
Podcast Bocadinho - Autoimagem
Muitas vezes não alcançamos nossos objetivos porque estamos correndo atrás de algo que não faz tanto sentido para nós. Algo que aceitamos como nosso porque vemos que é o que todo mundo está procurando ou querendo. No processo de se auto desenvolver, é necessário estar mais presente e consciente para saber o que escolher. Por isso, não tinha como deixar de falar sobre nossa auto imagem nessa temporada. Hoje, o bate papo é com a psicóloga Raquel Guimarães.
Transcrição
A gente convive com o nosso corpo desde que nascemos,
E é quase desde lá que ouvimos que ele não é como devia.
Sem radicalismo,
Sem levantar bandeiras,
Mas o fato é,
Principalmente para nós mulheres,
A ideia de que precisamos mudar o corpo para alcançarmos algo ou nos encaixarmos é bem enraizada na sociedade vem de muitos e muitos anos.
Nessa segunda temporada do Bocadinho eu estou trazendo reflexões focadas no seu autodesenvolvimento divididas em 12 episódios,
Com pontos que eu considero importantes para sermos mais felizes e saudáveis.
Eu realmente acredito que para mudarmos algo,
Precisamos mudar a nós mesmos.
Mas se não dedicarmos tempo a nos conhecer de verdade,
A gente acaba mudando coisas que não vão resolver nada,
Porque não eram nenhum problema em primeiro lugar.
No episódio anterior eu comentei como muitas vezes desistimos dos nossos objetivos no meio do caminho,
Porque não sabemos exatamente o que queremos e nem porque queremos.
Corremos atrás de algo que não faz tanto sentido para nós,
E que muitas vezes aceitamos como se fosse algo nosso,
Porque vemos que é o que todo mundo está procurando ou querendo.
Em todas as minhas redes sociais o meu público é mais de 90% feminino,
E por isso que a discussão de hoje precisa ter espaço.
Até porque como mulher eu sei como somos influenciadas por padrões e opiniões externas que muitas vezes,
Para não falar em todas,
Não refletem no que queremos,
Pensamos ou realmente sentimos.
Segundo pesquisa feita em 20 países,
96% das mulheres do mundo vivem com algum nível de insatisfação de seu corpo.
96%.
Isso gera um mercado bilionário.
É uma questão bem profunda,
Mas sempre tem por onde começar.
E se você me conhece,
Sabe que eu adoro uma boa reflexão para trazer novas ideias e formas de ver algo que parece tão normal.
Será que realmente precisamos continuar repetindo o que é normal?
Mulher sempre quer mudar alguma coisa ou perder uns quilinhos.
É normal não estar satisfeita com o corpo que temos?
Aceitação,
Conformismo,
Limites,
Vontades,
Imposições.
Quando falamos do nosso corpo,
Como saber onde estamos,
Onde queremos ir e até onde é saudável a busca por uma forma física ou aparência específica?
Precisamos ser radicais?
Existe um meio do caminho?
No episódio de hoje,
Eu converso com a psicóloga Raquel Guimarães sobre corpo,
Padrões de beleza e a eterna insatisfação.
Gravamos esse episódio no início do ano.
A temática era o verão,
Mas você vai perceber que o que falamos independe da estação do ano.
Acontece o tempo todo.
Raquel,
Muito obrigada por aceitar meu convite.
Obrigada pelo convite.
Adoro o seu trabalho,
Acho ele muito importante.
E bom,
Verão chegando,
Eu queria falar um pouquinho sobre como que,
Assim,
A atmosfera do verão,
Que é uma estação que todo mundo adora,
Que está associada a férias,
Viagem,
Curtir com os amigos,
Praia,
Tem um lado obscuro um pouco sutil,
Vamos dizer assim,
Meio embaixo do tapete,
Mas não tanto embaixo do tapete.
Principalmente pra nós mulheres,
Que é a insatisfação com o nosso corpo,
Né,
Vergonha,
Enfim,
O medo,
Às vezes,
De ir pra praia,
Toda aquela história de corpo de praia e enfim.
E aí?
Por onde a gente começa a falar sobre isso?
Bom,
Acho que primeiro pra gente contextualizar do que a gente tá falando,
O que é a insatisfação corporal?
A insatisfação corporal é uma avaliação negativa que a gente tem do nosso próprio corpo.
Não necessariamente tá ligado ao corpo das medidas que eles são,
Mas como a gente enxerga isso e o valor que a gente atribui para o corpo,
Que no caso da insatisfação corporal é um valor negativo.
Pra além disso,
Acho que algo muito importante de pontuar,
Flávia,
É que a gente tá falando de números muito grandes de insatisfação corporal.
Em uma pesquisa que foi encomendada pela Dove,
Lá em 2011,
Foi encontrado que 96% das mulheres do mundo vivem com algum nível de insatisfação corporal,
Né,
Essa pesquisa foi em 20 países então a amostra é bem grande.
Então,
Olha esse número,
Né,
96%,
A gente tá falando de uma epidemia,
A gente tá falando de um número epidêmico,
Mas não necessariamente as pessoas olham como se isso fosse uma coisa ruim,
Como se não.
.
.
Tem muito um olhar da sociedade,
Das mulheres,
Da insatisfação corporal como se fosse algo normal.
Sim.
Então é aquilo que a gente ouve,
Né,
A mulher sempre quer perder uns 5 quilinhos,
Ah não,
Mas se anulite,
Ah,
Eu também me incomodo com as minhas,
E isso acaba virando um tom de piada,
Um tom de brincadeira,
De trocar dica.
E normaliza.
E normaliza.
Então,
Mas pera ali,
Será que é algo pra ser normalizado?
Porque a insatisfação corporal ela vem acompanhada de um sofrimento,
De um sentimento de inadequação,
De um sentimento de que você precisa privar teu corpo de alimentações,
De um certo tipo de alimento,
Ou então colocar teu corpo pra passar por exercícios que não estão de acordo com uma construção interna tua,
Que é pra chegar num tipo de corpo.
Isso é sofrimento,
Né,
Níveis,
Tem algumas pesquisas que falam de níveis aumentados de ansiedade,
De depressão em pessoas que experienciam um nível de insatisfação corporal mais alto.
Então,
Por que normalizar,
Né?
Super isso.
Eu,
Você falando,
Eu lembrei assim que eu faço drenagem,
Duas vezes por semana,
E aí eu vou numa clínica que tem um trilhão de tipos de aparelhos,
E a coisa que a gente mais ouve,
Acho que qualquer pessoa que,
Qualquer mulher que já tenha frequentado uma clínica de estética vai saber,
É justamente assim,
Ah,
Mas o que te incomoda no seu corpo?
Você tem esse aparelho,
Ah,
Daí você cuidou daquela parte,
O que mais você quer mudar no seu corpo?
Então,
A gente já parte do pressuposto disso,
E eu sei que eu falando sobre isso,
Eu fazer a minha drenagem duas vezes por semana,
Também já é uma coisa super,
Assim,
A gente aceita como normal,
A gente investe dinheiro e tempo pra isso,
Mas também tá muito enraizado nisso,
De é normal,
Mas é necessário,
O que é o normal,
E é muito legal você trazer isso pra gente gerar essa reflexão de por que a gente tá tão acostumada a querer mudar o nosso corpo,
A ficar procurando o que a gente não está gostando,
E daí quando a gente resolve,
A gente passa a não gostar de uma outra coisa,
Eu acho que é mais ou menos isso,
Tem na verdade um mito,
De que se eu perder 5 quilos,
Ficarei bem com o meu corpo,
Se a minha celulite diminuir,
Se as minhas estrias desaparecerem,
Eu vou ficar feliz com o meu próprio corpo,
E aí a pessoa perde os 5 quilos,
Diminui a celulite,
Mesmo assim,
Continua infeliz com o que vê no espelho,
Porque a questão não é tão externa,
Né Flávia,
É uma questão mais interna,
Isso que você falou dos procedimentos estéticos,
Eu vejo assim,
Nas minhas leituras,
Nos meus estudos,
Que você ser mulher é um eterno não estar bom o suficiente,
Né,
Então eu convido também quem estiver ouvindo esse podcast,
Na sua experiência Flávia,
A pensar no ambiente de trabalho,
Quanto tempo os homens demoram pra ficar prontos pro trabalho,
Né,
Eles não precisam passar maquiagem,
Eles não fazem as sobrancelhas,
Tem claro algumas exceções,
Mas a regra é que não fazem,
Eles colocam ali uma camisa,
Que tem que estar bem passada,
Ou então em uma empresa mais casual,
É qualquer roupa,
E vai embora,
Né,
Enquanto é esperado da mulher,
Que ela use salto alto,
Que diminui o passo,
Dói o pé,
Não é confortável,
Né,
Uma maquiagem,
O cabelo todo arrumado,
Um monte de procedimento pra ficar digna de ser,
Né,
Puxa,
Mas tem que me arrumar para o meu chefe entender que eu estou investida no meu trabalho,
É,
Pra eu sair um encontro com um carinho,
Eu preciso fazer todo o pacote,
Tem algumas,
Né,
Brincadeiras na internet,
Né,
Que a mulher,
É,
Eu já ouvi falar assim,
Não,
Mas o cara tem que pagar mesmo o encontro,
Porque a gente tem que pagar salão e tal,
Enfim,
Eu já vi um post assim também nesse sentido,
Então,
Mas por quê?
Por que a gente precisa fazer tudo isso?
Por que a gente precisa estar o tempo inteiro tendo que mascarar nossa face,
Nosso corpo,
Nosso cabelo,
Nossos pelos,
É algo que a gente cresceu com essa certeza,
Né,
Principalmente agora tá se discutindo mais sobre isso,
Mas quando a gente era criança,
Né,
Quando a gente era adolescente,
Não se falava disso,
Não falava,
Falava-se só agora você é mocinha,
Então começa a usar batom,
Começa a se cuidar,
Começa a se cuidar,
Virou o sinônimo de você gastar o seu tempo,
O seu dinheiro com estética,
O sinônimo de você se cuidar,
O que você é cuidado,
Né,
Da onde isso foi construído,
Qual que é a tua construção,
Qual,
Acho que é um exercício bacana,
Quanto tempo você gasta fazendo esses rituais,
Né,
Por semana,
Por mês,
Por dia,
Quanto dinheiro você gasta e por quê?
Te faz bem?
É algo que realmente você sente que sem isso você ia ficar ansiosa,
Nervosa ou não ia se reconhecer,
Cada um faz o que quer do próprio corpo,
Certo?
Mas isso já foi dado como regra,
Assim,
E a gente não teve a oportunidade,
Flávia,
De pensar se isso faz sentido ou não pra gente,
Diferente dos homens,
Que se eles quiserem fazer a sobrancelha,
Eles têm a,
Eles fizeram uma construção,
Né,
Quero ou não quero,
Assim,
A gente não tem essa opção,
A nossa opção é fazer a sobrancelha,
Se maquiar,
Arrumar o cabelo,
É a única opção que a gente tem,
Né,
Que é dado pra gente,
A partir disso,
Desconstruir é muito mais difícil,
Né?
Não é,
E eu acho legal a gente falar sobre isso,
Raquel,
Porque,
Assim,
Há alguns anos atrás,
Eu comecei a entrar em contato mais com essa parte,
Né,
De insatisfação corporal e estudar,
Ler algumas autoras que falam muito sobre isso,
Algumas até falam sobre as questões das dietas eternas e como,
Enfim,
Tem muito a ver também com o feminismo e o empoderamento,
E na época que eu comecei a ler mais sobre isso,
Foi me dando vários insights que eu nunca tinha parado pra pensar,
Justamente porque é bem isso,
A gente nasce sabendo que é aquilo ali,
Menina se cuida,
Menina tá bem vestida,
Menina não fala palavrão,
Menina não grita,
Menina não ri alto,
Menina não faz várias coisas,
Menina é uma bonequinha ali que vai falar na hora certa,
Rir na hora certa e se contendo,
Né,
Sempre se contendo,
E aí eu comecei a perceber e questionar e vi que realmente é tão interiorizado que a gente não percebe que é algo que nos traz às vezes ansiedade,
Que nos deixa insatisfeitas,
Sustradas e que às vezes a gente está fazendo coisas que não fazem sentido,
E aí pra mim foi super bom isso,
Porque eu vi que tinham coisas que eu não queria fazer e eu vi que tinham coisas que eu gostava de fazer,
Então assim,
Eu gosto de usar maquiagem,
Gosto,
E eu uso,
Porque eu acho legal,
Agora fazer outras coisas pra mim não é legal,
Eu não me sinto bem,
Eu sinto como se eu estivesse me agredindo em qualquer nível que seja,
Agredindo minhas vontades,
Agredindo a minha vontade de passar tempo fazendo aquela coisa,
Pra coisas que eu não quero,
E aí eu decidi,
Tipo,
Ó,
Isso eu vou fazer,
Isso eu não vou fazer,
Né,
Então eu acho legal isso porque às vezes é uma reflexão que a gente traz e começa a ver,
Porque tem vezes que a gente entra em contato com esse tipo de discussão e é muito polarizado,
E daí vem aquele extremo que,
Ah,
Então se você quer se opor a isso,
Nunca mais se depilhe,
Jogue fora todas as suas maquiagens e use só o que você quer,
Que é um caminho,
Mas não é o único,
Então você pode encontrar o seu caminho,
E assim,
Acho que é possível você,
Assim,
Eu acho,
Quero saber a sua opinião,
Porque você psicóloga vai conseguir me ajudar melhor,
Mas eu acho que é possível chegar em um momento em que você consegue,
Por exemplo,
Cuidar do seu corpo,
Mesmo que esse cuidado seja porque você quer mudar algo nele,
Sem ser prejudicial nesses outros aspectos,
Assim,
Sem ser você querendo se conformar ou se machucar pra fazer isso,
É possível ou eu estou viajando?
Eu acho que a palavra conformar é um pouco pesada,
Né,
Porque existe essa concepção de que a aceitação é uma maneira de se conformar com o teu próprio corpo,
E não necessariamente,
Porque só através da aceitação que você consegue fazer algum tipo de mudança possível e cabível,
Porque quando você aceita o teu corpo,
Você entende quais são os limites dele,
Como ele é,
Qual a estrutura do teu corpo,
Qual é algo,
Por exemplo,
A tua altura,
Você não pode mudar a tua altura,
E tem uma frase que eu gosto,
Se todo mundo comesse igual e malhasse igual,
Ninguém teria o corpo igual do vizinho,
Porque tem algo que é nosso,
Então isso que é,
A aceitação que é disso,
Que tem algo que é único teu,
E a partir daí,
O que você quer mudar?
Primeiro,
Por que você quer mudar?
Acho que tem tantas questões envolvendo isso,
Você quer mudar porque,
Olha só,
Puxa,
Eu tô com um excesso de peso e meu joelho tá doendo muito,
E eu preciso diminuir um pouco o meu peso por conta do meu joelho,
Porque enfim,
Tá me incomodando,
É uma coisa,
Né,
Passa por um lugar,
Outra coisa é,
Eu quero perder 40 quilos porque eu quero parecer sei lá quem,
E não cabe necessariamente naquele tipo de corpo,
Então o primeiro passo pra qualquer mudança,
Por mais contraditório que pareça ser,
É a aceitação,
Qual que é o teu corpo,
O que ele consegue te proporcionar?
Mas primeiro que ele é assim,
Teu corpo existe,
E ele tem uma limitação,
E ele tem um código genético,
E ele tem uma forma dele,
Né,
Se você quiser mudar alguma coisa a partir disso,
Entenda o porquê primeiro,
Da onde tá partindo esse desejo,
Da onde tá partindo essa vontade,
O que essa vontade tá falando de ti e para ti,
Né,
E a partir disso assim,
O que é possível,
Porque olha,
É muito comum assim,
Ouvir relatos tanto no consultório quanto nas redes,
Do que o pessoal vem falar,
Que só conseguem mudar alguma coisa na alimentação,
Por exemplo,
Começar a comer mais verdura,
Comer mais salada,
Tomar mais suco,
Diminuir,
Sei lá,
Fritura,
Qualquer tipo de questão assim,
Ou diminuir até um quadro de compulsão,
Depois que tem uma aceitação corporal,
Porque aí,
Quando você aceita o teu corpo,
Aí não necessariamente você precisa amá-lo,
Né,
Você pode também ter uma relação neutra,
Uma relação de carinho,
Uma relação de afeto,
Não necessariamente é um amor incondicional,
Porque é muito difícil sair do ódio para o amor incondicional,
Né,
Uma caminhada bem árdua aí,
Que não é fácil,
Mas a partir do momento que tem essa aceitação,
Também tem um sentimento de,
Eu vou nutrir o meu corpo do que ele precisa,
E às vezes ele vai precisar de um bolo de chocolate,
Às vezes ele vai precisar de uma salada,
E é isso aí,
Porque eu entendo o meu corpo.
Então,
Eu entendo que,
De fato,
Existe uma polarização,
Mas eu não concordo com a ideia de que existe um meio termo,
Eu acho que existe o seu próprio termo,
Mas sempre a partir de um olhar gentil para o próprio corpo,
Um olhar gentil para a própria história,
Um olhar gentil para as próprias possibilidades,
Porque às vezes não é nem questão só da possibilidade do corpo,
Mas por exemplo,
Uma possibilidade econômica da pessoa,
Uma possibilidade de disponibilidade de tempo mesmo,
Cada um tem a sua realidade,
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é,
Então não tem como padronizar todo mundo,
Né?
Claro,
Com certeza,
E é muito legal falar sobre isso,
Porque eu acho que volta num assunto que aqui no podcast e em vários posts lá no Instagram,
Eu gosto de falar muito que é o autoconhecimento,
Você se voltar para dentro para entender quais são as suas necessidades,
As suas vontades,
Perceber quais elas são,
E aí a partir daí você vai se conhecendo e vai entendendo o porquê que você está querendo aquilo,
Se aquilo faz sentido,
Se aquilo é para você,
Ou se aquilo você está projetando,
Porque acho que chega agora nesse,
Não chega agora,
Porque acho que Instagram é uma ferramenta muito legal,
Mas ela gera muita frustração,
Muito estresse,
Muita ansiedade,
E acho que é principalmente porque a gente projeta muito no outro,
E aí a gente vê aqueles corpos que tem pessoas que falam que são perfeitos,
Que são mulheres muito magras ou muito malhadas,
Que vivem para isso,
Elas são pagas para serem daquele jeito.
Nem elas tem aquele corpo.
Exato,
E elas não estão satisfeitas também,
Porque se tenho dado de 96%,
Acho difícil que elas sejam uns 4%,
Não é?
E eu acho que aí,
O que que falta?
A gente vê aquilo e a gente fala,
Nossa,
Por que que eu não consigo?
E a gente esquece de olhar o por trás daquela foto,
Que aquela pessoa trabalha com aquilo,
Então aquela pessoa não come o que ela quer,
Ela come o que ela deve comer para ter aquele corpo,
Ou às vezes ela não come.
O que ela toma,
Regulação hormonal,
Remédio,
Suplemento,
Tratamento estético,
Intervenção cirúrgica,
E é 100% do tempo dela dedicado a isso.
Estão pouquíssimas as pessoas que estão ali,
E aí a gente que tem outros trabalhos,
Que às vezes tem filho,
Tem marido,
Tem família,
E tem vontades diferentes,
A gente olha aquilo e fala,
Nossa,
Corpo dos sonhos,
Mas será?
Tem algo aí nesse corpo,
Flávia,
Que é o que você está falando,
Não é nem delas,
É algo que é fabricado a partir de muito e muito esforço,
E às vezes não basta tudo isso que você numerou,
Basta mesmo em Photoshop,
Tem uma luz,
Então ainda tem essas intervenções tecnológicas,
Então não é nem delas esse corpo,
E é uma pena,
De verdade,
Eu acho uma pena que isso seja tão forte,
Porque o nosso corpo,
Ele é reflexo da nossa história,
E isso eu acho que é a coisa mais linda que se pode ter.
O nosso corpo,
Ele diz de uma singularidade nossa,
De algo que só a gente pode se inscrever no mundo,
É através daquele corpo que é único,
Então o nosso corpo,
Ele está contando aonde eu nasci,
Quem são meus pais,
Como é que era a minha alimentação na infância,
Minha ascendência,
Quantos irmãos eu tive,
Que casa que eu morei,
Que escola que eu frequentei,
Ele conta tanta coisa,
Conta pra onde eu viajei,
O que eu fiz,
Enfim,
E ver esse movimento dessas pessoas que são tão determinadas a tentar vender o ideal,
Tão ah histórico,
Sem história,
Sem significado,
Sem subjetividade,
É uma coisa que é manipulada,
Que é maquinada,
E não diz respeito à história de ninguém,
E é triste,
Porque isso também convida,
Claro que nós somos seres humanos,
Então a gente sempre idealiza,
A gente olha para aquele corpo ideal e fala,
Nossa,
Como eu queria ter aquilo,
Sem se dar conta que o nosso corpo está contando da coisa mais bonita que a gente tem,
Que é a nossa história,
Então corpo bonito é corpo que tem história,
E isso é muito difícil de se apropriar com essas imagens no Instagram o tempo inteiro sendo bombardeadas pra gente,
Então tem um movimento que eu acho muito bacana,
Que é o de seguir pessoas diversas nas redes sociais,
São pessoas dos mais diversos corpos,
Pessoas gordas,
Magras,
Sei lá,
De tudo quanto é jeito,
Porque se você for parar pra olhar pra pessoas,
Mesmo as pessoas magras do teu dia a dia,
Cada uma vai ter um corpo diferente,
As pessoas gordas,
Cada uma vai ter um corpo diferente,
E é isso que é bonito,
A nossa singularidade é bonita,
E acho que se apropriar da aceitação corporal,
É se apropriar da sua própria história.
Ah,
Achei muito bonito isso,
Eu nunca tinha parado assim pra pensar,
Eu tenho,
Nessa época que eu fiquei mais em contato com esse tipo de conteúdo,
De informação,
Eu lembro que eu fazia uma meditação,
Que eu lembro que assim,
Na época eu até escrevia uns posts que eu comecei a ver que eu nunca estava satisfeita,
Eu olhava foto,
Assim que eu tirava eu achava feia,
Aí três meses depois eu olhava a foto e falava,
Nossa que linda,
E era a mesma foto,
Então eu vi que o problema era outro,
E aí eu comecei a fazer uma meditação,
Que eu ia assim,
Fazendo aquele scan do corpo,
Mas eu ia agradecendo cada parte do corpo pelo que ela me possibilitava fazer,
E aquilo me trouxe uma conexão com o meu corpo tão maior,
E um carinho,
Um amor,
Um agradecimento,
Porque basicamente a gente só pode,
Eu estou aqui fazendo esse podcast,
Pessoas estão nos ouvindo só por causa do corpo que a gente tem,
Então as vezes a gente fica,
Vamos pegar a orelha,
Já que a gente está fazendo podcast é pra ouvir,
E tem gente que não gosta da orelha que tem,
Ai porque a minha orelha tinha que ser de outro jeito,
Mas gente,
Se ela está fazendo você ouvir,
Experenciar o mundo a partir desse sentido,
O que tem de errado com ela?
Você não pode olhar pra ela de outra maneira?
A mesma coisa do tchauzinho na escola,
Que falam assim,
Agora eu vou ter filho,
Então eu preciso fazer mais meu tríceps,
Porque eu não posso dar o tchauzinho e balançar,
Puxa vida,
Que coisa linda que você criou na vida,
E que você está colocando essa vida pra escola,
Que ela vai aprender,
Vai virar uma outra pessoa,
E você está dando um tchau e depois vai dar um abraço,
Que bom que o teu braço te proporciona esse carinho,
Esse afeto,
Mas é difícil,
Flávia,
É difícil ter esse tipo de conexão,
Esse tipo de visão,
Porque a gente,
Primeiro que assim,
É bombardeado o tempo inteiro com essas imagens irreais,
Segundo,
Que tem toda uma outra parte,
Que é um buraquinho um pouco mais fundo,
Que é uma indústria que está lucrando bilhões com mulheres que sofrem com o próprio corpo,
É uma indústria que lucra com o sofrimento,
É triste parar pra pensar nisso,
Né?
Então,
Puxa vida,
Tem tanta demanda,
Eles criam demanda,
Então olha só esse novo procedimento,
Essa nova dieta XPTO,
Pra você ficar com o corpo dos sonhos em 3 meses,
Essa demanda vai sendo criada,
E quanto mais promessa pra você atingir aquele corpo,
Menos você se conecta consigo mesmo e com o teu próprio corpo.
Total,
Realmente é muita coisa,
Essa parte de produto,
Porque realmente é um business gigante,
Nós aqui no Brasil somos os maiores números em cirurgia plástica,
Em estética,
Em não sei o que,
E não querendo julgar,
Talvez já julgando,
Não acho que é algo que a gente deveria se orgulhar,
Assim,
Já fiz o julgamento,
Não acho que é uma coisa bonita de se falar,
Porque isso é reflexo de como nós estamos acomodados na nossa insatisfação.
Exatamente,
Como a gente normaliza a nossa insatisfação.
Exatamente,
É normal e a gente faz isso com o nosso corpo,
A gente faz isso com o corpo das nossas amigas,
Tem mães que fazem com o corpo das filhas,
E é assim que a gente tem vivido por muitos anos,
Né?
Então,
Eu acho que a gente fazendo esse tipo de conteúdo,
Eu espero que,
Sabe,
A gente plante uma sementinha,
Justamente pra começar a ver com outros olhos,
Sabe?
Tem um exercício que eu gosto bastante,
Que enfim,
Acho que quem tá ouvindo pode também se beneficiar,
Que é um exercício de porcentagem,
Eu sei que muita gente não gosta de matemática,
Aí você fica,
Aí você jura,
Roquinha,
Porcentagem,
Faz isso comigo.
Mas eu juro que não é,
É só na cabeça,
Assim,
Pra abrir o seu Instagram e ver quantas pessoas no seu feed,
Né?
Nesse pessoal que vive de imagem,
Quantas pessoas têm o corpo perfeito do verão?
Eu imagino que deva ser,
Sei lá,
70%,
60%,
Né?
Do feed.
Isso,
Do feed.
Agora,
Desce no elevador do teu trabalho,
Vai tomar um café na esquina do teu trabalho,
Olha o teu redor,
Olha pra tua família,
Olha pro pessoal da tua rua,
Começa pequeno,
Pessoal do prédio,
Pessoal da rua,
Pessoal do trabalho,
Qual que é essa porcentagem?
É mínima,
Né?
Pensando nesses corpos montados,
Ideais,
É mínima,
Né?
Então,
Quando você vai pra praia mesmo,
Puxa,
Vai pra praia e ao invés de pensar no que tá sobrando e faltando no seu corpo,
Olha pros outros corpos,
Né?
Cara,
Tá todo mundo com o seu próprio corpo,
Dentro da sua própria singularidade,
Curtindo a praia,
Porque a praia,
A gente vive uma ideia de que é um lugar de um desfile de corpos.
Era lá,
Né?
A praia é um construto natural,
Assim,
Tá lá,
É natureza,
É brincar com criança,
É montar castelinho,
Sei lá,
Tomar sol,
Tomar uma cerveja com suas amigas,
Tomar um suco,
Tomar uma,
Sei lá,
Uma água de coco,
Andar de mão dada com teu companheiro da beira,
Sabe?
É muito mais que um desfile de corpos.
Total.
Então,
Acho que,
E se apropriando um pouco desses conceitos,
Vai dando um pouco mais de leveza na hora de provar um biquíni e falar,
Obrigada meu corpo,
Tá aqui o biquíni e eu vou pra praia e você precisa descansar,
Porque esse ano foi difícil,
Né?
Esse ano de 2019 foi difícil,
Então eu vou colocar o biquíni em você,
A gente vai pra praia,
Vão entrar no mar e vão tomar o sol do jeitinho que você precisa,
Com o descanso que você precisa.
É,
Esse olhar de carinho com o nosso corpo,
Assim,
Pra mim,
Raquel,
Foi o que mais mudou o meu relacionamento com,
Sabe,
Com a minha imagem,
Com como eu cuido do meu corpo.
Não vou ser hipócrita e falar pra você que,
Nossa,
Me sinto super blindada de todas essas imagens e de todas essas expectativas,
É claro que não,
Ainda mais eu que,
Eu sou uma das pessoas que me exponho nas redes sociais,
Então,
Eventualmente,
Mesmo sem perceber,
Eu estou de volta naquela coisa de,
Ó,
Meu Deus,
Mas e agora,
E agora,
E agora,
E é um trabalho de tipo,
E agora nada,
Flávia,
E agora você tá saudável,
Você tá feliz,
Você continua,
Não tem nada de errado,
Sabe?
Então,
Assim,
É claro que é um processo e mudou muito todo esse discurso,
Esse diálogo,
Não é discurso,
Esse diálogo que eu tenho com o meu corpo hoje em dia,
Com o espelho,
Às vezes,
Literalmente,
De ver todo,
Né,
Toda a história,
Tudo que o meu corpo me capacita a fazer,
Me possibilita a fazer,
Me ajudou muito,
Me ajuda ainda,
Mas é isso,
A gente tem muito pra andar ainda,
Sim,
Mas é um processo,
Né,
É o que você falou,
É um processo e não tem como se blindar,
Acho que totalmente,
Sabe?
Acho que são essas pequenas ações no dia a dia que a gente faz pra se nutrir de um outro olhar,
Porque é isso,
Tem uma indústria muito grande que lucra com isso e a gente é bombardeado,
Não tem como a gente morar nas cavernas,
Talvez se a gente morasse nas cavernas,
Seria diferente,
Mas não é bem assim,
Né,
Então,
É realmente um processo,
Acho que seguir gente diversa nas redes sociais,
De diferentes tipos de corpos,
Não só os corpos perfeitos de verão e olhar mais pra si mesmo,
Né,
São práticas que ajudam bastante.
Ai,
Eu adorei!
Obrigada!
Gostei muito!
É sempre muito gostoso conversar com você,
Raquel,
Obrigada!
Eu espero que quem esteja ouvindo esteja gostando bastante e vamos ver,
Eu sinto que vou ter que voltar mais vezes aqui no seu consultório,
Porque tem muita coisa legal pra gente falar,
Né?
Perfeito,
Tem sim,
Tem sim,
Acho que é uma construção a cada dia.
Raquel,
Quem quiser te encontrar lá no Insta,
Que é um ótimo conteúdo pra se seguir,
Já fica a dica,
Qual que é?
É arroba MqueridoCorpo no Instagram e acabei de fazer um Twitter,
Tô muito jovem!
Wow!
Nunca tive um Twitter,
Você acredita?
É ótimo,
Porque você coloca umas mensagenzinhas rapidinho e já chega o recado.
Maravilhoso!
É arroba MeuQueridoCorpo.
Tá bom,
Ótimo,
Eu vou deixar aqui escrito na descrição do podcast também.
Perfeito,
Muito obrigada!
Obrigada,
Amei.
Quero muito saber a sua opinião e as suas ideias sobre esse assunto,
Então,
Como sempre,
Eu tô te esperando lá no meu Instagram,
Que é arroba Flávia Machione,
E já aproveito pra agradecer todas as mensagens que vocês têm me mandado e o carinho que vocês têm comigo e com o bocadinho,
Eu fico muito feliz.
Na próxima semana eu tô de volta pra gente continuar esse nosso caminho de 12 episódios.
Se você tá ouvindo esse por primeiro,
Eu aconselho você a ouvir os outros e te vejo semana que vem.
Conheça seu professor
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