Bem-vindos a esta meditação.
Hoje convido-vos a considerar a surpresa da vida tão inesperada e incontrolável.
A forma como nos podemos deixar envolver pela surpresa.
Não vem!
E no mal.
Como o podemos amar sem prender.
Para praticar o desapego,
Sem sofrer pela separação.
Algo tão simples na teoria e tão desafiante na prática.
Como sempre,
Começamos por adotar uma posição confortável,
Sentados ou deitados.
E se nos sentirmos bem,
Fechamos os olhos.
Senão baixamos apenas o olhar.
Sentimos o nosso corpo a habituar-se a este momento,
A esta pausa.
Orientamos a atenção para os nossos pés sentimos esse ponto de contacto com a superfície em que nos apoiamos.
Permitimos que se soltem e encontrem a sua posição natural.
Concentrámonos agora nas pernas e nas coxas.
Vemos como os músculos se vão relaxando.
Subimos pela barriga,
O peito,
Os ombros.
Deixamos que os ombros descaiam um pouco mais.
Sentimos então o nosso pescoço,
Toda a cabeça.
Aproximamo-nos de nós mesmos no nosso corpo.
Sem querer alterar nada.
Apenas a ouvir.
A observar.
E fazemos duas inspirações bem profundas e intencionais.
Inspiramos pelo nariz e expiramos pela boca.
Criamos espaço interior e exterior.
Apercebemos-nos de como temos esta capacidade de nos expandirmos.
A vida acontece.
O tempo passa e,
Por vezes,
Parece que tudo se alinha.
Atingimos uma certa consciência e conseguimos realmente saborear a vida.
Celebramos a vitória,
Deixamos de correr atrás,
De nos deixar puxar pela vontade,
De pensar no que falta por fazer.
O futuro não nos aflige tanto.
Integramos o passado e vemos-nos a aproveitar o bom do momento.
Sentimo-nos bem.
Até que chegue o momento verdadeiro em que se trocam as voltas.
A vida nos surpreende e,
De repente,
O que o momento traz é algo inequivocamente mau.
Sem dourar a pílula,
Sem metáforas,
Nem exageros.
A traição rasga,
A pobreza desequilibra e assusta,
A doença arrasa,
A morte rouba,
A perda prende-nos num só fôlego.
Quando passamos por uma perda,
Seja de que forma for,
Sentimos dor.
É inevitável na vida.
Pode ser imprevisível e muitas vezes.
E a avassaladora.
Não há muito a dizer.
Não há muito a fazer.
No meio do turbilhão.
Sobrevivemos como podemos e tentamos seguir em frente.
Quando estamos de fora a observar alguém que amamos no turbilhão da perda.
A nossa impotência é incontornável.
Percebemos como somos frágeis,
Nós e eles,
Juntos,
Nesta experiência confusa.
E hoje convido-vos a considerar a surpresa da vida nesta dualidade.
No positivo e no negativo.
Na alegria e na tristeza.
Na dor e no prazer.
Temos plena noção de que umas não existem sem as outras.
Mas tantas vezes tentamos evitar.
Fugir.
Lutar contra os lados negativos.
Sendo mais fácil querer saborear e manter a sensação física da emoção e da alegria,
Sabemos que ainda assim ela desvanece e passa como o correr da vida.
Outras coisas exigem a nossa atenção.
Então,
Quando a sensação física.
E a emoção da tristeza.
Causada por uma perda nos atinge.
Porquê gastar tanta energia a evitar ou a lutar?
Por que não assentar os dois pés no chão e deixarmo-nos estar nesse momento,
Nessa surpresa?
Segurar que,
Tal como no bom,
Também os momentos maus desvanecem e passam,
Como o tal correr da vida.
Será certamente menos cansativo permitir que os nossos pensamentos se confrontem com a realidade do que está a acontecer em vez de tentarmos distrair e contrariar o que claramente sentimos em todo o nosso ser.
De uma forma ou de outra,
Todos já fomos percebendo que pagamos o custo dessa contradição no corpo,
Na nossa energia.
O confronto chega sempre,
Mais cedo ou mais tarde.
E podemos ficar aqui uns instantes,
A contemplar essa surpresa.
Não defendo de modo algum o mergulho no abismo da dor.
Em que não nos devemos proteger e avançar de um momento de perda.
Todos conhecemos bem a montanha russa das emoções.
E sabemos como é difícil a vida nestas fases.
Mas a vida também nos mostra que há diferentes opções,
Diferentes caminhos.
Na meditação aprendemos simplesmente a aceitar.
Aceitar o que se passa no nosso corpo,
Na nossa mente,
Com naturalidade.
Em espaço,
Respeito e amor próprio.
Naturalmente,
O benefício dessa aceitação em meditação é depois sentir como a praticamos no cotidiano,
Em diferentes momentos da vida.
Sentir como nos poupamos tanta dor e sofrimento quando paramos de lutar,
De empregar tanta energia a tentar mudar o que é.
Quando colocamos em prática,
Percebemos do quanto isso nos ajuda a saborear o bom e a permitir o correr da vida,
Dia a dia,
Passo a passo.
De igual modo,
É importante reconhecer como isso surge em momentos de perda,
De tristeza.
É difícil explicar,
Mas com a prática da meditação Parece que a nossa mente se orienta naturalmente para uma postura de observação.
De aceitação.
Sentimos na pele a dualidade.
Parte de nós,
Sento o choque e a surpresa da vida a acontecer,
Vê toda a sua glória e não luta.
Há uma inclinação para nos sentarmos com essa dor.
Para encarar para a deixar existir em nós,
Quando ao mesmo tempo algo primordial,
Instintivo,
Quase no corpo,
Tenta apressar,
Surgir,
Ultrapassar a fase.
Pode ser uma confusão desconhecida.
A memória dos múltiplos momentos de meditação diz-nos como é natural o que sentimos.
As ligações no nosso cérebro fazem essa associação e apontam para o que é mais benéfico.
O que resistimos persiste,
O que aceitamos transforma-se.
Deixamo-nos estar com essa perda.
E se neste momento a vossa vida não é só sol e flores e alegria.
Espero que saibam que não estão sós.
Estamos todos juntos nesta experiência humana,
Numa experiência coletiva,
Tão individual quanto partilhada.
Nesta partilha,
Deixo esta proposta.
Porque aceitemos a surpresa da vida tão doce quanto amarga.
Aqui no momento da amargura.
Nos demos ao luxo de sentir o que essa surpresa nos traz,
Que nos deixamos envolver pela onda até ela se gastar.
Não me atrevo a falar de tentar perceber,
Porque na maioria das vezes não há muito a perceber no sofrimento.
Mas há sim muito para encontrar.
No meio de um turbilhão de dor.
Encontramos,
Por vezes,
Muito do outro lado.
Encontramos amor.
Na mais absoluta perda vemos a nossa capacidade tremenda de amar.
E é essa beleza que vislumbramos na tal aceitação.
Como as dores que sentimos espelham quase sempre isso.
Nascem e são resultado de amor.
Por vezes do nosso amor,
Por vezes do amor de outros.
E que pena seria se uma e outra vez tentássemos fugir e perdéssemos ainda esse amor que está do outro lado?
Não se trata de perpetuar a dor,
Nem o sofrimento.
Não se trata de aligerar traumas,
Nem ignorar algo que é errado.
Simplesmente propõem a experimentar algo novo.
Ocuparmo-nos,
Sim,
Em energia,
No instinto de fugir ou lutar.
E questionar o que está do lado dessa dor.
Senão será a morte.
Se no meio do sofrimento não vemos também o nosso amor próprio.
Mesmo quando alguém nos magoa ao agir contra o nosso próprio ser?
Não é o nosso amor próprio que nos declama a nossa atenção?
Na base dessa dor não encontramos exatamente o nosso amor próprio.
A exigir que nos respeitemos e nos cuidemos?
Ouvimos tantas vezes,
A vida é assim,
É seguir em frente.
Pois que tal hoje dizermos antes a surpresa da vida é assim,
Na escuridão e na luz?
É em seguir em frente,
Porque no caminho encontramos,
Invariavelmente,
Uma forma de amor.
Obrigada por estarem aqui hoje.
Por fazerem este tempo para vocês mesmos.
Espero que encontrem também no caminho uma forma de amor.