Quem sou eu?
Sinto alguma necessidade de abordar esta questão de forma improvisada,
No fundo para procurar encontrar uma resposta mais verdadeira.
Irei começar por refletir por quem eu era.
Durante muito tempo,
Durante quase toda a minha vida,
Fui um polícia super dedicado,
Durante mais de vinte anos,
Com uma dedicação extrema,
À minha missão e à justiça.
Mas,
Dois acontecimentos fizeram-me pôr em causa toda essa forma de abordar quem eu era.
Primeiro foi a separação do meu filho mais novo,
Miguel,
Que ao separar-me da mãe dele ficou a viver numa cidade diferente,
Afastada da cidade onde vivo,
A cerca de trezentos quilómetros.
Depois,
Foi um acidente de aviação que os meus pais tiveram,
Em que,
Como consequência desse acidente,
Tiveram que ir para casa com assistência permanente e tive que cuidar deles,
Naquilo que foi um desafio para mim,
Que eu qualificaria como o período mais desafiante da minha vida.
E tudo isto fez-me questionar o caminho que tinha seguido e fez-me procurar novos caminhos.
E nessa procura tive a felicidade de encontrar a meditação.
E esta questão,
Quem sou eu,
É talvez uma das questões principais da meditação e que a meditação mais trabalha.
A meditação trabalha esta questão,
Sobretudo,
Como uma forma de desconstruir todas as categorias ou caixas que nós vamos construindo ao longo da nossa vida.
Eu sou pai,
Eu sou filho,
Eu sou uma profissão,
Eu sou uma religião,
Eu sou até um clube de futebol.
E com a meditação começamos a perceber que há que destruir essas caixas e assumir a nossa plenitude.
E a nossa plenitude surge quando nós deixamos de ter a necessidade de acrescentar algo a eu sou.
Porque,
Na verdade,
Nós simplesmente somos,
Somos nós.
E é todo esse trabalho que a meditação nos leva a encontrar e a procurar.
Depois,
A meditação nesta questão leva a uma outra dimensão,
Que é a dimensão da nossa visão.
Ela permite-nos termos contacto connosco próprios,
Com o nosso íntimo,
Com a profundidade do nosso ser.
Ela permite-nos criar uma visão daquilo que pode ser a nossa vida e nós próprios.
E há uma frase que eu ouvi muitas vezes de David G,
Que é,
Quando eu deixo de ser o que sou,
Eu torno-me naquilo que posso ser,
Nessa possibilidade.
Ou seja,
O vazio da meditação permite-nos ocupar esse espaço com uma nova dimensão.
No fundo,
Muito ligado à transformação e à evolução.
E a verdade é que eu construí uma visão e fui capaz,
Ao longo do tempo,
De concretizar essa visão,
Não só ao nível do que eu queria que fosse a minha vida,
Como aquilo que eu queria me transformar nesse processo.
E daí percebermos que estas transformações a nível da nossa vida e a nível pessoal,
São transformações ao nível de uma evolução e ao nível de uma rotura.
Porque para eu tornar-me em alguma coisa,
Muitas vezes eu preciso do espaço necessário para poder-me tornar nessa coisa.
E aí há uma rotura com um caminho anterior,
Uma rotura que na minha vida foi,
Por exemplo,
Deixar de ser polícia para me tornar naquilo que sou hoje,
Onde nem sequer tenho a necessidade de me identificar como uma profissão.
E isto é um processo contínuo.
Quase todos os dias eu procuro colocar esta mesma questão,
Ou seja,
A questão de quem eu sou e todos os dias vou descobrindo novas dimensões nesta questão.
É óbvio que isto transporta-nos também para um outro aspecto muito importante da meditação,
Que é o foco no presente.
Para eu perceber quem eu sou,
Eu tenho que estar permanentemente focado no presente e focado naquilo que eu estou a ser nesse momento.
Mas sem perder uma visão do futuro,
Não um futuro em termos de ansiedade,
Não um futuro em termos de algo que eu quero,
Um futuro onde eu vejo qual é o caminho que eu quero fazer e é onde eu quero chegar,
Mas estando sim focado no presente.
Temos que eliminar todas estas barreiras de categorização,
Todas estas barreiras de identificação,
Porque no fundo são tudo limitações para nós nos assumirmos livremente e não termos necessidade de rótulos e podermos expandir-nos como pessoas e como seres humanos.
Eu diria que não sei como definir o que sou,
Mas mais do que isso,
Não quero definir quem eu sou,
Não preciso definir quem eu sou,
Porque ao fazê-lo isso seria um limite para me expandir enquanto ser humano e expandir a minha consciência.
No fundo sou livre,
Infinito e em expansão como o universo.