Há quanto tempo estás a pensar numa decisão que ainda não tomaste?
Uma semana?
Um mês?
Talvez anos?
E quanto mais tempo passa,
Mais pesada ela fica,
Mais informação tu recolhes,
Mais opiniões tu pedes,
Mais cenários tu imaginas,
E no fim ficas exatamente no mesmo lugar.
Isso não é prudência,
É paralisia disfarçada de preparação.
Olá,
Olá,
Eu sou o Marcelo e este é o Observe Logo Existo,
Um podcast de introspecção e reflexão sobre as coisas que nos prendem sem darmos conta.
Existe uma mentira muito confortável que contamos a nós próprios,
Quando não conseguimos decidir.
A mentira é que ainda não temos informação suficiente.
Mais uma pesquisa,
Mais uma conversa com alguém de confiança,
Mais um podcast,
Mais um livro,
Mais um fim de semana a pensar,
E depois decido.
Quando estiver mesmo preparado,
Quando tiver mesmo a certeza,
Eu decido.
A certeza não vem,
Ela nunca vem completamente,
E no fundo tu já sabes disso.
A verdade é que o overthinking raramente é sobre a falta de informação,
É sobre o medo,
Medo de escolher,
Medo de te arrependeres,
Medo de que as pessoas à tua volta achem que fizeste uma má decisão.
E enquanto não decides,
Mantens uma ilusão de controle,
Como se estivesse a trabalhar no assunto.
Estás a ponderar algo,
Estás a ser responsável,
Mas na prática tu estás parado,
E parado também é uma escolha,
Só que é uma escolha que fizeste sem assumir que a fizeste.
E ficar no limbo tem um preço,
Que normalmente é demasiado alto.
Quando tu não decides,
Não libertas espaço mental,
A decisão por tomar fica a corroer a tua mente em segundo plano,
A consumir energia,
A ocupar atenção que podias estar a dar a outras coisas.
Já reparaste que há decisões que ficam connosco mesmo quando nós estamos a fazer outras coisas?
Por exemplo,
Estás a jantar,
Ou estás numa conversa,
Ou até quando estás a tentar dormir e aquilo está ali,
Sempre ali,
A roubar a tua atenção.
É um processo aberto que o teu cérebro não consegue desligar porque não recebeu uma resposta.
E quanto mais tempo deixas uma decisão por tomar,
Mais ela cresce.
Aquilo que podia ser simples torna-se complexo,
Aquilo que podia ser corrigido torna-se permanente.
As opções que tinhas disponíveis vão fechando,
O tempo vai decidir por ti.
E quando o faz,
Raramente,
É o que tu gostarias que fosse.
Então porquê é que é tão difícil?
Há um fenómeno na psicologia que se chama paralisia por análise.
Quanto mais opções tu tens e quanto mais informação tu recolhes,
Mais difícil se torna decidir.
O teu cérebro interpreta a abundância de escolhas como um risco e o risco ativa o mecanismo de defesa.
Por isso é que às vezes é mais fácil decidir quando tens menos opções,
Que a limitação força a ação,
Enquanto que a tua abundância te paralisa.
Mas há outra coisa que ninguém te diz abertamente.
Muitas vezes já sabes o que queres fazer,
Já tens a resposta,
Só que a resposta assusta-te,
Que implica mudança,
Implica cortar com algo ou alguém,
Implica assumir responsabilidade pelo que vem a seguir.
E então tu continuas a recolher informação,
Não para decidir melhor,
Mas para adiar esse momento de agir.
Talvez tenhas reconhecido isto.
Deixa-me contar sobre um estudo que mudou a forma como muita gente pensa sobre as decisões.
Em 2000,
Duas investigadoras fizeram uma experiência muito simples num supermercado na Califórnia.
Montaram uma banca de desgostação de compotas.
Num dia ofereceram 24 variedades diferentes,
No outro ofereceram apenas 6.
A banca com 24 variedades atraiu mais pessoas,
Parecia mais apelativa,
Mais abundante.
Mas quando olharam para as vendas,
Os números contavam uma história completamente diferente.
A banca,
Com 6 variedades,
Vendeu 10 vezes mais.
Mais opções,
Menos decisões.
A isto chamou-se o paradoxo da escolha.
E o que é que isto significa na prática?
É que quando tens muita informação,
Muitas opções e muito tempo para pensar,
O teu cérebro não fica mais preparado para tomar uma decisão.
Fica mais confuso,
Mais ansioso,
Mais paralisado.
A sensação de que precisas de mais não é um sinal de que tu estás a ser cuidadoso.
É o próprio mecanismo da paralisia a trabalhar contra ti.
Agora deixa-me falar-te de alguém,
Não vou usar o nome real,
Não é necessário,
Mas provavelmente vais reconhecer esta pessoa,
Talvez até sejas tu.
Imagina alguém que há dois anos sabe que o emprego onde está já não faz sentido.
Não é horrível?
Mas de manhã,
Quando o despertador toca,
Há um peso,
Há aquela sensação de estar a desperdiçar tempo numa coisa que já não é tua.
Durante esses dois anos,
Fez tudo certo,
Pesquisou áreas diferentes,
Fez um curso online,
Conversou com amigos que mudaram de carreira,
Leu artigos,
Ouviu podcasts,
Fez listas de prós e contras.
Manteve-se informado.
E no final de dois anos continua no mesmo emprego,
Porque a informação toda que coquilhou no olho deu a certeza,
Deu-lhe mais perguntas,
E mais perguntas significam mais razões para esperar.
O que essa pessoa não contabilizou foram os dois anos.
Dois anos de energia gasta a gerir o desconforto de ficar.
Dois anos de ideias que não saíram do papel.
Dois anos de conversas com ela própria que não chegam a lugar nenhum.
E aqui está um detalhe que talvez seja crucial.
Quando finalmente tomou a decisão e saiu,
Olhou para trás e percebeu que a informação que precisava tinha estado disponível desde o início.
O problema nunca foi a falta de dados,
Foi o medo de agir sobre o que já sabia.
Reconheces isto?
A primeira coisa é seres honesto sobre o que está mesmo a acontecer.
Faz-te esta pergunta.
Se eu já soubesse que a decisão ia correr bem,
O que eu escolhia?
Se a resposta vier depressa,
Já sabes.
O problema não é a falta de clareza,
É a falta de coragem para agir sobre a situação.
A segunda coisa é perceber que não existe uma decisão perfeita.
Existe a melhor decisão com a informação que tens agora.
E agir com a informação imperfeita é sempre melhor do que não agir à espera da informação completa,
Que nunca vai chegar.
Todas as decisões têm margem de erro.
Todas as escolhas implicam perder alguma coisa.
Isto não é um defeito no processo,
É a natureza de decidir.
A terceira coisa,
E esta é bastante importante,
É perceber que as decisões erradas raramente são fatais.
A maior parte das coisas que tens medo de decidir,
De forma errada,
São corrigíveis.
Não de forma perfeita,
Não sem algum custo,
Mas são.
O que não é corrigível é o tempo que passas para evitar o momento.
E aqui está uma parte que eu quero que fiques com ela na tua mente.
Cada vez que tomas uma decisão,
Mesmo que seja pequena,
Mesmo que seja imperfeita,
Estás a treinar o músculo.
Estás a provar a ti próprio que és capaz de agir,
De lidar com o que vem a seguir,
De te adaptares.
E esse músculo fica mais forte com o uso.
As pessoas que parecem decididas e confiantes não nasceram assim.
Tomaram decisões,
Algumas correram mal,
Aprenderam e continuaram a decidir.
A confiança não vem antes da ação,
Vem depois.
Por isso,
Esta semana,
Identifica uma decisão que está pendente há demasiado tempo.
Não tem de ser a maior de todas,
Pode ser algo simples.
E toma.
Não amanhã,
Não quando estiveres com mais informação.
Hoje.
Toma hoje essa decisão.
O movimento,
Mesmo que imperfeito,
Quebra a paralisia.
E quando a paralisia quebra,
O espaço mental abre-se.
E quando o espaço mental se abre,
Começas a ver com mais clareza tudo o que está à tua volta.
Não precisas ter a certeza,
Precisas de dar esse passo.
Quero ouvir sobre as tuas experiências e por isso vou-te deixar os links direitos em rodapé.
Obrigado por me fazeres companhia no escuro.
Até o próximo episódio.
Um abraço.