Agora quero partilhar consigo uma história pessoal sobre as tendências da mente em ação.
Não é uma história extraordinária e talvez seja precisamente por isso que pode ser útil.
Porque muitas vezes é nas situações simples e aparentemente pequenas que conseguimos ver a mente com mais clareza.
Estava de férias no buçaco com o meu marido.
A Mata do Buçaco é um lugar a que volto muitas vezes.
Eu gosto daquele espaço,
Dos caminhos,
Da vegetação,
Da sensação de entrar num lugar antigo,
Fresco,
Com a natureza exuberante.
Nessa manhã decidimos fazer um passeio pela mata.
Eu tinha também uma ideia bastante clara para o resto da manhã.
Queria voltar antes das 12 para irmos almoçar a um restaurante simpático.
Costuma ficar muito cheio depois dessa hora.
Na minha cabeça havia uma imagem agradável.
O passeio,
O regresso tranquilo,
O almoço cedo.
Uma experiência simples,
Bonita e bem encaixada.
Começámos a seguir um percurso no mapa e tudo estava bem.
Mas no fim desse percurso,
O meu marido sugeriu fazermos ainda outro caminho e eu concordei.
Só que esse segundo percurso não correu como eu imaginei.
Perdemos um pouco de tempo.
O terreno era mais difícil,
Estava a ficar calor,
Eu estava cansada,
Tinha vontade de ir à casa de banho.
E comecei a perceber que talvez não conseguíssemos voltar a tempo para aquela ideia do almoço.
E aqui as tendências começaram a aparecer com muita força.
Nesta situação não foi a tendência a desligar que ficou visível.
O que ficou claro foi a coexistência entre a tendência para agarrar e a tendência para rejeitar.
Por um lado havia o agarrar.
A minha mente estava agarrada à experiência agradável que queria ter.
O almoço cedo,
O restaurante tranquilo,
A sensação de que amanhã ia correr de uma certa forma.
E a mente dizia,
No fundo,
É isto que eu quero.
Por outro lado,
Havia rejeição.
A mente começou a rejeitar o caminho,
O calor,
O cansaço,
A dificuldade do percurso,
O fato de termos decidido seguir aquele segundo caminho,
No fundo,
A rejeitar a realidade daquele momento.
Agarrar e rejeitar estavam a coexistir.
A mente agarrava-se à experiência agradável que queria garantir e rejeitava a experiência real que estava a acontecer.
Naquele momento,
Eu via claramente o que estava a acontecer.
Eu conseguia reconhecer.
A agarrar,
À rejeição,
À irritação,
À desconforto físico.
A ideia de que isto não devia estar a acontecer.
Mas reconhecer não fez que tudo desaparecesse.
Não fiquei subitamente tranquila.
Não larguei a ideia do almoço.
A reação continuava lá,
No corpo.
Na mente,
Até no passo.
Eu dei por mim a acelerar o passo para voltar mais depressa e depois a travar-me.
A perceber que aquela pressa era também a tendência para agarrar,
A tentar recuperar o plano.
Também percebi que estava irritada com o meu marido.
Um apartamento criacopau.
Foi ele que sugeriu este percurso.
Não valeu a pena.
Agora estragou-se o plano.
E,
Ao mesmo tempo,
Havia outra parte que conseguia ver.
Isto é um estadamento.
Isto vai passar.
Isto não é a realidade inteira.
Eu não preciso de acreditar completamente nesta história.
Houve até momentos em que eu consegui ver aquilo com algum humor.
Não um humor que apagasse o desconforto,
Mas um humor que criava um bocadinho de distância.
Uma parte de mim conseguia reconhecer.
Olha,
Isto é uma boa história sobre medo.
Estou a sofrer porque queria muito chegar cedo a um restaurante.
É ridículo.
Também houve momentos muito curtos de presença e alívio.
Olhar uma árvore.
Sentir a respiração.
Notar a luz da mata.
No fundo,
Durante alguns segundos,
A natureza conseguia ajudar-me a aceder à intenção de não alimentar aquelas tendências.
A intenção de não acrescentar sofrimento.
Mas na maior parte do tempo as tendências estavam muito fortes e a mente voltava depressa a agarrar e à rejeição.
O desconforto físico estava presente,
O calor,
O cansaço,
A vontade de ir à casa de banho estavam presentes.
Isto era desconforto real.
O sofrimento acrescentado vinha da história e que a mente estava a construir em cima disto.
O isto não devia estar a acontecer.
Estragou-se a manhã.
Já não vamos chegar a tempo.
Ele não devia ter sugerido este caminho.
Eu podia ter alimentado a irritação.
Podia ter discutido.
Podia ter descarregado no meu marido.
Podia ter transformado um caminho difícil numa história muito maior.
Mas felizmente consegui reconhecer que não estava com muitos recursos.
E disse-lhe algo que estava muito incomodada,
Que estava sem recursos para lidar bem com a situação e que preferia ficar em silêncio.
Não como forma de castigo ou afastamento,
Mas como uma forma de não acrescentar mais reatividade quando a mente estava tão ativada.
Não foi uma resposta perfeita,
Mas foi prática,
Porque naquele momento a liberdade possível não era ficar a calma,
Era não transformar aquela irritação numa discussão.
Eu sabia que,
Quando chegasse ao hotel,
Aquele estado ia passar.
Sabia que o desconforto físico estava a amplificar tudo e sabia também que a ideia do almoço era apenas isso.
Uma ideia.
Uma preferência.
Um desejo legítimo de ter uma experiência agradável.
Mas não uma condição absoluta para amanhã correr bem.
Por baixo do agarrar havia uma necessidade legítima de descanso,
Conforto,
Prazer e previsibilidade.
Por baixo da rejeição havia necessidade de alívio,
De cuidado com o corpo,
De descanso,
Talvez de sentir que o meu desconforto era visto.
Mesmo assim,
A mente continuava agarrada e continuava a rejeitar.
Às vezes vemos a mente e a mente continua a fazer aquilo que faz.
A prática não nos dá controle imediato sobre estes estados.
Mas dá-nos alguma clareza e essa clareza já muda a relação com o que está a acontecer.
Houve ainda uma coisa curiosa.
No caminho,
Encontrei alguém conhecido.
O que era bastante improvável naquele lugar,
Naquele momento.
E parei durante alguns minutos a falar com essa pessoa.
E reparei que enquanto falava o desconforto da mente enfraqueceu.
A situação exterior não tinha mudado muito,
Mas a mente tinha saído por alguns minutos da história repetitiva.
A atenção abriu-se para outra coisa.
E aquele estado,
Que parecia tão sólido,
Mostrou-se mais frágil,
Mais condicionado,
Mais passageiro.
Esta história ficou comigo porque mostra algo muito simples.
As tendências podem coexistir.
Podemos agarrar uma experiência desejada e rejeitar a experiência real ao mesmo tempo.
Podemos reconhecer isso e ainda assim continuar presos durante algum tempo.
E podemos não conseguir eliminar o sofrimento,
Mas conseguir não acrescentar mais sofrimento.
Conhecer não é pouco.
Conhecer pode ser a diferença entre sentir irritação e transformar a irritação numa discussão.
Entre sentir frustração e transformar frustração numa história mais longa.
Entre estar desconfortável e acreditar que tudo está errado.
As vezes a prática é isto,
Ver o que está a acontecer,
Sentir o corpo,
Reconhecer a tendência,
Criar algum espaço e escolher a resposta possível,
A resposta possível naquele momento.
Não a perfeita,
Mas a real.
E é nesta prática real,
No meio das caminhadas,
Do calor,
Dos plantos que mudam,
Do desconforto físico e das expectativas frustradas.
Começamos a conhecer melhor a mente.
Por agora é tudo.
Fique bem!