Agora quero partilhar algo que durante muito tempo não compreendi.
Durante anos houve um professor dar orientação durante a prática de meditação.
De estar com quem está como se estivesse com um amigo.
E,
Sinceramente,
Aquilo não fazia muito sentido para mim.
Ou melhor,
Fazia,
Mas não era esse o sentido pretendido.
Porque a minha tendência,
Quando um amigo estava em dificuldade,
Era tentar ajudá-la a resolver,
Dar soluções,
Dizer o que devia fazer.
Era uma forma de cuidar,
Mas também uma forma de não estar totalmente com o que estava a acontecer.
Nos últimos anos fui experimentando algo diferente.
Estar presente.
Ouvir.
Sem julgada.
Sem dizer devias ter feito isto?
Sem tentar consertar imediatamente.
E houve um momento que me marcou.
Numa conversa com uma amiga,
Limitei-me a ouvir,
Sem julgar,
Sem dar conselhos,
Sem tentar resolver.
E no fim,
Ela agradeceu-me.
Disse que aquela conversa a tinha ajudado muito.
E eu fiquei mesmo surpreendida,
Porque na minha cabeça sentia que não tinha feito nada de especial.
Mas foi precisamente isso,
O não tentar consertar,
O estar presente.
Era aquilo que ela precisava naquele momento?
E saiu da conversa mais leve.
Isto ajudou-me a perceber algo importante.
Ajudou-me a começar a olhar para o que surge de desagradável na prática de meditação e na vida.
Como uma parte em mim que está aflita.
Como se alguém em mim naquele momento estivesse mais sensível,
Mais reativo,
Mais supercarregado.
Não é tudo o que sou,
É uma parte.
E quando julgo,
Quando evito,
Quando tento consistar rapidamente,
Essa parte que está aflita fica ainda mais aflita.
E esta ideia é também a base da prática de meditação.
Quando surge desconforto,
Não precisamos de o resolver imediatamente nem o evitar.
Podemos estar com ele como estaríamos com a amiga Felipe.
Com presença,
Com abertura,
Sem julgamento.
Às vezes churros,
Tristeza,
Outras vezes irritação,
Ansiedade,
Frustração,
Cansaço.
E poder começar a ver isto de outra forma.
Não como algo que está errado,
Mas como uma parte que está aflita.
E pode haver outra parte mais estável que consegue acompanhar.
Consegue fazer companhia.
E esta parte mais estável não precisa dizer ou acreditar que vai ficar tudo bem.
Isto é uma forma de toxicidade positiva.
E também não precisa tentar afastar rapidamente o que está a sentir.
É um simplesmente estar.
Como um pai ou uma mãe com filho doente.
O colo não é para a doença passar.
É para trazer segurança.
E este colo aqui pode ser muito simples.
Pode ser sentir a emoção no corpo.
Pode-se levar a atenção à respiração.
Ou,
Para algumas pessoas,
Um gesto simples de toque.
Levar a mão ao peito,
Numa leve carícia.
O professor que referi chama-lhe estímulo no coração e eu gosto de usar essa expressão.
Ou tocar com uma mão na outra,
Como se fizéssemos uma vestinha a nós mesmos.
Nós,
Enquanto mamíferos,
Regulamos muito através do contato,
Do toque.
Esse tipo de gesto pode ajudar o sistema a acalmar.
Internamente,
Sussurrar uma frase simples.
Eu gosto do Estou Aqui Contigo.
Não para eliminar o desconforto.
Mas para não acrescentar mais tensão.
Para fazer companhia.
Para trazer segurança.
Esta forma de estar.
Pode ser o que permita ficar.
Ficar dentro da sua janela de tolerância.
Na prática pode ser tão simples como parar um momento.
Sentir o que está no corpo.
E acompanhar essa experiência,
Em vez de tentar resolvê-la imediatamente.
Isto muda a forma como a experiência se desenrola.
Não porque desaparece imediatamente,
Mas porque nos começamos a relacionar de outra forma com o que está a acontecer.
E muitas vezes é precisamente esta forma de estar que cria as condições para que algo comece a mudar.
Isto é uma parte essencial do estado mindful.
Não é só ver.
É também a forma como se está com aquilo que se vê.
Comendo julgamento.
Com mais abertura.
Com mais cuidado e gentileza.
Isto é algo que se vai treinando,
Na prática e na vida.
Por agora é tudo.
Fique bem!