Bem-vindo ao podcast do Mundo das Pessoas Altamente Sensíveis.
Eu sou a Sophia Loureiro e sou a tua anfitriã na jornada de conhecimento deste traço de personalidade,
Para aprenderes a criar uma vida mais alinhada com a tua alta sensibilidade,
Onde harmonia,
Corpo e mente se unem num estado natural de serenidade.
Olá e bem-vindos a mais um episódio do Mundo das Pessoas Altamente Sensíveis.
Eu hoje estou muito contente porque vou iniciar uma rúbrica dentro do Mundo das Pessoas Altamente Sensíveis,
Que são os Contos de Cristal,
Onde vamos partilhar textos,
Narrativas,
Poemas inspiracionais,
Sempre também com um fundo de mindfulness,
Ou seja,
De atenção plena às nossas emoções,
Aos nossos sentimentos,
Através de todas estas narrativas que vou partilhando ao longo dos Contos de Cristal.
E eu vou iniciar este episódio dos Contos de Cristal com A Mulher-Esqueleto.
A Mulher-Esqueleto é um dos meus contos favoritos e vem num livro chamado As Mulheres que Correm com os Lobos,
Da Clarissa Pinkolo Estes,
Uma psicoanalista americana.
E este livro,
As Mulheres que Correm com os Lobos,
É um livro dos anos 90,
Que já se encontra traduzido tanto para português brasileiro como para português europeu.
Portanto,
Já podem encontrar estas edições em vários países.
Além disso,
É um livro que eu tenho por acaso realmente já desde os anos 90,
A versão original em inglês,
E é um livro que tem muitos contos e ela vai analisando os contos desde um ponto de vista,
Neste caso,
Por exemplo,
Da parte feminina e da parte selvagem feminina.
Portanto,
É um livro denso,
É bastante denso,
Mas é um livro muito interessante.
Então,
Um dos contos que ela fala é A Mulher-Esqueleto,
Que eu vou então passar a ler.
Ela havia feito alguma coisa que o seu pai não aprovava,
Embora ninguém mais se lembrasse do que tinha sido.
O seu pai,
No entanto,
Havia arrastado até aos penhascos,
Atirando ao mar.
Lá os peixes devoraram a sua cara e enquanto jazia no fundo do mar,
O seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.
Um dia,
Um pescador veio pescar.
Na verdade,
Em outros times muitos costumavam ir a essa baía pescar.
No entanto,
Já não ia quase ninguém,
Porque os pescadores da região não iam ali sobre a alegação de que a enseada estava mal-assombrada.
Então o pescador lançou o anzol que foi descendo pela água abaixo e logo se prendeu nos ossos das costelas da mulher-esqueleto.
O pescador pensou,
Opá,
Agora peguei um peixe grande de verdade,
Agora peguei um mesmo.
Na sua imaginação,
Ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar,
Quanto tempo sua carne duraria,
Quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar.
E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta de um anzol,
O mar encapelou-se com uma espuma agitada e o barco empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo,
Que lutava para se soltar,
Era a mulher-esqueleto.
E quanto mais ela lutava,
Mais ela se enredava na linha e não importa o que fizesse,
Ela estava sendo arrastada para a superfície,
Puxada pelos ossos das próprias costelas.
O pescador tinha-se voltado para recolher a rede e por isso não viu a cabeça calva surgir acima das ondas,
Não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio,
Não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim.
Quando ele voltou-se com a rede nas mãos,
O esqueleto inteiro no estado em que estava já tinha chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do barco pelos dentes incisivos.
Gritou o homem e o seu coração afundou até os joelhos,
Os seus olhos esconderam-se apavorados no fundo da cabeça e as suas orelhas arderam num vermelho forte.
Berrou ele,
Soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra.
Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha,
Ele ficou ainda mais assustado porque ela parecia estar em pé em cima das águas,
A perseguiu o tempo todo até à praia.
Não importava de que jeito ele desviasse o barco,
Ela continuava ali atrás.
A sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água e os seus braços agitavam-se como se quisessem agarrá-lo para levá-lo até às profundezas.
Ah!
Uivava ele quando o barco encalhou na praia.
De um salto,
Ele estava fora da embarcação e saía correndo,
Agarrado à vara de pescar.
E o cadáver branco da mulher-esqueleto,
Ainda presa à linha de pescar,
Vinha aos chulavancos bem atrás dele.
Ele correu pelas pedras e ela acompanhou-o.
Ele atravessou a tundra negra,
Gelada,
E ela não se distanciou.
Ele passou por cima da carne que tinha deixado a secar,
Rachando-o em pedaços com as passadas.
O tempo todo ela continuou atrás dele.
Na verdade,
Ela até pegou um pedaço de peixe congelado enquanto era arrastada e logo começou a comer,
Porque há muito,
Muito tempo não se saciava.
Finalmente o homem chegou ao seu refúgio.
Enfiou-se direito no túnel e de quatro engatinhou de qualquer jeito para dentro.
Na cabana,
Ofegante e soluçante,
Ele ficou ali deitado no escuro,
Com o coração a parecer um tambor,
Um tambor enorme.
Afinal,
Estava seguro,
Tão seguro,
Seguro graças aos deuses,
Graças à toda generosa serna em segurança,
Afinal.
Imaginem,
Quando ele acendeu a sua lamparina de óleo,
Ali estava ela,
Aquilo,
Jogado num monte,
No chão,
Com o calcanhar sobre um ombro,
Um joelho preso nas costelas,
Um pé por cima do cotovelo.
Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu.
Talvez a luz tivesse suavizado as suas feições,
Talvez fosse o fato dele ser um homem solitário.
Mas a sua respiração ganhou um qui de delicadeza,
Bem devagar,
Ele estendeu as mãos encardidas e falando baixinho,
Como a mãe fala com o filho,
Começou a soltá-la da linha de pescar.
Oh,
Nã-nã-nã,
Ele primeiro solta os dedos dos pés,
Depois os trunzelos,
Oh nã-nã-nã.
Trabalhou sem parar noite dentro,
Até cobri-la de peles para aquecê-la,
Já que os ossos da minha esqueleto eram iguaisinhos aos de um ser humano.
Ele procurou a sua caixa de fósforos na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender um pequeno fogo.
Ficou a olhar para ela de vez em quando,
Enquanto passava o óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente a sua linha de seda e ela,
No meio das peles,
Não pronunciava a palavra,
Não tinha coragem,
Para que o pescador não a vasse lá para fora e a jogasse mais uma vez para as pedras,
Quebrando totalmente os seus ossos.
O homem começou a sentir sono,
Enfiou-se nas peles de dormir e logo estava a sonhar.
E às vezes,
Quando os seres humanos dormem,
Acontece-te uma lágrima escapar do olho de quem sonha.
Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso,
Mas sabemos ou é um sonho de tristeza ou de anseio.
E foi isso que aconteceu com o homem,
A mulher esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo e,
De repente,
Ela sentiu uma sede daquelas.
Ela aproximou-se do homem que dormia,
Rangendo e retinindo,
E pôs a boca junto à lágrima.
Aquela única lágrima.
Foi como um rio,
Que ela bebeu,
Bebeu e bebeu,
Até saciar a sua sede de tantos anos.
Enquanto estava deitado ao seu lado,
Ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retinou o seu coração,
Aquele tambor,
Forte.
Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração,
Pam,
Pam,
Pam,
Pam.
Enquanto marcava o ritmo,
Ela começou a cantar em voz alta,
Carne,
Carne,
Carne,
E quanto mais cantava,
Mais o seu corpo se revestia de carne.
Ela cantou para ter cabelo,
Olhos saudáveis e mãos boas e gordas.
Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e darem calor,
E todas as coisas de que as mulheres precisam.
Quando estava pronta,
Ela também cantou para despir o homem que dormia e enfiou-se na cama com ele,
A pele de um tocando a do outro.
Ela devolveu o grande tambor,
O coração,
Ao corpo dele e foi assim que acordaram abraçados um ao outro,
Enredados da noite juntos,
Agora de outra maneira,
De uma maneira boa e duradoura.
As pessoas não se conseguem lembrar de como aconteceu a desgraça à mulher esqueleto,
Mas ela e o pescador foram-se embora e foram sempre bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo de água.
As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.
Espero que tenham gostado desta partilha do conto de mulher esqueleto,
Se quiserem ler o conto está escrito,
O original é nas mulheres que correm com os lobos da Clarissa Pincola Esteves.
E agora podemos fazer uma reflexão,
Todos juntos,
Sobre o que representa este conto,
As diferentes simbologias e como é que ele se pode transportar para a nossa vida.
A mulher esqueleto neste conto representa a vulnerabilidade.
As nossas fragilidades conseguem identificar isso neste conto.
E o homem a correr e a refugiar-se simboliza um modo como nós,
Também na nossa vida,
Temos uma incrível dificuldade em aceitar as nossas vulnerabilidades e quando estamos a falar de pessoas altamente sensíveis estamos a falar que há muitas vezes também uma grande dificuldade em aceitar a alta sensibilidade e como é que nós vamos nos relacionar com ela.
Então,
Como reflexão deste conto,
O que aconteceu foi que depois o pescador,
Depois de tanto fugir e de chegar ao seu refúgio,
Encontrou um verdadeiro refúgio no seu coração e abriu em coração a vulnerabilidade da mulher esqueleto,
Que ele nutriu e houve um renascer.
Portanto,
Este conto fala muito dos ciclos da vida que nós vamos passando,
Dos ciclos de nascimento,
Morte e renascimento,
Nas diferentes etapas que nós passamos na nossa vida.
E então nós podemos refletir para a nossa vida de que modo é que nós estamos,
Por exemplo,
Nalguma situação presente,
A fugir da nossa vulnerabilidade,
Das nossas inseguranças.
Se quiserem,
Podem fechar os olhos para refletir em algum aspecto presentemente,
Vos esteja a preocupar,
Vos tirar o sono à noite e como é que vocês estão a relacionar.
Estamos a relacionar-nos com o pescador,
Que ao início fugiu e não queria enfrentar essa parte,
Ou já estamos no estágio em que começamos a desenredar as linhas e a começar a nutrir essa parte de nós.
Qual é que é a nossa vulnerabilidade neste momento?
É o medo?
É a dificuldade em nos relacionarmos com algum aspecto de nós próprios,
Ou dos outros,
Ou uma perda de saúde,
Ou de trabalho,
Ou de algum ente querido?
E como é que isso está a expressar,
Essa insegurança,
Essa vulnerabilidade,
A nível do nosso corpo?
Onde é que ela se manifesta?
Depois de identificar o medo do nosso corpo,
Onde é que essa emoção ou esse sentimento se está a manifestar?
Essa insegurança,
Esse medo,
Essa preocupação,
Essa culpa,
Essa vergonha,
Como é que ela está a manifestar no nosso corpo?
E agora,
Com que palavras é que eu poderia nutri-la,
Como pescador,
No conto da parte de esqueleto,
Como é que eu posso enviar compaixão para essa parte de mim,
Para essa parte mais vulnerável,
Que é no fundo um portal,
Um portal de libertação,
Um portal de auto-compaixão.
Posso enviar mensagens muito simples de eu reconheço-te,
Tu pertences,
Está tudo bem,
Eu entendo-te,
Vamos nutrir essa parte de nós que é mais vulnerável e que muitas vezes fica na sombra,
Mas que muitas vezes acaba por editar os nossos comportamentos do dia-a-dia,
Sobre a forma de ansiedade,
Ou sobre a forma de ter tristeza,
Ou angústia,
Ou depressão.
O que nós resistimos persiste e para onde nós enviamos a nossa bondade e a vergonha.
E agora se quiserem abram os olhos,
Quem estava com os olhos fechados,
Espero que este momento reflexão,
Através deste conto incrível que é a mulher-esqueleto,
Em que estamos a falar dos ciclos da vida,
E da morte,
E da aceitação,
Vos possa ter ajudado a identificar qualquer coisa na vossa vida que também precise dessa auto-compaixão que o pescador no fim foi capaz de ter com a mulher-esqueleto.
Essa parte vulnerável de nós,
Que precisa de bondade e compaixão.
Muito obrigada pela vossa presença,
Por estarem aqui na primeira rúbrica dos Contos Cristal de O Mundo das Pessoas Altamente Sensíveis,
E até ao próximo episódio.
Um grande Namastê.
Bem-vindo ao podcast O Mundo das Pessoas Altamente Sensíveis.
Eu sou a Sofia Loureiro e sou a tua confederante na jornada de conhecimento deste trato de personalidade,
Para aprenderes a criar uma vida mais alinhada com a tua alta sensibilidade,
Onde harmonia,
Corpo e mente se unem num estado natural de serenidade.