manifestações emocionais como tristeza,
Ansiedade,
Culpa,
Solidão,
Saudade.
Manifestações cognitivas,
Preocupação exagerada,
Confusão mental,
Pensamentos ruminativos,
Causando até dificuldade de concentração no aprendizado.
Manifestações comportamentais como chorar,
É normal,
Alterações no sono,
No apetite,
Isolamento social,
Agitação física ou sensação de lentidão também podem se manifestar.
A sensação de vazio que ocorre nos processos de luto,
Assim como sintomas que acabo de descrever,
Ganham ainda mais intensidade no contexto de isolamento social por não poder fazer a despedida e receber o conforto social dos amigos e familiares.
Contudo,
Alguns fatores podem influenciar a forma como cada pessoa irá vivenciar o seu luto.
Fatores que podem facilitar ou dificultar o processo como qualidade e tipo de relação com o ente querido,
A presença ou ausência de suporte social,
As próprias características de personalidade,
Como a capacidade de resiliência do enlutado,
As circunstâncias da perda,
Se por covid considera um luto singular.
Estudos científicos indicam que parecem ser as perdas inesperadas,
Como situações de acidente ou doença súbita,
Ou morte por covid,
Que tornam o processo de luto mais difícil de ser elaborado,
Sendo até frequentemente designado como luto traumático.
Esses são os lutos da era covid.
Se você perdeu alguém nesse período por covid,
Ou se conhece alguém,
Eu vou lhe dar algumas dicas que talvez ajudem você na elaboração desse seu luto.
Que tal fazer uma pequena cerimônia simbólica na sua residência?
Pegue fotos,
Ouça músicas ou filmes que o seu ente querido gostava.
Se você tiver alguma religião,
Faça uma celebração,
Mesmo que virtual,
Convide amigos,
Parentes.
Você também pode escrever carta para essa pessoa se despedindo dela.
Não poupe as crianças,
Chame-as para participar do ritual de despedida,
E na medida que elas apresentarem essa vontade,
Vocês vão incluindo e falando sobre isso.
Ouça a dor da criança,
Converse com ela.
Também seja claro,
Não fantasie dizendo que a pessoa virou uma bola no céu,
Ou que você fará uma escada para que ela vá até a pessoa que faleceu.
Lembre-se que a dor pela falta que você sente hoje,
É porque vocês viveram bons momentos juntos.
Aceite e permita-se expressar suas emoções.
Tente ser assertivo quanto às suas necessidades.
Seja sincero com você e com seus amigos.
Diga,
Olha,
Hoje eu não tô bem,
Eu tô precisando de um cuidado.
Será que você pode vir aqui?
Se puder,
É claro.
Ou,
Tô precisando ligar para alguém,
Vou ligar para fulano.
O que você pode contar?
Pense agora em alguma pessoa que você pode seguramente contar,
Que ela vai te ouvir.
Dentro do possível,
Respeite o seu tempo de luto.
Cada luto é único,
Não esqueça.
Evite isolar-se ainda mais.
Procure conversar com familiares,
Amigos.
É importante demais buscar essa rede de apoio.
Também é importante uma religião ou espiritualidade,
Como você queira.
Será que isso pode dar um outro significado?
Veja se faz sentido na sua experiência pessoal.
Quem sabe um bate-papo com um profissional,
Uma sessão de psicologia,
Tenho certeza que vai poder te ajudar.
Assim que possível,
Retome as suas atividades,
Especialmente as que te dão prazer.
E meu querido,
Não se culpe por estar vivo e seguir a sua vida.
Lembre-se de que não há vergonha alguma em chorar.
Se for confortável,
Expresse a sua dor escrevendo,
Desenhando ou de alguma forma que te ajude a manifestar e externalizar a sua tristeza.
Se você está ouvindo esse áudio e não perdeu alguém,
Mas conhece alguém que está em lutado e em acolhimento,
Eu vou te dar algumas dicas de como ajudar e como não ajudar.
Acolhe a dor de quem sofreu algum tipo de perda,
Especialmente nesse tempo que a gente não pode ter proximidade física.
De alguma forma se faça presente,
Mesmo que a distância.
Seja empático com a dor do outro,
Ofereça acolhimento,
Ouvindo com atenção o que a pessoa tem a dizer.
Questione se há necessidade de alguma ajuda para atividades do dia a dia.
Sugira atividades que possam ser reconfortante,
Como fazer uma caminhada,
Ler um livro.
Evite utilizar frases como,
Isso logo vai passar,
Deus sabe o que faz,
Era a hora dele.
Ao invés disso,
Procure usar expressões acolhedoras como,
Você não está sozinho,
Estou aqui sempre que você precisar.
Ou,
Respeita sua tristeza,
Sinto muito por você estar assim.
Algo que eu possa fazer para te ajudar?
Não tente minimizar o sofrimento do outro,
Às vezes o silêncio é suficiente.
Coloque-se disponível para a pessoa,
Para ir a um mercado,
A uma farmácia.
E por fim,
O luto vai doer,
Mas a energia gasta com a dor pode ser,
Em algum momento,
Investida em outras ações ou pensamentos revitalizantes.
Seja paciente com sua dor,
Somos seres resilientes e tendemos a voltar ao nosso estado emocional ou nível de felicidade de antes,
Mesmo com a eterna saudade daquele que seguiremos amando.
O amor está sempre no seu coração,
De alguma forma esta pessoa vive em você ou em alguém.
Eu tenho aqui no Insight Time um curso que se chama promovendo a sua resiliência.
Estou certa que será útil para você nesse momento difícil.
Um forte abraço e até a próxima!
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