
Helena e o Mar
by Pedro Nunes
Esta é a história de Helena, uma mulher como tantas outras, que se encontra num momento complicado da sua vida. Ao ver pela primeira vez o mar, a sua vida vai sofrer uma transformação positiva e ganhar uma nova perspectiva.
Transcrição
O vento chicoteava o rosto de Helena,
Carregado com o salítrio que lhe arrepiava a pele.
Aos 50 anos,
A vida tinha-lhe oferecido uma dose generosa de ilusões.
Um casamento falhado,
A distância dos filhos,
A frustração na carreira.
Carregava o peso do mundo nos ombros e a esperança era uma chama quase extinta.
Naquele dia,
Porém,
Algo era diferente.
Pela primeira vez,
Helena via o mar.
Não o mar das fotografias ou dos filmes,
Mas o mar de verdade,
Imenso e poderoso,
A estender-se até onde a vista alcançava.
As ondas,
Coroadas de espuma branca,
Quebravam na areia com um rugido que lhe enchia o peito.
Hipnotizada,
Helena descalçou os sapatos e caminhou em direção à água.
A areia,
Fria e úmida,
Afundava sobre os seus pés e a cada passo sentia o peso das mágoas a diminuir.
A água gelada envolveu-lhe os tornozelos,
Depois as pernas,
E um arrepio percorreu-lhe a espinha.
Era como se o mar lavasse não só o seu corpo,
Mas também a sua alma.
Tomando coragem,
Helena mergulhou.
A sensação foi indescritível.
A água,
Salgada,
Envolveu-a por completo,
Abafando os ruídos do mundo e deixando apenas o ritmo suave das ondas.
Sentiu-se leve,
Livre,
Como se flutuasse num espaço sem gravidade.
O ritmo da sua respiração sincronizava-se com o ritmo das ondas,
De uma forma natural,
Como se ela pertencesse ao mar.
Naquele preciso instante de comunhão,
Não havia a Helena-mãe.
A Helena-esposa.
A Helena-empregada.
A Helena-frustrada.
A Helena-cansada.
E,
Sem ânimo,
A Helena-fracassada.
Havia a Helena.
Apenas e somente a Helena.
Sentiu-se subitamente uma sensação de paz a percorrer-lhe o corpo.
Uma tranquilidade que já há muito não sabia o que era.
Reparou também que,
Enquanto nadava,
As memórias dolorosas da sua vida foram-se dissipando,
Como a espuma das ondas se dissipa na areia.
O mar acolhia-a sem julgamentos,
Abraçando-a com a sua imensidão.
Foi então naquele momento que Helena compreendeu.
A vida,
Tal como o mar,
Tem os seus altos e baixos,
As suas tempestades e calmarias.
Mas mesmo nas maiores tormentas,
Havia beleza,
Havia força,
Havia esperança.
E ela,
Tal como o mar,
Era forte.
Mais forte do que alguma vez imaginara.
Helena iria ultrapassar esta tormenta.
Ao sair da água,
Helena era uma mulher diferente.
Reparou que o sol brilhava com mais intensidade.
As cores pareciam-lhe mais vivas.
E o peso do passado já não a esmagava de forma sufocante.
O mar tinha-lhe dado um presente inestimável.
A paz interior e a certeza que,
Mesmo aos 50 anos,
Iria sobreviver a todas as adversidades que a vida lhe trouxera.
A partir daquele dia,
Helena passou a procurar o mar sempre que podia.
Ele era o seu refúgio,
O seu lugar de paz,
Onde se reencontrava a si mesma e se conectava com a força da natureza.
E,
A cada mergulho,
A amargura se dissolvia um pouco mais,
Dando lugar à felicidade simples e genuína de quem finalmente se encontra.
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4.5 (4)
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